O Formando Grisalho
...e o Cão «Prof»

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginários pelo
traço de Paulo Buchinho

O tipo está à beira dos 60.
Teimoso como uma porta, levou tempo a perceber que tinha de ir a aulas.
Aulas de dicção. Não - não faça essa cara de espanto!
Porquê? Por causa do «voice-mail» (adiante lhe explicamos melhor).
Jorge deixou de escrever digitando em teclado (um artefacto do século passado). «Escreve» falando.
E se fala mal, a máquina só dá gralhas, a tradução automática gata tudo...e o nosso «velhote» tem de largar muitos euro-dólares para refazer tudo.
«Fredy», uma cópia virtual do seu labrador predilecto, faz as honras de tutor.
Não se ria da figura de Jorge, porque também lhe vai calhar a si...daqui a nove anos.

«J-o-r-g-e, tens aula de dicção às 11.30». A frase ecoou no quarto. Jorge, o próprio, acordou estremunhado e ouviu «Genoveva» - a voz off sem rosto que sai algures da parede - ler a correr a agenda do dia, que ia desfilando pelo écran de parede.

«Aula de dicção com Fredy» estava, de facto, fluorescente e a frase «J-o-r-g-e, tens aula de dicção às 11.30» repetia-se a intervalos de 3 minutos. «Já ouvi», e entretanto Jorge tinha confirmado no tele-relógio que o compromisso não seria esquecido. O quarto ficou silencioso por uns instantes.

«Que correio tenho hoje?» e, de seguida, «Genoveva» accionou o «voice-mail»: «45 mensagens. Queres ouvi-las todas?». «Não, só as da equipa de webaudio-magazine. O resto, projecta-as no écran que eu leio na casa de banho».

A primeira mensagem era logo madrasta: «O 'attach' com a tua peça tem diversas gralhas sonoras. Tens mesmo de voltar ao banco da tele-escola para melhorar a dicção» e ouviram-se várias gargalhadas de ferir os ouvidos.

Fredy, o original em carne e osso, no séc. XXJorge, quase com 60 anos, tinha-se desabituado de «ler» alto, como costumava fazer em miúdo para melhor memorizar ou já na pele de jornalista para ver se os parágrafos de escrita lhe soavam bem - às vezes até parecia que estava a representar, e o seu cão predilecto, um labrador negrão de nome «Fredy», ficava meio apalermado a olhar para a figura.

O nosso escriba passara mais de 45 anos agarrado ao teclado como um viciado - primeiro na velha máquina de escrever do pai, uma «Remington» (*) preta de teclas altíssimas como os sapatos das donas destes loucos anos de princípio de milénio; depois no que no final do século passado se chamava de «PC». A ponta de alguns dedos, junto às unhas, tinha ganho umas calosidades esquisitas, que nunca tinham sido incluídas nas doenças profissionais, e que o impediam de grandes aventuras em termos de caricias.

Mas, enfim, a progressiva miniaturização dos aparelhos de comunicação tornara o digitar quase impossível e os dedos de Jorge já não tinham aquela agilidade de há 10 anos atrás. Realmente o digitar só era acessível a uma minoria de artistas com os dedos que faziam exibições em microteclados no concurso anual em Las Vegas.

Agora, todos os jornalistas tinham de aprender boa dicção para trabalhar neste mundo da informação - já não eram só os políticos que se registavam no «site» 'Escreva bem falando' em http://www4.diccao.org.

A sessão das 11.30 era um «turma» virtual de mais de 100 colegas de Jorge da geração grisalha em reciclagem na língua portuguesa, que permitia a «personalização» da aula e do formador. A «aula» era um écran de parede gigante onde um tutor virtual fazendo as vezes de «prof» treinava o formando, socorrendo-se, por vezes, de uma interacção com outros formandos que apareciam em pequenos écrans, com ou sem os seus tutores.

Jorge escolhera um «e-clone» de «Fredy», a quem somaram, para além de uma afinada inteligência emocional - capaz de pôr os cabelos brancos em pé ao aluno - herdada do canino original em pele e osso, uma enciclopédia do bem falar que fazia lembrar uma senhora que há uns quinze anos atrás ensinava a língua naquele caixote de plástico a que chamavam televisão.

A razão de Jorge ter de ir a aulas era prosaica: o diabo do «voice-mail» pregava partidas constantes e quando se accionava o comando de «automatic translation» a voz que se ouvia em inglês a ler alto as peças de Jorge era um chorrilho de frases incompreensíveis que nem mesmo Akio - o parceiro de Jorge em Tóquio no webaudio-magazine - a falar desprendidamente em «off» a língua de Shakespeare igualava o desastre.

Resultado: os custos de correcção de dicção em euro-dólares tinham disparado e Jorge, no último mês, já gastara 1/3 do orçamento a combater o malvado pássaro das gralhas sonoras.

«Jorge repete comigo: 'A revolução emergente da genómica (em fundo, como em eco, uma voz fanhosa repetia atrapalhadamente génó...quê?)- não!, GE-NÓ-MI-CA! - está a provocar um movimento tectónico (em fundo, tê-tónico? - não! TE-CTÓ-NI-CO!...».

Irritado, dando largas à sua proverbial inteligência emocional, «Fredy» deslocou-se para o canto do écran, alçou a perna, e, mais aliviado, concluiu: «Nunca vais perceber o que é o g-business, para que continuas a escrever a armar-te em guru da nova economia? Vê se te dedicas a outra coisa!».

O problema é que Jorge era um escriba-dependente. Não sabia fazer outra coisa. Depois de ter visto as mãos tornarem-se «excedentárias», corria o risco de ser mandado calar por inadaptação à profissão! Tempos difíceis, para quem não aprender dicção.


OBS:
(*) Se o leitor é um aficionado das máquinas de escrever antigas do século passado (século XX) tem alguns links que podem ser escolhas interessantes de navegação:

  • Early Typewriter Collectors Assocation
  • The Classic Typewriter Page
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