Eli@s.com, o eterno "carioca" emigrante

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

O "ACHAMENTO" 509 ANOS DEPOIS

Ele está à beira dos 50 anos.
A pêra está totalmente branca e o cabelo desapareceu, sobrando umas brancas em cima das orelhas espetadas.
Mas continua piegas quando pensa na Terra de Vera Cruz (vulgo, Federação dos Brasis).
Não chora («Filho macho, não chora», dissera-lhe uma vez o saudoso pai que era músico). Fica com "enchaqueca" (que não é doença só para mulher).
Guarda a lágrima para correr para a "globalis" (1).
Eterno emigrante latino-americano na ponta mais ocidental da Europa, esse continente mítico para o "carioca" (2), metade do coração tinha ficado no Rio (3) e a outra metade tentava facturar uma nota preta nesta ponta mais ocidental do velho continente.
Tendo andado em cima do arame quase em 20 anos de estada em Portugal, agora a sorte sorriu-lhe com o projecto do "Achamento" virtual.

Eli@s (4) andara dez passos (quase certinhos) e abrira o frigorífico, que logo disparou uma voz: «Tens mensagem importante e urgente no 'voice-mail'».

Ele tirou o leite de coco para o café da manhã e ficou à espera. Uma pessoa muito especial enviava-lhe uma longa e quente mensagem de saudade e perguntava-lhe se havia fórum este final de tardinha (com a diferença de fusos, quase noite em Lisboa). A parte final, era particularmente íntima: «Se houvé, amô, bota cinco minutchinhos ANTES na 'privacy line', tá?».

Depois de visualizar o resto do correio electrónico na parede, ele premiu um botão na "geladeira" (como ele teimava em continuar a chamar, apesar de já estar há mais de 25 anos em Portugal) que dizia "eli@s.com".

O movimento do dedo colocou em acção "eli@s.com", um "servidor" escondido dentro da parede junto à estação central de comunicações e energia do pequeno apartamento, uma "cobertura" (5) de duas minúsculas divisões num prédio restaurado da baixa lisboeta, que ele conseguira arranjar com vista para o Tejo, que o que tinha a mais em paisagem tinha a menos em espaço.

«Paisagem é tudo para a alma, cara!», argumentava ele, e depois acrescentava com orgulho: «Posso dormir com o cheiro da cozinha, mas tenho uma 'globalis' último grito». "Globalis" era agora um "must" nas casas - valia mais do que velocidade de banda ou webTV ou garagem com estação eléctrica de carregamento da viatura

Faça-se um parêntesis para se enquadrar o imobiliário. Uma entidade municipal tinha restaurado prédios da baixa lisboeta e alugado para famílias 'unipessoais' (6) a preços de renda controlados. Eli@s tinha ficado a noite inteira à espera do leilão em www4.solteiroaolharotejo.lis e fora dos primeiros a responder a um bizarro inquérito e a contar uma história pessoal sobre o Tejo (contar histórias, sempre fora o seu forte).

Voltemos, então, à cena actual. Eli@s pediu a "eli@s.com" em voz alta que listasse a agenda de fóruns. Apontou com um dedal a laser para o écran e sublinhou o dia da graça daquele Janeiro de 2009.

Fez um "click" mais sobre a data e ditou com voz alta: «Janette, o fórum de hoje é sobre... [e seleccionou um tema]. Dez - DEZ - minutos antes ligarei o nosso canal, princesa». O "voice-mail" correu automático para o outro lado do Atlântico Sul. O "servidor" programou a operação e repetiu, em voz rouca de máquina: «8:50 pm privacy line will be ON» (o problema deste "ai-teque" é que continuava na língua dos "camónes").

Bebeu de um trago o leite de coco e olhou para o Tejo, enquanto ajeitava a camisa negra e puxava as calças de esponja (moda, pois!). «Rapaz, esta ideia do 'achamento' virtual do Brasil foi o teu melhor projecto de sempre», pensou para com os seus botões.

Os palermas dos portugueses e dos brasileiros não passavam de tretas diplomáticas e festejos de rua, e jamais se haviam preocupado em colocar as diásporas de um lado e de outro em contacto virtual.

Eli@s tinha registado o domínio "achamento.com" em boa hora e começado há 9 anos atrás um pequeno "portal" de troca de mensagens de brasileiros na Europa e de europeus no Brasil - chamava-lhe a comunidade dos "solitários globais", gente cosmopolita expatriada, uns remediados outros ricos, que não perdia um minuto do "video-chat" para estar na conversa da treta.

Segundo parêntesis para enquadrar a namorada virtual. Janette era uma parisiense de 40 anos a trabalhar como directora de imagem no Rio, seduzida pelas canções de Chico Buarque, pelo calor de Dezembro e pelas "caipirinhas" (isto parece "cliché", mas é verdade). Mas o coração dela continuava na Europa e, agora, que descobrira Eli@s tornara-se uma viciada no "video-chat".

Ao fechar a porta de casa, a maçaneta fez um "click" e ouviu-se outra vez uma voz de máquina no seu relógio de pulso: «A que temperatura queres a casa?» - "eli@s.com" preocupava-se com o frio permanente que o seu "dono" passava nos meses de Inverno.

GLOSSÁRIO
(1) 'Globalis' = uma marca registada de uma sala de video-chat criada por uma firma lisboeta de design de interiores. A sala em formato de 360 graus tem um écran a toda a volta com uma cadeira ergonómica e flexível no centro. A cadeira adapta-se aos movimentos e responde a comando de voz. Na realidade é um cubículo fácil de enxertar, de raiz, em apartamentos pequenos. Há mais um conjunto de pormenores tecnológicos que não é possível detalhar sem infringir o 'copyright'.
(2) "Carioca" = habitante do Rio de Janeiro.
(3) Rio = Rio de Janeiro.
(4) Eli@s = Elias, nome do personagem, na nova escrita autorizada pelos Serviços de Identificação Civil do Comité europeu de Registos.
(5) Cobertura = último andar recuado; no caso da baixa lisboeta, antigas águas-furtadas, agora recuperadas e tornadas habitação de moda para solteiros.
(6) Famílias 'unipessoais' = solteiros (que agora têm um estatuto especial em termos fiscais). Alguns municípios começaram uma campanha de atracção deste tipo de famílias para os centros urbanos, nomeadamente para edifícios que foram restaurados e retalhados em apartamentos com não mais de duas pequeníssimas divisões por habitação.

Jorge Nascimento Rodrigues está a tirar mensalmente estas personagens da proveta até ao próximo século.
A série está disponível "on line" em www.janelanaweb.com.
O autor pode ser contactado em jnr@mail.telepac.pt.

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