Ruben, um ilhéu no zoo das organizações - o último personagem
desta série
(Nota de Despedida)

U sociólogue dus excesses genétiques

Curtas estórias por Jorge Nascimento Rodrigues e personagens imaginárias pelo traço de Paulo Buchinho

Proveta 2009 é uma coluna exclusiva da revista portuguesa Ideias & Negócios

 Outras provetas 

Não são gralhas. É da pronúncia.
Ruben abandonou a Pérola do Atlântico ainda o buço teimava em lhe dar um ar mais velho e as borbulhitas emolduravam uma barba rala de dois dias.
Veio cursar Sociologia do Trabalho na capital, mas a moldura de público feminino nos anfiteatros da Junqueira deu-lhe volta à cabeça, o que tornou a licenciatura uma longa marcha.
A pressão da carteira acabou por o levar a enamorar-se pelos caracteres mais do que pelas colegas e exerceu jornalismo do trabalho durante alguns anos.
O cansaço de ser chefiado por competentes convencidos, levou-o há três anos atrás para fora das letras, empurrando-o para o zoo das organizações, um microcosmos em que jovens sociólogos do trabalho observam os mais recentes «desvios» profissionais.
E é assim que o vamos encontrar hoje com 32 aninhos à espera do pendular das 23.50.

23.49.58 (lê-se no relógio gigante digital incrustado num mural assinado, como se fosse uma espadeirada, por Devil Z, um artista de graffiti).

Ruben está na plataforma da gare lacustre do Tejo-Foz. Uma arquitectura arrojada em novos materiais, de um prateado pujante, que serve de hub-sul para uns vinte pendulares que cruzam a chamada Área Metropolitana da Baía do Tejo.

Os habitués chamam-lhe depreciativamente o off-shore (mas, com boa-vontade, o turista "vê" o recorte de um Museu célebre de Bilbao a uns cem metros acima da água, no meio da foz do Tejo, naquele ponto onde no século passado ficava uma ilhota com um farol).

Faça-se um parêntesis para quem queira regressar ao passado e perceber o que se passou com os transportes rápidos. (Já ninguém anda de "metro", desde que se declarou a "doença dos túneis". A circulação subterrânea foi interdita a peões. Aquelas catedrais enterradas nos fundos de Lisboa, embelezadas por artistas do século passado, só servem, agora, para a contemplação por composições que transportam mercadorias, tropas especiais, prisioneiros, e - diz-se - clandestinos.)

23.49.59....23.50.00 - Ruben vê chegar o pendular 13 e desliza rápido para a carruagem que ficou vermelha desde que a atapetaram com uma película de publicidade de uma transnacional que usa aquela cor.

Alguns chamam-lhe o "expresso da meia noite". Ele serve um eixo que despeja gente até 100 quilómetros da capital. A cor vermelha sempre atraíu um certo tipo de profissionais que àquela hora regressam aos condomínios suburbanos, depois da chamada jornada de trabalho after-lunch (uma das modalidades em vigôr).

As carruagens têm um dispositivo óptico de contagem e identificação do webID dos "visitantes" e a multinacional oferece um download de noticias, novidades, lançamentos e faits-divers, com publicidade travestida – publiconteúdos, é como agora chamam ao lixo de marketing - que é "feixado" para os relógios ou outros aparelhos comunicacionais que os utentes vestem.

Mas muita gente "desliga" pura e simplesmente a rede pessoal.

Mas basta de rendilhados!

O que anda Ruben a fazer por aquelas paragens?

Primeira achega: quando ele estende a mão e cumprimenta alguém, os dedos "bimam" um cartão de visita digital onde se lê: «Ruben.soc, sociólogo de excessos genéticos» (é claro que se ele envia um cartão falado, a audição é ligeiramente diferente: «sociólogue de excesses genétiques», numa prenúncia que o persegue apesar dos quase quinze anos na capital do "contenente").

Segunda achega: ele usa um barretinho típico onde traz alguma micro-parafernália (uma webcam, um biosupercomputador e, escondido, um pentezinho que a mãezinha lhe deu, para, de vez em quando, ajeitar os cabelitos meio encaralocados).

A carruagem está repleta de gente bizarra - não, não se trata dos utentes da meia-noite de há dez anos atrás. (Ruben ainda se lembra de apanhar o "metro" das 23.50 no Marquês e de encontrar no lugar de fronte um pobre homem-elefante com mãos delicadas de pianista, cuja cara fora desfigurada pela terrível doença, ou o mendigo que expunha os achaques de um membro que foi perna em tempos. Ninguém sabe o que fizeram a estes utentes. Agora, as Relações Públicas do Transporte Rápido da Área Metropolitana da Baía do Tejo - TRAMBT - falam de um «ambiente sem ruído visual»!).

Os personagens que Ruben estuda (e aqui, com permissão dele, já estamos a revelar ao leitor o fio da meada) são classificados nos posts de emprego como "pef’s" - traduzindo: profissionais de elevada performance.

São uma espécie de atletas do trabalho "dopados" - estruturalmente "dopados", já que através de intervenções genéticas ou de implantes intrusivos viram as suas competências inatas serem manipuladas como se eles fossem plantas ou animais transgénicos.

A maioria fê-lo voluntariamente - diriamos, mesmo, militantemente -, como as damas que íam ao silicone no século passado para valorizarem atributos. As organizações acenavam com as melhores posições no organograma e com os melhores pacotes financeiros - e a orgia genética teve um boom.

Mas, depois de alguns anos de euforia, começaram a sofrer os efeitos secundários e as empresas viram-se atacadas por sindromas do trabalho desconhecidos. Ruben.soc tornou-se famoso como catalogador destes "desvios" no comportamento profissional (e social) derivados do que agora os Tribunais acusam de «excessos genéticos». Ele tem no mypersonalR&D um dicionário clínico em permanente actualização (um resumo para leigos pode ser lido no "Menu" que publicamos em caixa).

As visitas ao pendular das 23.50 são a parte final do seu estudo de campo, em que se faz acompanhar por uma estagiária (Rebecca, que Ruben crê ser nome artístico). Os "pef’s" desenvolveram um conjunto de tiques anti-sociais durante o período de viagem, e a administração do TRAMBT pretende descobrir formas de neutralização ou canalização dessas pulsões.

Ruben e Rebecca estão animadissimos. É meia noite e vinte. Ruben acaba de listar o 25º tique e dá por finda a investigação de ano e meio. Subitamente, apercebe-se de algo estranho - o back office do barretinho sofre intromissões, o acesso à base de dados perde-se completamente e o nosso investigador sénior fica à nora. Mal se dá conta que Rebecca desapareceu.

«Ciao, mestre», foi o que sobrou num post-it colado no vidro (os post-it em película continuam a ser usados sobretudo para declarações de amor à moda antiga, entre tímidos) . Ruben ouve risadas dentro da cabeça (transmitidas, agora, de novo, pela sua rede pessoal) e o matraquear de uma palavra - "japos".

Nervosamente o seu agente pessoal começa a despejar o significado do termo, e Ruben tem um calafrio. Rebecca era um "japo" - um novo "desvio", o sexto (leia o significado no "Menu"), que ele descobriu da pior forma.

O MENÚ DOS CINCO (perdão, SEIS) DESVIOS
Racionalista agudo - quadro executivo no qual foram enfatizadas as capacidades de análise racional em detrimento das emocionais com vista a decisões "duras" e "frias". Alteração realizada a meio da licenciatura através de intrusão de um "chip" no cérebro para aumento da velocidade do processamento de informação, escolha de palavras-chave, simulação de cenários e perícia de xadrez. Profissional utilizado sobretudo para gestão financeira, mercados financeiros, processos de negociação prolongada e reestruturação traumática.
Problemas detectados na clínica organizacional: incapacidade crónica de mobilização dos empregados; fraca integração na "alma" e "cultura" da empresa; infidelidade à organização; isolamento social; comportamento irascível; obcecação pela perfeição; tendência para taras diversas dissimuladas; vulnerabilidade à espionagem industrial.
Hiper-emocional - quadro executivo no qual foram enfatizadas as capacidades de análise emocionais. Alteração realizada através de uma reprogramação bioneuronal: sessões psiquiátricas e de implantação de um tecido cerebral geneticamente modificado que maximiza as capacidades da inteligência emocional. Profissional utilizado sobretudo para motivação do pessoal, mobilização dos accionistas, lobbying, e vendas customizadas um-a-um ou em grupo.
Problemas detectados: crises existenciais frequentes; empatia doentia; hipersensibilidade sexual e sentimental; ataques de riso prolongados gerando ruído anti-produtivo; extroversão exagerada com quebra de credibilidade e excesso de informação dada a público.
Informático biónico - profissional de tecnologias de informação com capacidades acima da média para desenvolvimento, manutenção e reparação de hardware, software, sistemas e redes. Alteração realizada: colagem de instrumentos biónicos nos dedos (tipo Wolverine dos X-men) para mexer no hardware, implantes na visão para aumentar a capacidade, o detalhe e o "zoom", e de um "biochip" na base do crâneo para permitir a ligação directa às redes.
Problemas detectados: obsessão tecnológica; uso dos dedos como arma urbana; discriminação dos colegas; profissional de risco, com capacidade de sabotar por completo o sistema, dominá-lo ou entregá-lo aos concorrentes; tendência para taras individuais dissimuladas. Ainda não é passível de controlo centralizado, pois a legislação laboral não o permite. Períodos de comportamento instável e anti-social. Reforma precoce derivada de cegueira não-recuperável por nova intervenção genética.
Netónico - profissional Internet de alta performance, para gestão de comunidades virtuais e "exchanges" de comércio electrónico. Individuo permanentemente "ligado". Alteração realizada: implantação de um "chip" no cérebro para permitir a ligação directa à Internet e de um bio-ecrã no braço esquerdo, que é coberto por uma pele artificial, que se desloca, tocando no segundo nódulo da mão.
Problemas detectados: "web-mail" dependente (não aceita comandos via oral ou gestual); constantes ataques de vírus informáticos, tendo como resultado estados de apatia e de quebra de comunicação com os colegas, ou irupção de revoltas anarquistas e de ataques de destruição rápida e massiva (a que já chamam de «nervoso das redes»). Dificuldade de distinção entre o real e o virtual. Criação de famílias virtuais sem função reprodutiva.
Transgénico produtivo - profissional de alta produtividade, cuja modificação genética pode ser aplicada em qualquer quadro de modo a aumentar o seu ritmo de produção eficiente. Alteração realizada: injecção de ADN de "workaholismo".
Problemas detectados: obcessão frenética pelo trabalho, causando isolamento social. Sindroma da cadeia de produção (ritmos imprimidos exagerados causando disrupções e caos na cadeia de valor, por "atraso" natural dos outros componentes), também apelidado de «fordismo louco». Rápido desgaste físico, com reforma precoce e agravamento da factura de saúde das organizações. Aumento furioso do espírito de competição na empresa, afectando o trabalho de equipa. Mono-conversação sobre o seu nicho de trabalho. Até a dormir sonha com o trabalho (o que levou algumas organizações a aplicarem um "chip" de captação de resolução de problemas durante esse período diário da vida deste tipo de profissional). Solteiros crónicos que têm desenvolvido uma população urbana com alto grau de solidão.
(Neste ponto, Ruben acrescentou, nervosamente, um sexto "caso". As palavras começaram por aparecer muito tremidas no écran e estranhamento com sotaque ilhéu. "Imitadore furiose" - perdão, "imitadora furiosa". "Japos").
"Japos" (contracção depreciativa de "japonezinhos") - são estagiários que desenvolveram competências de imitação criativa furiosa, e que algumas organizações estão a usar como substitutos a um centésimo do preço de profissionais sénior de alta performance, que são, de seguida, descartados. Aplicação aos recursos humanos da lei de "clonagem" intelectual implicando obsolescência rápida dos séniores. Que intervenção genética foi feita? Ruben ainda não descobriu.
Problemas detectados: dificeis ainda de elencar dado o escasso tempo de observação e ausência de memória histórica. (Ruben escreve estas palavras nervosamente e faz "off" na cábula electrónica).

Nota de Despedida

Ruben é a última Proveta desta série de dez e teve imenso prazer em subir ao palco. Se lhe acharam graça, mandem-lhe um e-mail.
Os nomes das outras Proveta 2009 são, também, verdadeiros, de gente de carne e osso. Foram personagens inspirados em amigos, familiares e em mim próprio. Em muitos casos, os visados contribuiram com conceitos, tiques, ambições, desejos de carreira e frustrações. Ao longo de cada peça, as risadas foram muitas. Esperemos que o leitor se tenha divertido também.

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