Diogo, marcado pelo «bicho» da política

O Homem Movimento

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

Proveta 2009 é uma coluna exclusiva da revista portuguesa Ideias & Negócios

 Outras provetas 

É a vez da política e dos políticos saírem da Proveta. Os partidos são ferramentas do passado.
Agora, há bilhetes de identidade ideológicos, cujo «mix» de valores pode cambiar.
E um político cria um espaço pessoal na Web4 que dinamiza um movimento de activistas fieis.
Vivem de temas e projectos que têm de começar por financiar para ter voz.
Não é «lobbying», é «venture politics».
Diogo, que nasceu em Maio de 1968, é o homem-movimento do momento.
Produz umas gargalhadas monumentais e é um optimista viciado.

«Olá, Viva! Acaba de entrar no espaço de Diogo.polis! Escolha as suas bandeiras e registe-se nas suas comunidades de interesse. Voltarei, de imediato, ao seu contacto - escolha também o canal com que quer falar comigo».

Eis o mundo da Nova Política.

Diogo criou um «hub» pessoal na www4, e eliminou, de uma assentada, o aparelho funcional e regional dos tradicionais partidos políticos do século XX. Criou uma mnemónica em torno do «m» - M5 - de bandeiras temáticas e alinhou um conjunto de (também) cinco personagens sociais típicos que agregam segmentos de cidadãos (vide Cábula Política do Diogo), exercício de management político, em que foi ajudado pelo seu inseparável conselheiro de bolso Edson.asp (vide glossário).

Depois de uma fulgurante carreira de «venture capitalist» independente (no século passado chamavam-lhes «capitalistas de risco» no nosso país) e editor de publicações centradas em movimentos económico-culturais, resolveu voltar à política - mas, em 2009, política é «venture politics», o que não foi traduzido (felizmente para Diogo e lamentavelmente para as oposições) por «política de risco».

O «bichinho» da política está com ele desde o berço - Diogo viu-se livre do cordão umbilical no mítico mês de Maio de 68 (há 41 anos, no século passado! - vide glossário). No «ADN» dele veio a sequenciação de um conjunto de cinco atitudes genéticas - movimento-provocação-liberdade-iniciativa-optimismo -, sem que os pais tenham sabido como e porquê.

Quem o conheçe, mesmo que apenas há dois minutos de leitura, recorda dele sempre dois «ex-libris» - umas monumentais gargalhadas (que fazem lembrar um vendedor célebre de livros, discos e quinquilharias do final do século XX, um tal Bezos) e uma revolta sonora contra «a falta geral de respeito pelo optimismo, nestes tempos de pragmatismo, cinismo e carpideiras». Provavelmente, influências da Lua naquela noite em que Diogo abriu os olhos pela primeira vez.

Mas, até agora, nunca deu para se entregar à política de corpo, alma e algibeira - enquanto estudante, tinha de estudar, ser militante associativo e trabalhar; enquanto político nos anos 90 do século passado, tinha de cuidar dos negócios editoriais e avaliar «business plans» de outros.

Repartido entre o coração e a carteira, metia sempre um cheiro da política de valores nos movimentos editoriais e negócios em que se envolvia, e, em compensação, levava para as salas da política o terra-a-terra dos investidores com causas e o «palm-top» permanentemente a funcionar (o que enchia de comichões os burocratas e barões).

Enfim, no meio desta salada, foi-se forjando o nosso Homem-Movimento, que ficaria a dever ao século XXI a possibilidade de transformar o sonho de uma política diferente em realidade.

A «venture politics» não é a política como estávamos habituados a consumir no final do século passado. «Venture» quer aqui dizer que a política é feita de apostas estratégicas emergentes para as quais se mobilizam fundos éticos, contribuições pessoais, mecanismos de marketing viral e o voluntariado de milhares de activistas registados em Diogo.polis.

O «M5» é suficientemente amplo para abranger vários valores que Diogo e muitos cidadãos perfilham como «bilhete de identidade ideológico» - os cartões de filiação partidária desapareceram e o próprio perfil ideológico pode variar amiúde, em virtude da mudança frequente de «mix» de valores pessoais. O «M5» é um «cocktail» atraente que procura fidelizar ao máximo.

Mas, para contrabalançar «estruturalmente» o risco de fluidez ideológica, Diogo operou uma segmentação que lhe permite tocar vários tipos de protagonistas que são cidadãos activos - «os passivos deixaram de ter capacidade de influenciar a política e limitam-se a ser explorados pelos contadores publicitários de espectadores, visitantes únicos e candidatos a sorteios», afirma ele.

Apesar do uso intensivo do espaço electrónico, os cidadãos continuam a gostar de se tocar, cavaquear e barafustar em grupo - alguns maldizentes cospem com ironia: «em tribo». Mas os comícios pertencem ao museu da história - agora, os cidadãos juntam-se em «boot camps» políticos (vide glossário). Para resolver o problema da presença física simultânea, Diogo consegue estar em vários lados ao mesmo tempo usando a teletransportação de «clones» digitais seus que o reconstituem a três dimensões como num holograma.

A época política tem corrido bem até aqui. Mas este final de ano, trouxe sarilhos novos que se estão a revelar quebra-cabeças para Diogo.polis.

O que é tema na costa do Pacífico agita imediatamente as águas políticas no Atlântico ou no meio da Ásia, e vice-versa. A política deixou de ter fronteiras - qualquer tema emergente ou acção de cidadãos pioneira propaga-se no mesmo momento como um vírus. O tempo da política é «pan» e não mais doméstico.

Basta olhar para o «termo.polis» (um termómetro electrónico permanente) que Diogo monitoriza no seu «hub»:
- Uma corrente quer exigir o uso do feminino, em pelo menos 50%, na escrita oficial; o custo de modificação dos textos oficiais anteriores e da reciclagem dos escribas legislativos ainda não foi estimado;
- algumas autarquias estão em vias de lançar impostos municipais elevadíssimos para o uso de carros privados dentro das cidades; os clubes de automobilistas ameaçam com guerrilha urbana electrónica e bioenergética;
- estão a espalhar-se biodrogas electrónicas cujo «download» é facílimo e cuja viciação é muito rápida;
- multiplicaram-se os «sites» de terrorismo contra a reputação pessoal;
- uma revolta de alunos à escala nacional exige o desmantelamento dos «campus» universitários e a transformação do seu espaço em «laboratórios» e «start ups»;
- uma frente de cidadãos pretende a proibição dos vídeo-jogos e a acção judicial contra os fabricantes, sobretudo asiáticos, a quem responsabilizam pela escalada de criminalidade infantil;
- foi descoberto um romance póstumo de Arthur C. Clarke com o título de 2004, Odisseia do meu «clone», que os críticos literários acreditam tratar-se de um diário verdadeiro sobre a «clonagem» real do futurólogo ainda em vida;
- foi declarada pela Federação Europeia um conjunto de zonas turísticas de catástrofe que abrangem 80% do tecido económico português da beira-mar;
- uma criança californiana de 7 anos, sofrendo de diversas doenças congénitas, processou por «incompetência genética» os pais e a equipa médica que acompanhou a fecundação, a gravidez e o seu nascimento.

Optimista por natureza, Diogo não desarma. Enfia-se numa das suas salas de «video-chat» e acciona a rede Polis of The World (www4.polisotw.pan, vide glossário).

Em segundos tem dez outros políticos em apuros em dez pontos do mundo, prontos a debater com ele os novos imbróglios, com um sistema de tradução automática. Chamam a esta entre-ajuda «polis cooperativa». Um painel «adhoc» de cidadãos bombardeia-os com perguntas, sugestões, propostas, acusações, impropérios e elogios - o que exige ginástica mental e emocional por parte dos políticos e o apoio na retaguarda de um «polis-lab» de computação paralela (que é um milhão de vezes mais importante do que os gabinetes de assessores de imagem e os departamentos de agit-prop de antigamente, vide glossário).

Diogo remexe-se no banco, movimenta os braços, as pernas e as orelhas, e alterna exclamações: «Excelente!», «Porra, isso é mesmo importante!».

Entusiasmado, com as contribuições do debate, fecha a sua participação, repetindo uma máxima de eleição do seu caderninho vermelho digital: «Sou pessimista em relação aos sistemas, mas optimista em relação às pessoas, como disse um dia... alguém que não me lembro».

«James Cameron...», alguém gritou do fundo do écran de «video-chat».

«Quem?!».

CÁBULA (POLÍTICA) DO DIOGO
M5
- Mudança;
- Meritocracia;
- Mosaico (sociedade é diversidade, não há padrões oficiais);
- Me2Me (privacidade - um valor fundamental numa sociedade que cada vez mais devassa e se intromete);
- Mercado P2P («people to people», a maioria das transacções são entre pessoas, mesmo as entre empresas).

SEGMENTAÇÃO
- empreendedores;
- activistas de micro-projectos:
- temporários (toda a gente que trabalha para alguém é «temp», funcionando com base em «exchanges» electrónicos de tempo de trabalho);
- produtores de ideias, conteúdos e saber (o «knowledge people» por oposição ao «beautiful people» parasita de final do século XX);
- excluídos (agro-pobres, info-pobres, bio-pobres), uma sociedade paralela orfã do capitalismo industrial, sem meios de auto-subsistência alimentar, sem infoliteracia e vantagens genéticas.

GLOSSÁRIO
Edson.asp = um software inteligente de assessoria política lançado por um conhecido especialista.
Maio de 68 = movimento revolucionário ocorrido em 1968 sobretudo protagonizado por jovens estudantes da classe média; «proibido proibir» e «imaginação ao poder» foram os seus slogans.
Boot-camps = pontos de encontro típicos de empreendedores, cujo modelo se estendeu aos activistas da política.
Polis of the World = uma rede de jovens políticos à escala mundial.
Polis-Lab de computação paralela = bom, o que ele faz não vos digo, porque acabei de o patentear.
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