Executivos regressam às aulas no INSEAD

Um português dirige no INSEAD, perto de Paris, um programa avançado
de management para gestores seniores depois dos 40 anos, que, apesar
de frequentado por gente oriunda de 25 países de todos os continentes,
não conta, em edições recentes, com executivos portugueses

Jorge Nascimento Rodrigues em Fontainebleau (França)

Uma reportagem para o semanário português Expresso sobre o que anda a mexer na Europa, publicada em versão reduzida a 26/02/2000

 O site do INSEAD | Programas para Executivos | Quem é Pinto dos Santos 
O que anda a investigar Pinto dos Santos
O site para os apreciadores de George Gerswhin

Que levará executivos seniores de multinacionais, sem gravata, sentados num anfiteatro de aula a ouvirem músicas de George Gerswhin (ou Gershwin, segundo outros, nascido em Brooklyn, Nova Iorque, como Jacob Gershowitz em 1898 e que morreria em 1937) num final de tarde, tocadas por um trio especializado neste compositor americano dos loucos anos 20 e 30?

O leitor responderá, despreocupadamente, que se trata do puro prazer de ouvir, e mesmo de poder assobiar, pequenas composições em torno de «Um americano em Paris», ou de «Rapsódia em Azul», ou mesmo de «Summertime». Ainda que isto possa ser verdade, não é o essencial deste filme em tempo real nas salas do INSEAD, por muitos considerada a mais prestigiada escola de gestão europeia, localizada perto de Paris, em Fontainebleau, que é dirigida há vários anos por um português, António Borges.

O trio musical - de nome Le Trio - dá uma pequena «aula» ao vivo do que é trabalhar em equipa. Não se trata do «jamming» de que fala o guru norte-americano John Kao, mas de um metódico trabalho de integração entre três músicos que acrescentam ter desenvolvido «a parte emocional de uma boa equipa sustentável, a amizade», como refere Alfred Eric-Street, um franco-americano, que constituiu o trio, depois de várias tentativas. Os oitenta executivos de 25 países que assistem batem palmas demoradamente e muitos registam qualquer coisa nos caderninhos vermelhos de notas ou nos computadores portáteis.

Esta é uma pequena amostra do estilo dos cursos de gestão avançada para executivos ministrados pelo INSEAD, que, a par de um refrescamento intensivo de tendências nas várias áreas do management, mistura um lado «soft», como nos sublinha José Fernando Pinto dos Santos, um outro português, ex-executivo profissional, que dirige actualmente este «Programa Avançado de Gestão» (AMP, no acrónimo da lista de oferta do INSEAD), cuja primeira edição de quatro semanas acabou esta semana.

UM GESTOR QUE VIROU ACADÉMICO
Pinto dos Santos A vida escreve, muitas vezes, por linhas tortas. O jovem José Fernando ao cursar engenharia era suposto estar talhado para enveredar por uma carreira docente na Universidade do Porto, provavelmente na área da matemática aplicada - onde começou a dar aulas ainda estudante.
Mas, o caminho seguido foi outro, então. Atraído pelo mundo empresarial, passaria pela Sacor e, mais tarde, começaria a fazer carreira de gestor na RAR, onde foi administrador. Viria a ser também administrador no antigo Banco de Fomento e Exportação. Passaria inclusive pela experiência de sócio na Iberomoldes. O seu trajecto de executivo profissional culminaria aos trinta e poucos anos com a sua chegada em 1984 a administrador-delegado do grupo italiano Segafredo Zanetti e com uma vida internacional muito activa centrada a partir de Bolonha.
Aos 43 anos decide «reformar-se» desta actividade de executivo internacional e, ironia do seu trajecto pessoal, dedica-se a uma carreira académica, mas carregada de independência e mobilidade. A sua vida está hoje muito repartida por aulas ao quinto ano de Gestão e no MBA da Universidade Católica, no Porto, pela Universidade Bocconi em Milão, pelo MBA para executivos da Europa de Leste em Bled, na Eslovénia, e pelo INSEAD, onde o fomos encontrar. No entanto, ele continua a pertencer ao Conselho de Administração do grupo Segafredo Zanetti como administrador não executivo.
Pinto dos Santos desembarcaria na Escola de Fontainebleau em 1995, em virtude do seu interesse pela investigação em torno das empresas multinacionais. Amigo de Gary Hamel e de C.K.Prahalad - que conhecera aquando do seu mestrado na London Business School -, foi literalmente «empurrado» por eles para os braços de Yves Doz, uma das referências internacionais do INSEAD e o mais conceituado especialista na matéria.
Com Doz envolveu-se no projecto de investigação sobre as emergentes firmas «metanacionais» a que consagrou quatro anos de «enorme prazer intelectual».
Para 2000 foi convidado a dirigir o Programa de Gestão Avançada para Executivos do INSEAD, a que nos referimos no artigo principal, e é Professor de Gestão Internacional, dando aulas em vários programas da Escola em França e em Singapura (onde já está a funcionar o segundo «campus» do INSEAD).

O tal lado «soft» pode trazer surpresas para o executivo mais formal, como aulas de gestão do «stress», ou a aprendizagem do controlo pessoal ou da revisão do relacionamento entre a vida profissional e privada. «Este conteúdo 'soft' é muito importante e não aparece na oferta de outras instituições», diz-nos o director de uma divisão mundial da Danfoss, uma multinacional dinamarquesa.

Um intercâmbio cosmopolita

O AMP traz ao «campus» da Escola em Fontainebleau, a quarenta minutos de Paris, várias dezenas de directores e administradores de empresas com expressão internacional ou que pretendem globalizar-se. Desde a edição pioneira em 1967 já passaram pelos bancos deste programa mais de 5000 executivos seniores, entre os quais 20 portugueses, de que o último registo de presenças remonta a 1995. Esta primeira edição do ano 2000 trouxe de regresso às «aulas» 80 homens e mulheres de mais de 40 anos, regra geral com mais de 15 anos de experiência de gestão e que dirigem, em média, empresas ou unidades de negócio entre 5 a 10 milhões de contos de facturação.

A maioria são europeus, mas há executivos de 25 países nos cinco continentes, entre os quais quatro brasileiros de empresas como a Vale do Rio Doce, a Ahlstom, a Diageo e o banco Boavista Inter-Atlântico. «Não tivemos a presença de nenhum gestor português nesta edição», diz-nos Pinto dos Santos, que teve uma carreira internacional de gestor profissional, nomeadamente à frente do grupo Segafredo Zanetti.

Esta assistência é gente para quem a palavra «aprender» tem um significado especial. «A formação contínua é hoje em dia absolutamente indispensável, se queremos apanhar as tendências em curso», refere-nos, de novo, o executivo dinamarquês. Mas esta aprendizagem tem um sentido múltiplo. «Além do refrescamento de conceitos, este mês de interrupção da vida profissional e o contacto diário com gestores de outros países e sectores, permite-nos uma reflexão colectiva, por vezes muito acalorada, sobre o que funcionou e o que não funcionou noutros casos», refere-nos um italiano, director internacional da Merloni. «Para além do contacto com professores que nos vêm falar do que está em curso de investigação, o que nos permite saber com antecipação o que se falará amanhã, a própria troca de opiniões entre nós alunos é fundamental, é um valor acrescentado destes cursos verdadeiramente cosmopolitas», acrescenta o nosso interlocutor.

O sabor especial de «parar»

«Precisamos de parar de vez em quando. Há como que um 'sabor' especial que temos de provar. Precisamos de fazer uma interrupção no dia-a-dia para reflectir e fazê-lo num ambiente plurinacional é uma ocasião única», observa um catalão que está à frente, em Barcelona, de uma das mais importantes unidades da Hewlett-Packard na Europa, e que recomenda que concretizá-lo, por exemplo, «numa altura em que se está em transição para uma nova função, é o momento ideal».

Este ambiente de vivência plurinacional, plurisectorial e pluricultural é um dos traços «distintivos» destes cursos do INSEAD. Para Pinto dos Santos, o coordenador do AMP, «a rede de contactos internacionais que se cria durante este período é insubstituível». Não se leva só uma carteira cheia de cartões de visita, mas «um elo de amizades e relações que são muito úteis para quem tenha de estar no mundo dos negócios internacionais», conclui o nosso guia neste dia de visita ao INSEAD.

Pinto dos Santos integrou no currículo da edição deste ano a temática do desafio do negócio digital, particularmente para as grandes empresas já estabelecidas, e prepara o redesenho do curso para 2001 incluindo provavelmente o trabalho em equipa via Internet no intervalo entre as semanas em Fontainebleau e em Singapura, onde o INSEAD dispõe de um segundo «campus» instalado no Parque de Ciência e Tecnologia daquela Cidade-Estado.

AS MULTINACIONAIS ESTÃO «VELHAS», SABIA?
VIVAM AS METANACIONAIS!
Pinto dos Santos veio para o INSEAD há cinco anos atrás para, com Yves Doz e Peter Williamson, investigar os ingredientes das empresas multinacionais - um género que ele conhecia por dentro ao fim de dez anos de administração do grupo italiano Segafredo Zanetti.
Sempre o intrigara perceber o que levaria uma empresa à internacionalização. Outra curiosidade adicional inquietava o executivo português: será que as empresas que, entretanto, se globalizaram nos anos 90, são do mesmo género que as suas parentes de há uma geração atrás?
Esta reflexão assentou num estudo exaustivo de uma amostra de mais de 30 multinacionais, repartidas pelos Estados Unidos, a Europa e a Ásia/Pacífico.
E os resultados da investigação deixaram o trio admirado. Muitas das multinacionais que hoje são referência global - inclusive no mundo digital, como a Microsoft, a Intel ou a própria Amazon.com - têm uma matriz tradicional e profundamente «envelhecida». Sobretudo no caso das multinacionais de origem norte-americana, desenvolveu-se uma internacionalização assente num mecanismo de «extensão», de «projecção» de si próprias e do saber americano noutras realidades do mundo, o que Pinto dos Santos julga «muito pouco adequado à economia mundial globalizada e à sociedade do saber que está dispersa por um mosaico de contextos diferenciados». Mesmo as multinacionais que souberem resolver o dilema estratégico "global-local", hoje já bem conhecido, fizeram-no quase sempre a partir do saber que apropriaram no seu país-de-origem.
Curiosamente é em exemplos asiáticos (como o da Acer ou da Shiseido) e europeus (como a Nokia, a SAP ou a Polygram) que o trio do INSEAD descobriu a emergente firma «metanacional» - uma empresa global que integra e «orquestra» realidades diferentes na sua cadeia de valor e de saber espalhada pelo mundo.
Olhadas clinicamente, estas empresas apresentam sempre duas «patologias» - são dirigidas por executivos cosmopolitas com uma vivência internacional muito activa e uma visão do mundo aberta, derivada dessa emancipação do paroquialismo doméstico, e, aparentemente, surgiram teimosamente no «sítio errado», nos locais da geografia económica onde a teoria consagrada da vantagem competitiva as condenaria ao insucesso face aos «clusters» oficiais estudados por Michael Porter. Inclusive não seria de espantar encontrar em Portugal empresas que calçam este modelo teórico sedeadas num sítio absolutamente trivial de Lisboa ou nos confins nortenhos onde até um TIR tem dificuldade de chegar - como a Easyphone ou a Swear, a que já nos referimos na Janela na Web.
Este estudo dará à luz no final do ano um livro que vai ser publicado pelos três na Harvard Business School Press, intitulado From Global to Metanational - How Companies win in the Knowledge Economy.
O nosso interlocutor prossegue ainda, desde há três anos, uma linha de investigação em torno da importância do cliente global no processo de inovação na empresa multinacional. Pinto dos Santos prevê apresentar os resultados desta nova investigação numa tese de doutoramento que gostaria de defender na sua terra natal, o Porto. A área dos clientes ou "contas" globais desperta actualmente muito interesse nas empresas multinacionais e é um tópico de investigação académica muito recente, onde muito pouco está publicado. O interesse mais geral numa relação profunda empresa-cliente está já mais desenvolvido. C.K. Prahalad, por exemplo, num artigo - «Co-opting Customer Competence», assinado com Venkatram Ramaswamy - publicado na revista Harvard Business Review (edição de Janeiro-Fevereiro de 2000), chama a atenção para a necessidade estratégica de «cooptar» para o modelo de negócio da firma a competência dos seus clientes (e não só o saber interno ou dos fornecedores e parceiros).
Se quiser contactar Pinto dos Santos e saber mais sobre a sua investigação, envie-lhe um email.
Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal