A inteligência dos enxames... na sua empresa

Jorge Nascimento Rodrigues entrevista Christopher Meyer visto pelo traço de Paulo Buchinho

Não se escandalize por "descer" ao nível dos insectos. Nem fique com fobias. Não vamos enfiá-lo à força num formigueiro ou numa colmeia para aprender
a gerir pessoas e organizar as suas actividades. O objectivo de Chris Meyer, vice-presidente da Cap Gemini Ernst & Young, director do Center for Business Innovation e considerado um dos 25 consultores mais influentes
da actualidade, é de levar o gestor e o empreendedor a perceber
a inteligência das sociedades de insectos.
E a "copiar" aquilo que os cientistas da inteligência artificial descobriram
nas sociedades de insectos: regras simples, altamente eficazes,
para defrontar problemas complicadissimos para serem lidados pela robótica
e pelos "agentes" inteligentes no software.
Na gestão, os "testes" estão em curso em áreas tão diferentes
como a logística, a alocação de recursos, o planeamento fabril, o "routing" nas telecomunicações, e mesmo na Internet, e a prospecção
de novas oportunidades e mercados.

Livro «Swarm Intelligence» | Pistas de investigação
Artigo na Harvard Business Review

Não se trata de conversa fiada em torno da biologia. Está na moda entre a elite bem pensante citar umas coisas do "bio" para dar força aos argumentos. Não se trata de retórica, mas de gestão pura e dura para os "práticos" do terreno.

O que Christopher Meyer e a sua equipa no Center for Business Innovation, em Cambridge (do outro lado de Boston), andaram a fazer nestes últimos tempos foi a meter a cabeça nas sociedades de insectos.

É sabido há muito que, por exemplo, as formigas, as térmitas (formigas brancas) e as abelhas vivem em sociedades superorganizadas e integradas nos seus formigueiros e colmeias, a que os biólogos já chamaram de "superorganismos". O modelo social da vida colectiva destes insectos serviu, desde a Antiguidade, como metáfora para as ciências políticas e a sociologia.

Nos anos 90 do século XX, os especialistas da computação descobriram que era mais "rentável" para as suas investigações tentar replicar este tipo de inteligência no software ou nos robôs, do que procurar "clonar" a inteligência dos humanos. Chegou, agora, a vez dos consultores em gestão descobrirem este mundo.

As sociedades de insectos funcionam sem supervisão. A coordenação nasce naturalmente das próprias interacções entre os membros de um enxame de abelhas ou de uma colónia de formiguinhas. Ainda que as interacções sejam primitivas e simples, aparentemente entre indivíduos "estúpidos", em conjunto resultam em soluções eficazes para problemas complexos num ambiente terrivelmente adverso e imprevisto. O segredo é trabalho de grupo, auto-organização, flexibilidade, o que tem apaixonado alguns teóricos da gestão ultimamente perplexos com este paradoxo: indivíduos aparentemente "estúpidos" em sociedades colectivamente inteligentes.

O Center for Business Intelligence da Cap Gemini Ernst & Young, dirigido por Chris Meyer, criou, entretanto em "joint-venture" com o Sante Fe Institute, o Bios Group para desenvolver aplicações para o mundo empresarial. O grupo tem hoje 100 pessoas a trabalhar, sobretudo, em Santa Fé, no Novo México (sul dos Estados Unidos), na maioria doutorados em áreas tão diferentes (e aparentemente tão distantes dos nossos MBAs) como a física e a biologia. Além da Cap Gemini, o grupo tem, agora, outros investidores como a Ford e a Procter & Gamble. O Bios Group que tem como lema "a ciência para os negócios" tem subsidiárias na Europa, em França (EuroBios), em Inglaterra e em Sófia (na Bulgária).

Capa do livro Swarm Intelligence Meyer publicou, entretanto, em 2001, Swarm Intelligence: From Natural to Artificial Systems (compra do livro), e escreveu com Eric Bonabeau um artigo de divulgação na revista Harvard Business Review (edição de Maio 2001, volume 79, número 5), com o título sugestivo: «Swarm Intelligence: A whole new way to think about business». Meyer é conhecido por obras pioneiras na área da Economia Digital, como Blur: The Speed of Change in the Connected Economy (compra do livro) e Future Wealth (compra do livro).

Ele tem 52 anos e a mulher fala português, por ter vivido no Brasil.

Se ficar suficientemente curioso com esta entrevista, não deixe, depois, de ler o artigo na HBR ou de comprar o livro para férias.


Qual é a ligação entre os seus dois anteriores livros - "Blur" e "Future Wealth" - e o actual interesse pela inteligência dos insectos?

C.M. - Na verdade, as ideias básicas deste Swarm Intelligence já estavam, nas entrelinhas, nessas duas obras que refere. Quando eu discuto em Blur o modelo de rede organizacional, adopto a perspectiva de um sistema adaptativo, em que cada pessoa é um agente tomando decisões sem coordenação directa, baseado apenas na informação sobre cada um dos meios envolventes. Por outro lado, em Future Wealth, falo do indivíduo como uma unidade de valor acrescentado, actuando como se fosse um empreendedor e não como uma roda dentada de uma máquina. Esses dois livros anteriores reflectem a minha convicção em sistemas complexos adaptativos, em que a "performance" da economia ou da empresa é uma propriedade emergente das acções dos indivíduos, exactamente como o crescimento e reprodução de uma colmeia é o resultado natural da acção individual de cada abelha. Deste ponto de vista, a inteligência do enxame é um descendente directo das minhas duas obras anteriores.

É curioso notar que a inteligência artificial mudou de rumo nos anos 90 do século passado no mesmo sentido: passou do paradigma de "replicar" a inteligência humana para o conceito de agentes autónomos e de uma nova robótica baseadas, também, na inteligência dos insectos sociais. O que propõe é o mesmo tipo de viragem, agora, na área da gestão?

C.M. - A aplicação do conceito não é nova. Em 1950, a revista Popular Mechanics previa que as fábricas do futuro se transformariam em "organismos" integrados com máquinas que interagiam na base de um comportamento inteligente. Hoje começa a não haver dúvidas de que as componentes interligadas da nossa economia se comportam cada vez mais como enxames. (Não faça essa cara!). Noutra área, veja o seguinte: no Brasil foi implementada uma tecnologia em que os semáforos detectam a posição e o movimento dos autocarros dos transportes públicos, permitindo ao semáforo retardar ou adiantar o ciclo das luzes até 10 segundos. Quando esta tecnologia foi montada em Los Angeles, os tempos médios gastos pelos autocarros nos percursos reduziram-se em 15%. Na nossa investigação, procurámos trazer estes conceitos para o terreno da gestão.

No seu artigo publicado na HBR (de Maio de 2001) refere que as principais áreas de aplicação desta ideia de gestão baseada na inteligência dos enxames de insectos sociais são a logística, os sistemas de "routing" nas telecomunicações, o planeamento fabril e do trabalho e até a área de "business intelligence" agora em crescimento. Como é que avalia estes mercados?

C.M. - Penso que, ainda, é prematuro fazer uma avaliação segmentada. Além disso, é difícil ver a questão em isolado, colocar uma fronteira entre o que é inteligência de "enxame" e o que não é. No nosso conceito, definindo-o de um modo amplo, cabe qualquer modelo baseado em agentes autónomos. Mas a grande questão a que se procura responder com esta inteligência é o que os matemáticos chamam de análise combinatória, em que o número de soluções é tão grande que as técnicas lineares convencionais ou são carissimas ou levam imenso tempo.

A melhor aplicação do modelo de inteligência de enxame
é o próprio mercado interno ou externo à empresa

Mas insistindo na questão. Por exemplo, o "routing" na Internet pode vir a ser a aplicação suprema desta inteligência de enxame?

C.M. - Creio que a melhor aplicação - o que nós, na América, chamamos de killer application - não é isto nem aquilo. A melhor aplicação é o próprio mercado. No mercado, preço e quantidade são os resultados naturais das acções de diversos decisores independentes. Qualquer aplicação em termos de mercados - sejam reais ou simulados, ou seja em que o que é transaccionado tem valor real ou não - pode tirar proveito da inteligência de enxame. Por exemplo, na Hewlett Packard está em funcionamento um mercado artificial para avaliar as informações sobre as vendas de impressoras. Esta abordagem revelou-se mais eficaz do que processos anteriores. Esta ideia de dirigir uma organização internamente pelas regras de mercado não é nova. Nós próprios na Cap Gemini estamos a testar um sistema em que, entre outras coisas, substituímos os coordenadores de projectos por um mercado virtual de alocação do pessoal disponível em função das actividades existentes e das suas competências. O modelo permite inclusive que as pessoas ajustem a sua remuneração em função do seu desenvolvimento, do tipo de trabalho a executar, da distância em relação a casa e de outros factores que se achem relevantes. Se isto funcionar será uma excelente aplicação da inteligência de enxame.

As comunidades online, as redes P2P (peer-to-peer), as intranets e a gestão do conhecimento são bons terrenos para aplicações desse tipo?

C.M. - De um ponto de vista metafórico, qualquer rede adiciona valor. Por exemplo, no caso mais simples, uma rede de computadores que partilhe a sua experiência sobre vírus informáticos torna-se mais imune. Isto pode ser conseguido definindo para cada computador da rede umas quantas regras simples como actuar face aos vírus e algumas das instruções do tipo "rainha" de colmeia. Esta ideia pode aplicar-se a qualquer sistema digital.

Quer exemplificar?

C.M. - Há um anúncio da BMW em que o condutor pára numa auto-estrada com gelo com as rodas com tendência a fazer pião. Através do sistema de apoio da marca, o condutor contacta um técnico que através de telemetria identifica o problema e envia uma ordem para o software do controlo de tracção, e o condutor retoma calmamente a estrada. Mas, no futuro, este apoio humano poderá ser substituído - o carro será suficientemente inteligente para identificar o problema e resolvê-lo. Os algoritmos serão suficientemente inteligentes para solucionar problemas particulares relacionados com a temperatura, a humidade, a pressão, os pneus, o peso, etc.. Como? A "rainha" BMW transmitirá a solução para todo o enxame de BMWs, de tal forma que o sistema funcionará de acordo com a experiência de cada "insecto" (veículo) individual.

Uma das aplicações interessantes para empreendedores e gestores de inovação é a exploração de novos mercados, de oportunidades que, por vezes, são janelas curtas no tempo...

C.M. - Não se ria, mas a exploração de novos mercados sempre foi feita por "enxames" de pessoas! Veja este caso muito em foco desde o ano passado: o comportamento dos investidores na Bolsa é tipicamente um fenómeno de enxame. Pode muito bem considerar-se, como exemplo máximo, o estourar da "bolha" das dot-com como o equivalente a uma colmeia de abelhas saindo em enxame para outras paragens - quando vemos o enxame todo em movimento sabemos que a colmeia se mudou.

Os spinn offs são mais conformes à dinâmica da natureza
do que as fusões

Para terminar, uma das coisas intrigantes no artigo que assinou na HBR é a afirmação de que não há equivalente na dinâmica da sociedade de insectos às fusões hoje tão na moda outra vez. As fusões são "contra-natura"? A estratégia biológica "natural" é o spinn off?

C.M. - Primeiro do que tudo, é preciso sublinhar que seria um erro pensar que o comportamento social dos insectos é a única lógica biológica aplicável ao mundo dos negócios. Não é. Na verdade, como cada negócio é um sistema adaptativo, tal como o são as economias a nível nacional e global, todos se comportam de acordo com uma série de comportamentos biológicos. Indo à sua questão, direi que a ideia de que os spinn offs são mais "naturais" do que as fusões tem algum mérito.

Mas porquê?

C.M. - Veja esta pequena história. Conversando com o CEO da Maxagen, uma start up da biotecnologia, perguntei-lhe qual seria a metáfora que melhor definiria a sua organização. E ele respondeu-me que a empresa dele era como uma amiba, um protozoário microscópico unicelular e aquático que se move mudando constantemente de forma, através da projecção de pseudópodes, uma espécie de patas falsas. Disse-me ele: «Veja os pseudópodes num meio envolvente procurando declives e siga-os. Se todos os declives fossem na mesma direcção, então toda a amiba se moveria nesse sentido. Mas não, verificamos que temos pseudópodes explorando quatro direcções opostas. Olhando para a amiba, antevemos, por isso, que ela se vai dividir». Para ele, a ideia de divisão em spin offs é uma fonte natural de crescimento económico.

O PROJECTO DE MERCADO INTERNO DA CAP GEMINI
No Center for Business Innovation da Cap Gemini Ernst & Young está a desenvolver-se uma ideia de mercado interno, uma forma de comunidade em que cada membro poderá obter créditos por suas ideias inovadoras e em que a opinião de todos os pares participantes determina um preço para cada ideia.
Deste modo, o valor de mercado reflecte, como no caso da Hewlett Packard referido na entrevista, a força ou fraqueza de uma dada ideia apresentada.
«Estamos a testar este mercado em versão beta para ver se o conseguimos fazer funcionar adequadamente dentro de uma cultura de empresa. No extremo, poderemos imaginar uma situação em que isso possa ser feito fora de uma empresa numa espécie de mercado aberto de inovação», refere-nos Chris Meyer.

PISTAS DE INVESTIGAÇÃO
Outros grupos que estão a desenvolver investigação nesta área:
  • IRIDIA, Université Libre de Bruxelles, Bélgica, contacto: Marco Dorigo
  • IDSIA, Lugano, Suíça, contacto: Luca Gambardella, director
  • GEORGIA INSTITUTE OF TECHNOLOGY, Atlanta, EUA, contacto: John J. Bartholdi
  • UNIVERSITY OF CHICAGO, Chicago, EUA, contacto: Donald Eisenstein
  • Página Anterior
    Topo da Página
    Página Principal