A Miúda dos Leilões

Matilde, que revelou uma vocação estranha desde tenra idade

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

Contam as más línguas que a petiza foi gerada entre servidores, «routers» e umas máquinas quase-monstras que davam pelo nome de PCs (veja o glossário).
Friso «entre» e não «por».
Matilde é ainda da geração concebida por métodos «naturais» - como reclamam hoje os primitivistas (veja o glossário).
Polémicas de fecundação à parte, a miúda veio com o bichinho do digital no sangue.
Aos três anos dava cabo dos écrans e do teclado dos pequenos portáteis do avô-colateral (veja o glossário uma vez mais).
Aos cinco, era perita no veste e despe de todo o tipo de «wearables» (veja o glossário, pela última vez). E aos nove...é o que vocês vão ler.
Adianto que a miúda abriu um precedente legislativo na Transatlântica Lusófona (não desespere, vem explicado adiante).

Matucha, como é carinhosamente conhecida no círculo mais íntimo, passa a vida nisto.
O «isto» é o que vão ouvir em directo, mais adiante.

Provavelmente vai parecer-vos uma conversa surrealista.
Completamente imprópria para leitores que mentalmente estão sempre a regressar ao passado - ao ano 2000, quando ela nasceu com quase quatro quilos e uma nervoseira de mãos, que se prolongaria, anos depois, na destruição sistemática e minuciosa - diria mesmo cirúrgica - de tudo quanto se assemelhasse com computadores, um nome de que os mais velhos ainda se lembram, certamente. Provavelmente, um rabito de um gene do pai que, em miúdo, não dava muitos meses de vida aos Spectrums (vá ao glossário).

Mas liguemos o audio: «O 'tijolo' do meu avô-colateral rendeu-me 4000 e-euros no leilão de à bocado em Arqueologia.auc», sussurrava Matucha, no Monte de Caparica, para a colega de turma em Braga, que, naquela altura, estava também «on line» no «video-chat» da aula (à distância, diriam os primitivos do século passado) de Métodos de Simulação.
O 'tijolo' era um aparelhómetro de cor negra, com uns quilitos, que servia de telefone móvel há dezasseis anos atrás.

Agora, era habitual os idosos venderem nos domínios em «auc» (de «auction», em inglês) as velharias digitais lá de casa. Peças de museu como PCs, telemóveis e relógios chegam a atingir valores de colecção! O problema é que Matilde - precoce em tudo - resolvera entrar neste mundo de coleccionismo para adultos grisalhos com o pseudónimo do seu «huskie» castanho preferido, Alexis, que conta exactamente a mesma idade histórica que ela (mas que, em anos caninos, é mais velho que o avô-colateral).

«Toda a gente os tinha deitado fora no século passado. Fico contente de o 'tijolo' ir para o Museu de Arqueologia das Telecomunicações aí em cima», rematou a miúda. A outra retorquiu que queria o endereço, e Matilde respondeu: «Basta ditares www4.arqueologia.auc». Segundos depois: «Não faças essa cara de espanto!». A colega de Braga comentou: «Como é que dão o dinheiro de dez mesadas por uma porcaria daquelas!?».

E desataram aos risinhos - o que as denunciou junto da professora, uma empertigada que estava omnipresente no canto direito, e que se irritava constantemente por causa dos putos lhe passarem a perna nas simulações. A fulana tinha sido «reciclada», garantiram aos pais dos alunos, mas continuava com os tiques do século passado.

Matilde e outros miúdos treinaram um tom de voz especial. Falavam baixinho, quase noutra onda, para os «e-swatch» que traziam pendurados ao pescoço como colares. Mas descaíam-se volta e meia. E o barulho era ampliado como uma gargalhada atómica - por causa de um software a que chamavam de «sistemas de detecção de ruídos e de cabulice em ambientes de ensino».

O «video-chat» apagou o canal secreto entre as duas, e Matilde voltou às simulações e a magicar como é que poderia descobrir, um dia destes, se a professora era de carne e osso ou um «ciberóide» (ver glossário).

Mas, o mais bicudo ainda estava para vir.

Matucha teve de dar um número de «chipcard» para poder receber a transferência de e-euros, e como Alexis não tinha - os animais ainda não são autorizados a terem movimentos financeiros -, distraiu-se, com a euforia das dez mesadas, e deu o dela. (Faça-se um parêntesis: ela costuma usar o do avô-colateral, que, conivente com o vicio dos leilões, lhe gere as massas ganhas em aplicações no «overnight» no GASDAQ, ligado às 'start ups' da genómica. O velho ganha uma comissãozita para vícios privados).

O percalço - em fracções de segundo - denunciou-a em toda a região Transatlântica Lusófona (tradução=zona económica e política virtual centrada no Atlântico e abrangendo esta esquina da Europa, mais a Federação do Brasil e diversas comunidades africanas e americanas).

O coordenador do Arqueologia.auc levantou, de imediato, o problema: podem miúdos com menos de 12 anos ser admitidos nos leilões e assumir «personalidade jurídica transaccional» (mais um chorrilho de palavrões)?

De imediato, geraram-se dez sondagens «on line» (nesta altura em que acabo de escrever, os conservadores a favor do NÃO ganham por uma unha negra) e aguarda-se a todo o momento um parecer oficial.

E O QUE ACHA O LEITOR? DÊ-NOS A SUA OPINIÃO.

GLOSSÁRIO
Avô-colateral = Marido da avó. A estrutura familiar do século XXI herdou estas configurações, em virtude das altas taxas de divórcio desde os anos 70 do século passado, que obrigaram à inovação na linguagem.
Ciberóide = alcunha jocosa usada para as personagens puramente virtuais que hoje (em 2009) inundam tudo - dos noticiários, aos filmes, ao ensino, à música, aos ministros e políticos.
PCs = Personal Computers, ou computadores «pessoais», surgidos no final dos anos 70 do século passado. Imagine-se! Como se fosse possível, hoje em dia (em 2009), haver o que quer que seja... que não seja PESSOAL.
Primitivistas = Corrente política radical nos «foruns» da WWW4. Advoga o regresso obrigatório às práticas de reprodução «naturais». Acusados de estarem por detrás da onda de violência contra os centros infogenéticos.
Spectrum = Pequeno computador dos anos 80 do século XX criado pelo inglês Clive Sinclair. As últimas criações de Sinclair podem ser vistas em www.sinclair-research.co.uk. O site oficial do mundo Spectrum pode ser consultado em www.void.demon.nl/spectrum.html.
Wearables = Vestuário comunicacional. Moda desde 2003. O primeiro «show» percursor no Media Lab do MIT, nos anos 90 do século passado, pode ser consultado aqui.
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