A Psicóloga Móvel

Curtas estórias de Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho para a série «Proveta 2009» na Ideias & Negócios

Desadaptação emocional.
Irupções maníaco-anarcas.
«O-tecs».
«Gen-disfunções».
«Canudo-depressivos».
O leitor não faz ideia do que isto seja.
Eu também não, até que encontrei Catarina.
São doenças profissionais, erros de cirurgia genética, reacções político-epidérmicas (consideradas «primárias») e desajustamentos do mercado de trabalho, que em 2009 se chama de «HK data base» (veja o glossário).
Catarina, Catarró para os seus pacientes mais fiéis, é uma psicóloga «móvel» que é contratada por condomínios europeus de actividades económicas em que vai exercer a psicologia clínica cada semana.

Catarina nem imaginava que o canudo tirado em 2000 a pensar no exercício de uma clínica no âmbito da transexualidade a chutaria para uma «lista de espera» (vide glossário) seis anos depois.

O mosaico de inclinações sexuais constitucionalmente garantido, a família de geometria variável e o mediatismo de muitos casos em posições públicas relevantes, encarregou-se de rarefazer este mercado de pacientes, em expansão no final do século XX.

Catarró - como era conhecida entre os seus pacientes mais fiéis, pela dureza da sua voz e a total neutralidade das suas expressões faciais - teve de se refocalizar, de encontrar outros segmentos emergentes de psicologia clínica.

Ela é agora uma psicóloga especializada em adaptação à mudança (ela própria teve de fazer o seu próprio reajustamento mental - o que lhe deu uma vantagem pessoal assinalável) e no tratamento de novas psicoses derivadas de «pequeninos» erros de manipulação genética somática (vide glossário), que os «media» alcunham de «gen-disfunções».

«Desadaptação emocional» é em 2009 em toda a Europa a doença mais generalizada da década entre os activos e os em «lista de espera», segundo o último estudo do Instituto Federal de Disfunções Profissionais.

O contingente desta gente é formado por dois segmentos em crescimento contínuo: os «canudo-excedentários», jovens licenciados à procura de primeiro emprego com saberes em abundância no espaço electrónico de oferta, e os profissionais com «défice de competências» que se encontram a meio da vida activa, apanhados pelas «convergências» tecnológicas e de negócios, desde a revolução da Web nos anos 90 do século passado à mais recente vaga da engenharia genética que criou indústrias novas como a «agrocêutica», a bio-informática e o bio-entretenimento.

As empresas e organizações, agora agrupadas em condomínios de actividades económicas (vide glossário), vivem problemas gravíssimos de produtividade em queda acelerada, absentismo e mesmo, por vezes, «irupções maníaco-anarcas» (uma designação frequente nas mensagens das Relações Públicas) em virtude desta disfunção que empurra muita gente para uma categoria social agora denominada de «0-tecs» (vide glossário) que, em certas regiões europeias do Sul, chega a atingir mais de 1/2 da população.

Os «canudo-depressivos» são uma bomba social com uma carga nuclear ainda maior. Nalgumas áreas metropolitanas e nas regiões de entretenimento têm explodido rebeliões de rua e info-guerras que têm deixado os poderes locais completamente à nora. Pequenas redes de grupos de jovens usam armas biológicas e informáticas de fabrico caseiro.

Em desespero de causa, as empresas e os poderes públicos regionais e locais contratam agora os psicólogos clínicos num directório a que o acesso custa 5000 euros por ano. O directório é gerido por uma cooperativa de profissionais europeus em rede que dão teleconsultas e vão aos condomínios, segundo uma escala planeada por um sistema de reservas inteligente e com o apoio de uma poderosa ferramenta de gestão de conhecimento clínico.

«Esta semana vou estar num condomínio na Andaluzia», comenta Catarininha (aqui o nome muda de tonalidade, pois a frieza torna-se doçura) para Pedro, o marido. Este recorda-lhe para levar o tradutor automático na pasta e para não se esquecer de accionar logo à chegada o canal privado de «video-sense» no motel para poderem trocar algumas emoções.

Os sistemas de reservas estão generalizados a diversas áreas profissionais em que há grande procura de competências especiais. O detalhe das competências é levado ao extremo de pormenores, que nem aqui lhe revelamos.

Um doutoramento feito por Catarina, aquando da sua reciclagem, na área das disfunções «maníaco-anarcas» com base num estudo de campo de uma amostra em quatro regiões-tipo (sub-urbes sem www4, meios rurais em deserto crescente, ex-zonas turísticas declaradas de calamidade ambiental, zonas piloto de intervenção genética experimental em adultos com risco de doenças prolongadas) permitiu-lhe um conhecimento rigoroso das causas «latinas» mais comuns, o que a colocou com cinco «estrelas» na última coluna vertical do directório.

A escolha por parte dos gestores do condomínio andaluz não foi, por isso, muito complexa, nem demorada. O software cuspiu imediatamente a ficha de Catarina no écran.

GLOSSÁRIO
HK data base = Base de Dados de Saber Humano. Os profissionais deixaram de ser classificados como «recursos humanos» com determinados currículos baseados em carreiras, profissões exercidas ou habilitações académicas,. Agora há uma indexação em torno de competências nucleares em conhecimento (knowledge, em inglês). O ex-mercado de trabalho é hoje um espaço electrónico de competências.
Lista de espera = Desde há cinco anos que este eufemismo substituiu nos directórios oficiais de oferta de competências um termo do século passado - «desemprego». Os políticos pós-capitalistas não descansaram enquanto não apagaram o termo dos dicionários sociais. Desemprego é uma não-palavra. Chiuuuu!
Genética Somática = A manipulação de genes em células em crianças e adultos tem sido praticada correntemente desde finais do século passado. Apesar de socialmente aceitável, diversos efeitos inesperados provocados, em regra, por erros cirúrgicos, têm vindo a revelar uma galeria de novas psicoses.
Condomínios de actividades económicas = Tal como na habitação, os centros de teletrabalho e os serviços aos profissionais agruparam-se num conceito mais avançado do que os «office centers» do século XX.
«O-tecs» = Legião de profissionais, sobretudo a meio da vida activa, sem competências tecnológicas adequadas. São frequentemente ridicularizados nos «media» e inspiram uma gama nova de cartoonistas, publicitários e escribas de literatura de cordel. Ultimamente, tornaram-se muito violentos e estão a desforrar-se em cima dos «golden-tecs».
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