O Empresário «Descartável»

Curtas estórias por JORGE NASCIMENTO RODRIGUES e personagens imaginários pelo traço de PAULO BUCHINHO

Não, não se trata de fraldas.
Mas de Alex que acaba de fazer 37 anos.
Quando ele abre o blusão de cabedal, você pode ver no forro a galeria de empresas por onde passou a marca «Alex Inc».
O «curricula» mede-se pelas «descartáveis» que se liderou.
Eis o primeiro personagem saído da «proveta» que, em contagem decrescente para o próximo século, vos vai dar a conhecer gente singular envolta no digital ou à margem dele...em 2009

Alex acaba de fazer 37 anos e ainda não chegou a casa para abrir o espumante (faz um esgar de agonia, mas admite que hoje abrirá uma excepção à cerveja - sim, a lei seca ainda não atingiu estes dois poderosos «lobbies»).

Envolto no blusão de cabedal vagamente castanho, justo ao corpo, mal se nota a cosmética digital que o dito sofreu para se tornar numa «bodynet» permanente.

Ao passar o dedo pelo primeiro botão, ouve nitidamente no aparelhómetro que lhe enfeita a orelha direita o «urgente» que acaba de «saltar». «Projecto Pelicano Azul - equipa localizada para arranque - dc a constituir - aguardo instruções de registo», ouviu num português de «software».

Nos últimos sete anos de trabalho como «webmanager» por conta própria, ele já não se recorda de quantas empresas criou ao certo com outros colegas e parceiros para levar a cabo projectos encomendados, cujo primeiro contacto não passa destas mensagens previamente trituradas por um agente invisível a que Alex deu o nome de «chino».

O modelo é simples, mas politicamente inconcebível na óptica empresarial do século passado.

Findo o projecto, a empresa dissolve-se rapidamente numa Câmara de Dissolução Legal que funciona para o que o Decreto Lei 444/02 veio a legitimar como «sociedade descartável» (dc, no diminutivo para 'disposable co.' no linguajar legal universal), ao abrigo da transposição de uma norma pan-europeia arrancada a ferros pela Associação Latina de Jovens Empreendedores, depois da enorme pressão concorrencial feita por este tipo de firmas sedeadas em Bangalore (nos Estados Federados do Malabar, a sul do que outrora se chamou de Índia), Singapura, São José (República da Califórnia), Nova Iorque e São Petersburgo, duas cidades-Estado actuais.

Num rápido inquérito ao «just-find-it», o número das registadas em «.dc» é hoje o equivalente a 1/3 das «.com», que perderam o brilho da moda.

Entretanto, ultimamente, as «descartáveis» tornaram-se muito populares na nossa Península depois de findos os regimes de «offshore» nacionais.

Para o tal Projecto Pelicano Azul, o «chino» fez um cruzamento de competências e construiu a «equipa de sonho» para Alex dar o OK. Com Paulo, Ernesto, Jorge, Adelaide, Michael F. e uma multinacional detentora do logotipo do referido bicho, a Pelican.dc (cujo domínio terráqueo é www4.pelican.dc) terá Alex como o líder de projecto com 30% do capital.

Alex não hesitou no «sim» aos cinco parceiros de carne e osso. Eram todos repetentes em projectos com ele. «Cinco estrelas!», comentou. Apenas a multinacional lhe mereceu um «Chino! Dá-me o 'report' da D&B sobre estes marmelos», o que, acto contínuo, pôde visualizar no micro-web-écran dos seus óculos azulões - uma síntese de letras gordas terminava a vermelho com um «pagamento de 'tranches' sem atrasos reportados».

Ficou satisfeito.

Chegava, entretanto, a casa. Atirou os óculos para a mesinha de entrada e despiu o blusão. Ouviu, quase sussurrado, «uf!» (desde a invenção da computação afectiva que o cabedal se dava ao luxo de transparecer o seu alívio ao ser colocado no descanso).

«Dá-me a lista de empresas e logotipos com participação de Alex Inc.», gritou Alex para o seu «servidor» (agora as paredes têm decididamente ouvidos), que, acto contínuo, lhe projectou num écran plano da parede uma lista de 20 empresas descartáveis (com um número de código e um domínio «morto» cada uma) em que a «holding» Alex Inc esteve envolvida. «Mete-me isso em 'anexo' à proposta de sociedade para o Notário». E ouviu-se um «yes».

«Pop». A rolha soltou.

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