Virgílio, o primeiro escritor português de 'futurmedia'

O 'contacto' revisitado (...e interrompido)

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

Proveta 2009 é uma coluna exclusiva da revista portuguesa Ideias & Negócios

 Outras provetas 

Ele tinha feito a reportagem ficcionada do primeiro português na Lua (1). E o gostinho ficou-lhe.
Em 2002 resolvera largar vinte anos de escrita jornalística e muitas peripécias editoriais.
Lançara-se na produção de "livros" do que já não se chamava ficção científica, nem propriamente livros.
Um clube de jovens (em termos de produção literária, não em idade - Virgílio aproximava-se dos 50, na altura) - escritores criara a futurmedia (2) e os seus nomes popularizaram-se por diminutivos.
Virgílio era "Virgo" e tinha sido dos primeiros em Portugal a aderir à "guilda".
A estória que se segue interrompeu-o quando ele concluía a sua mais recente obra.

O que vou contar é totalmente inverosímil.

Continuo a interrogar-me se Virgílio não a inventou pura e simplesmente. Como prenda de anos naquela noite em que eu fazia 57 anos.

Virgo (o diminutivo porque era conhecido na 'guilda' dos novos escritores deste género literário) resolvera contar-me pessoal e oralmente - um hábito quase em extinção neste final de década - o seu 'contacto'.

Um segredo que ele guardara alguns meses, desde o princípio do ano de 2009, quando começara a ultimar A Minha Deusa Pessoal (My Personal Godess, na versão automática em inglês para o circuito mundial).

Era a sua primeira obra de fôlego - decidira ultrapassar as 200 páginas, de tão empolgado que ficara - sobre um remoto planeta rodando sozinho (!) em volta de uma estrela muito mais pequena do que o nosso Sol numa outra galáxia (talvez naquela que os humanos etiquetaram de 'Andrómeda').

A 'deusa' em questão era o que, tanto quanto podemos perceber tecnologicamente, chamamos de holograma em 3D (no caso, talvez 'feminino') que um jovem astrónomo alegou "ver", por puro acaso, nas suas observações.

O seu enamoramento 'aproximara-o' de algo que estará a mais de dois milhões de anos luz e permitiu-lhe caracterizar, com alguma minúcia, o referido planeta, alegadamente 'habitado' por seres 'inteligentes' - se é que estes nossos conceitos humanos têm alguma validade cósmica.

Este insólito "achamento" (termo mais apropriado do que "descoberta") valera-lhe o Prémio Nobel. Algo 'habitado' era uma premiére e um comité de peritos astro-físicos havia confirmado teoricamente muitos dos estranhos pormenores que o jovem dera.

O mínimo que se pode dizer é que a inspiração da 'deusa' fora notável - contudo, sobre o truque do como ele 'viu' o que diz ter visto, o jovem sempre se fechou no maior mutismo perante a comunidade científica...

Virgílio guardara para si esse pequeno segredo do seu personagem... até que resolveu confessar-mo.

Parêntesis obrigatório

O "Contacto" (com vida extra-terrestre) sempre foi uma imagem mágica para Virgo - mesmo muito mais forte do que a palavra em si.

Um filme antigo de um tal Zemeckis inspirado numa obra de Carl Sagan - um tipo "genial", sublinhou, que faleceu nos finais do século passado - tinha-lhe ficado gravado naquela parte do cérebro que, muitos anos depois, lhe havia disparado uma furiosa sucessão de cenas que lhe serviram de base para a "escrita".

A "escrita" é, naturalmente, um processo não-manual que uma vanguarda de "escritores" (não sei porque diabo continuam a chamar-lhes assim) de futurmedia está a usar experimentalmente. E, apesar da força actual (em 2009) do reconhecimento de voz, também não é esse o meio.

Para ele, que fora um escriba furioso de teclados, o processo que usa actualmente é "divino", nas suas próprias palavras.

O modelo é simples. Um sensor - não é um implante - junto ao cérebro permite-lhe pensar as cenas e simultaneamente "transmiti-las" directamente para um écran plano gigante, de plasma, onde os parágrafos surgem logo acompanhados das imagens imaginadas por Virgílio.

Os mais cépticos dirão que parece um livro (?) ilustrado para crianças projectado numa tela gigante. «Sempre sonhara com isto - escrever como se fosse um filme desses do século XX. Ver as cenas e corrigir 'just-in-time'», sublinhou-me Virgo, que abria os olhos cada vez mais à medida que se "aproximava" do segredo.

A reserva sobre o contacto físico...

A corrente da futurmedia tem uma série de manias de estilo, diríamos de "questões de princípio". Uma delas é a da improbabilidade do contacto físico com seres extra-terrestres mais "evoluídos".

«São, provavelmente, civilizações num estádio tão radicalmente distinto do nosso que a mais valia desse tipo de encontro é nula - para eles - e se calhar arriscada, tendo em conta o nosso primitivismo, de seres que ainda não resolvemos questões tão elementares, como a violência, o ambiente, a morte gratuita, os caprichos da demografia», argumentava Virgo num seu ensaio anterior (creio que de 2006) intitulado sugestivamente O Paradigma das Pegadas (3).

A outra é absolutamente provocatória para os rapazes da produção cinematográfica oficial ou oficiosa. «Essa mania de que os outros são humanóides ou animalóides ou que têm uma fisionomia enquadrável no nosso imaginário geométrico», refere, ainda, nesse mesmo ensaio, em que desanca na sobranceria antropomórfica da ficção científica (4), a que alguns ainda se agarram para dar azo às frustrações do seu imaginário e encher os bolsos de euro-dólares.

Eu próprio sempre me deixei seduzir, entre o assustado e o divertido, pelos tais discos voadores, por seres antipáticos e violentíssimos, meio bichos, ou bichos de todo, ou pelos marcianos de olhos de gato, pelos raptos e operações cirúrgicas em naves, e tudo o mais que sempre esteve em voga no século XX.

«Como é que eles nos 'verão' a nós? Tão estupidamente à imagem deles ou das fantasias deles? Certamente que NÃO!», rematava Virgo, que no seu optimismo cósmico, encarava tais seres "evoluídos" efectivamente como mais inteligentes.

«Inteligência é hoje admissão da diversidade e do inesperado. Não do conhecido, da macrocópia - como se faz no cinema - ou do nosso mutante», sentenciou.

Pessoalmente nunca me esquecera do que me dissera um tio-padrinho, de nome Zé Galvão, que comigo viajava pelas galáxias, os dois sentados em duas cadeiras a olhar o céu, com a janela aberta, tinha eu uns 8 ou 9 anos, ainda Neil Armstrong (um astronauta da extinta NASA que hoje é muito famoso na 'memorablia' coleccionada pelos miúdos) não tinha pisado o solo da Lua e produzido a célebre pegada (3) que inspirara Virgílio 40 anos depois.

«Já te deste conta de como nos sonhos tudo é real? Sentes tudo, recordas-te? Vives! A nossa imaginação é tão poderosa que, por vezes, a projectas mesmo em teu redor, ali à frente. Um dia criarás um ambiente desses a teu gosto. Sairás do transe, ou do sono, e viverás. Real e imaginação serão apenas duas opções», sorria ele. Não imaginaria este meu tio-padrinho que, várias décadas depois de ele morrer, a realidade virtual (RV) daria uma mãozinha aos mais loucos desejos da imaginação.

Hoje em dia, há mesmo um programa RV de "contacto", comercializado pela Macrospace (50 mil milhões de euro-dólares por ano) em que o leitor poderá "escolher" o tipo de parceiro extra-terrestre que deseja encontrar!

... E o porquê?

Virgílio colocou, então, uma cara séria, terrivelmente sisuda. Ouçamo-lo em discurso directo: «Eu estava a projectar as cenas finais de A Minha Deusa Pessoal quando algo se passou no écran».

Aqui, eu próprio, senti-me envolvido dentro da cena e fui cuspido lá para "dentro".

O écran começou a passar furiosamente uma série de "coisas" - pareciam números? - que Virgílio apelidou, excitadíssimo, meio afogueado: «Seeeeeeee...ão algoooo...ritmos! ALGORÍTMOS GENÉTICOS! Que loucura!».

As "coisas" sucediam-se a velocidade incrível e subitamente, subitamente, eu próprio fiquei paralisado ao ouvir contar.

As "coisas" começaram, elegantemente, numa geração holográfica em 3D de algo que saía, como que num movimento em espiral, do écran e se começava a projectar ali à nossa frente. Mas o que era "aquilo"?

«Não sei!», respondeu-me Virgílio. Nem corpo de ser vivo terráqueo, nem geometria conhecida estava a ser gerada virtualmente por esta via de comunicação à distância. Aquilo era como que um...,uma...

Mas um grito de bébé da neta de Virgo interrompeu a geração e tudo, subitamente, acabou.

«Terá sido algo assim que 'contactou' o jovem Gil e que lhe permitiu como que 'entrar' à distância naquele remoto planeta?», interrogou-me.

GLOSSÁRIO
(1) O Primeiro Português na Lua - A mais longa expedição de um lisboeta, Ficção-Reportagem, 2002, Gradiva Futurmedia. Virgílio estreou-se com esta obra de menos de 150 páginas contando a aventura espacial de Dinis Afonso numa tripulação lançada, pela primeira vez, da Guiana Francesa.
(2) Futurmedia - estilo literário sobre o futuro em que o processo de elaboração dos conteúdos se confunde com o produto final através de um novo media electrónico, descrito na estória. Os "escritores" deste género formaram uma "guilda" à escala mundial. Inspiraram-se num grupo de jovens que nos idos anos 30 e 40 do século passado criaram em Nova Iorque o clube dos Futurians, em que se destacou Isaac Asimov.
(3) O Paradigma das Pegadas, Ensaio, 2006, Gradiva Futurmedia. Ensaio filosófico romanceado sobre o significado de duas pegadas célebres na história da Humanidade até à data: a mais antiga conhecida, descoberta em fóssil em África, de um hominídeo de há 4 milhões de anos, e a de Neil Armstrong que foi o primeiro humano a pisar a Lua em 21 de Julho de 1969. O paradigma é uma crítica teórica do antropomorfismo e do pessimismo apocalíptico.
(4) Ficção Científica - Depois de uma época heróica no século XX, este género desceu ao mais baixo nível, tendo sido infiltrado por militares, espiões, impostores e realizadores sem escrúpulos, que usam a etiqueta para fazer passar para a opinião pública projectos de híbridos robotizados, armas experimentais, implantes duvidosos e invencionices para alimentar a crendice dos espectadores, sobretudo na Federação Americana.
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