Carla, a investigadora criminal espacial às voltas com "moneyfool"

Andar em Órbita... Sem Sair de Terra Firme

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

Ao dobrar os 40, ela interrogava-se se alguma vez imaginaria no século passado (quando entrou para a Judiciária depois de um canudo de jurista com vinte e poucos aninhos) que a investigação criminal fosse uma coisa destas hoje em dia (em 2009)!
Em vez das vigias madrugada dentro, das corridas de carro com sirene, das pistolas-metralhadora e das "shot-gun", da leitura de papelada sem fio, das bocas brejeiras dos colegas e da paciência para aturar os gajos do "lab" da lupa gigante para as notinhas (falsas)... agora tudo estava no "espaço".
Literalmente - "espaço" ('space', como todos diziam) era o local predilecto dos "manhosos" (1).
Só a "bófia" de proximidade (2) se dedicava ao terreno e usava, com alguma arte, as velhas "armas" de há dez e quinze anos atrás para lidar com "saloios" (3).
Mas um caso como o de "W.P." nunca lhe havia caído no monovolume (4).

Uma fotografia-rôbô um pouco estranha tinha sido gerada digitalmente e agora estava a ¾ do écran do "celular" de pulso de Carla - não era nenhuma cara de suspeito, mas uma sequência de linhas de código que permanentemente atiravam o olhar da inspectora da nossa Judiciária para "sites" diversos, caixas de correio electrónico com vários heterónimos, bases de dados de código genético e de cenários de aparência física para um tal "W.P.".

Até ao momento ninguém tinha conseguido perceber o que queria dizer "W.P." - nem mesmo "Kubrik", um software pericial de combinações de nomes, que, em voz roufenha digital, cuspia arrogantemente: "CERTO 99,999999999999999999% das vezes" (algum tonto com mania de NIBs o tinha posto a falar assim).

Sabia-se o que era óbvio - "W.P." era a assinatura de honra de um falsificador de euros digitais (5) neste momento em parte incerta.

Carla participava como inspectora coordenadora num "raid" na Web4 para neutralizar as comunicações do suspeito com outros magarefes da rede e a partir daí "localizar" o poiso virtual daquele cabecilha e, numa segunda etapa, deitar-lhe a mão, onde quer que ele estivesse (fisicamente falando). "E se o 'manhoso' não existisse mesmo em lado algum e fosse coisa de alguma máquina?", interrogava-se ela, num assomo de irritação.

Subitamente, recebera um alerta de uma mensagem do Jet Propulsion Laboratory, em Pasadena (nos Estados Unidos), o que a deixou perplexa: "Que diabo é que o espacial tem a ver com isto?" (e mentalmente sublinhou ESPACIAL - este era o verdadeiro, o dos tipos ligados ao espaço lá de cima).

Com a curiosidade a ferver mandou imprimir, já traduzido, no écran do "tablier" do monovolume que funcionava como estação de pesquisa móvel: "Detectámos o suspeito com essas características. O domínio a partir do qual ele emite está em www4.moneyfool.ldf.outsp".

Depois de uma gargalhada com o "moneyfool", Carla ficou intrigada e pediu explicações do que era "ldf.outsp" - nunca tinha ouvido falar. O dicionário de domínios respondeu-lhe de imediato: "life digital form - outspace".

Rapidamente o "agente" ajudante de Carla - um software inteligente de procura a que ela chamava carinhosamente de "Alex III" (6) - deu-lhe as coordenadas de "moneyfool" e a equipa começou a trabalhar na desarticulação do domínio emissor de euros digitais.

O suspeito virtual - a tal "life digital form" - viria, de facto, a ser localizada num vai-vem de investigação espacial privado, em cuja parafernália tecnológica tinha "parasitado", sem que os responsáveis se dessem conta deste "passageiro".

Mas a investigação só agora começava - a Judiciária tinha o lema sagrado: "Ir à fonte - secar o mandante".

Aliás, uma "forma digital de vida" era um programito - não mais do que isso, à primeira vista. Um "parasita" digital numas máquinas - o diabo é que tinha a capacidade de tomar decisões autónomas e de se "clonar", formando uma colónia de criminosos virtuais, uma espécie de netos dos clãs de "hackers" de há 10 e 15 anos atrás, mas em forma digital.

Ainda foram uns dias de "descodificação" genética do programa - a tal forma digital de vida tinha sido gerada a partir das sequências de um batalhão de ADNs de "hackers" famosos, disponíveis numa base de dados no Mónaco (7) - seguida de "bombardeamento" com código para eliminar o "tumor" de vez.

Carla pensou com os seus botões: "O 'manhoso' não pode ser só código!!!", e ficou irritada, pois não havia gozo supremo do que meter a mão num mandante de carne e osso. Ficar a olhar para o céu com uma "forma digital de vida" no dossier para arquivar, era o pior que lhe poderia suceder em tantos anos de carreira.

Mas, "Alex III", subitamente, surpreendeu-a: "O 'manhoso' tem rosto - W.P. é 'wheel-prisoner'. Prisioneiro em cadeira ou de uma cadeira. Será de rodas?". (E ouviu-se uma gargalhada digital - "Alex III" tinha superado "Kubrik"). E, rapidamente, pesquisou bases de dados de "hackers" vivos com doença prolongada com longas permanências em cadeira de rodas.

"Há, cá está ele - Clínica....aqui mesmo em Lisboa", prosseguiu "Alex III", e o monovolume deslizou rapidamente pela cidade directo ao quarto do personagem que já os esperava sorridente. "Mais preso do que já estou não há hipótese. Sou todo vosso!" e o "pai" de "W.P." deu uma gargalhada sonora.

GLOSSÁRIO
(1) Manhosos = simpático nome dado aos criminosos.
(2) Bófia de proximidade = uma espécie de terceira divisão policial que se dedica ao pequeno e médio crime "local" sem sofisticação, praticado pelos "saloios".
(3) Saloios = deliquentes de crime de rua ou assalto de residência ou estabelecimento comercial com grau de violência pequeno ou médio e sem sofisticação tecnológica. Em geral são "frílas" ('free-lancers'), sem enquadramento em gangs de manhosos. Ferem ou matam com "armas de cozinha" (nome depreciativo para navalhas e outras armas brancas) ou com balas (como no século passado).
(4) Monovolume = o "escritório" habitual dos inspectores anda de rodas numas viaturas que no final do século passado davam pela classificação de "monovolumes" e que agora foram adaptadas para verdadeiros laboratórios "high-tech" e para deslocação em terra, água, lama e outros ambientes inóspitos e agressivos.
(5) Euros digitais = já não se usa, regra geral, dinheiro em metal ou papel na Europa, e cada vez menos cartões do tipo "Multibanco". Só os "tansos" (camada da população 100% info-pobre) e os "saloios" (os tais criminosos "frilas") manuseiam essas peças. A conta bancária em euros está digitalmente no seu relógio de pulso ou no seu celular e os pagamentos são feitos "beamando" (do inglês "beam"), por radiação, para o aparelho do vendedor.
(6) Por ordem cronólogica - Alex I é o marido; Alex II é o "huskie" já velhote, de pelo castanho; Alex III é o seu "agente" ajudante... em forma digital.
(7) www4.walloffame.db.
Página Anterior
Topo da Página
Página Principal