A viragem que falta na política

Uma Agenda para o Século XXI

O primeiro Manifesto norte-americano para a Governação da Economia Digital «visitado» por Jorge Nascimento Rodrigues com Randolph Court
do outro lado da linha. Uma iniciativa do Progressive Policy Institute
lançada em Setembro de 1999

Rules for the Road | The State New Economy Index
 Os 10 Princípios | Os 5 Mitos pessimistas | Os 5 Mitos optimistas 
«Site» do Progressive Policy Institute
 O que dizem os especialistas da Reinvenção da Governação 

Toda a gente concorda que a economia americana sofreu profundas transformações desde a massificação do computador pessoal e, mais recentemente, desde a criação da World Wide Web há dez anos atrás.

Alguns articulistas mais vanguardistas baptizaram essa nova realidade de 'economia digital' e de 'nova economia' e, paulatinamente, a linguagem dos «media» e de alguns empresários acertou o passo pelo novo discurso. Entretanto, uma vaga de novos empreendedores aproveitou a janela de oportunidade e criou novos sectores e nova riqueza sem par.

 Veja o que dizem os gurus da Nova Economia e da Economia Digital 
no Livro de Gurus On Line

O problema parecem ser os políticos e os governantes. «O debate direita-esquerda actual está obsoleto quando se centra nestes novos problemas. Ou há um desconhecimento confrangedor de quem nem se quer sabe o que é um 'site' ou jamais usou o correio electrónico, ou, então, propagam-se mitos de todas as cores que só lançam a confusão na discussão. Há manifestamente um fosso entre a realidade económica e as políticas públicas que não é mais sustentável», refere-nos Randolph Court, um especialista do Silicon Valley que desde o ano passado participa numa «Task Force» sobre a Nova Economia que acaba de lançar a público em Washington um Manifesto sobre Políticas para a Nova Economia.

A pensar na forma de colmatar esse 'fosso' entre a política e a economia, o Progressive Policy Institute, de Washington, realizou um segundo forum da referida «Task Force» no mês passado onde deu a público uma proposta de 10 políticas para a Nova Economia, num documento intitulado «Rules for the Road: Governing Principles for the New Economy», a que tivemos acesso.

Palavras-chave do novo «dicionário» da economia vêm logo à cabeça: inovação, conhecimento, digitalização, livre concorrência, redes. Inimigos públicos como o monopolismo e o oligopolismo, a regulação e a burocracia são chamados a ser contidos dentro de certos limites. Aos Governos é exigido profissionalismo e competência e que se concentrem na sua missão de «dirigir o leme mais do que remar».

O trabalho vem na sequência de um extenso documento produzido no ano passado a que deram o nome de «Index da Nova Economia» (ver em www.neweconomyindex.org) americana e que é provavelmente o mais completo estudo sobre a nova realidade. Completaram-no já, este ano, com a análise estado a estado da federação sobre a situação do crescimento deste novo tecido económico.

O diálogo entre duas margens

Esta investigação não foi feita por académicos e consultores de estatísticas numa redoma. Tem na sua liderança um académico de nomeada, Robert Atkinson, um especialista em planeamento regional que esteve à frente do Rhode Island Economic Policy Council e que no Office of Technology Assessment do Congresso norte-americano dirigiu o projecto de remodelação tecnológica das áreas metropolitanas dos Estados Unidos.

A «Task Force» envolveu, desde o início, líderes políticos e empresários da nova economia, sendo presidida por Ted Waitt, CEO da Gateway, e Tom Daschle, senador. Participam um governador (Gary Locke do Estado de Washington, onde está sedeada a Microsoft) e 13 senadores (entre eles Edward Kennedy) a par de nomes de empreendedores e tecnologos da última vaga mais conhecidos na Europa, como Marc Andreessen (o criador do primeiro «browser»), Scott Cook (da Intuit), John Gage, um dos cientistas da Sun, Nathan Myhrvold, o crâneo da Microsoft, Steve Perlman, o idealizador da WebTV, e Meg Witman da e.Bay.

«A ideia foi, desde o início, estabelecer uma ponte entre os empreendedores da nova economia e os políticos eleitos. Não ficámos nunca entre quatro paredes, percorremos o país de Nova Iorque a Boston, de Seattle ao Silicon Valley e a Los Angeles e aos outros pontos onde está em efervescência, estando com empreendedores e líderes das comunidades. Estivemos com gente da nata do 'hi-tech', mas também com empresários de outros sectores muito diversos. Que fique claro - a nova economia não é só o Silicon Valley ou a alta tecnologia, é uma transformação global de todo o tecido económico e de todas as regiões», sublinha-nos Court, que, em tempos, relatou a emergência desta nova realidade para revistas de culto como a radical Red Herring e a mais conhecida Wired.

Os arautos desta nova política afirmam que é preciso «um novo consenso», depois da rotura do quadro keynesiano que serviu de base à política económica desde os anos 40 e que acompanhou a consolidação do capitalismo industrial. Mesmo nos momentos áureos do liberalismo recente, o velho Keynes nunca deixou de estar por detrás de cena, pagando a factura e fazendo as despesas do eleitoralismo político de liberais à esquerda e à direita.

A partir dos anos 70 e da «fractura histórica» das crises que os marcaram, um período de transição foi-se arrastando em que «a velha economia calapsou e a nova ainda não emergira, até que, em meados dos anos 90, uma nova lógica começou a ganhar força», refere o estudo. Novos princípios passam a estar na dianteira desde então: as empresas estão cada vez mais baseadas no conhecimento; há, de novo, um papel de maior protagonismo dos empreendedores; requer-se maior concorrência para que o que emerge possa ser testado no mercado; desenvolve-se uma maior diversidade de produtos e serviços e nasce um cliente mais exigente; as fusões e aquisições acantonam-se nos velhos grupos enquanto os novos se baseiam na lógica das redes e das alianças e parcerias; a inovação constante impõe-se; a globalização encontra um novo canal jamais imaginado - a Web.

10 POLÍTICAS PARA O SÉC. XXI
  • Incentivar a Inovação para fazer crescer a produtividade
  • Expandir os benefícios e renovar a coesão social
  • Investir na infraestrutura do conhecimento, na formação das competências e nos competentes
  • Desenvolver a Internet, a Web e a digitalização em toda a economia
  • Deixar os mercados fixar os preços
  • Abrir os mercados regulados à concorrência
  • Permitir a livre concorrência entre tecnologias emergentes
  • Criar transparência e acesso à Informação
  • Exigir uma governação altamente profissional e competente
  • Substituir as burocracias pelas redes e parcerias
  • OS MITOS DA NOVA ECONOMIA
    Os Pessimistas
    (fabricados pelos conservadores info-fóbicos)
  • Cavou a desindustrialização
  • Provocou a estagnação dos salários reais da maioria
  • Criou novos empregos muito mal pagos e sem estatuto social
  • As Novas Tecnologias geram mais desemprego do que novos postos de trabalho
  • A reengenharia das empresas provocou a liquidação de um parte da classe média ligada à gestão e às chefias
  • Os Optimistas
    (propagandeados pelos liberais puros e duros)

  • O maior «boom» da história pôs de lado as crises cíclicas
  • As desigualdades entre info-pobres e info-ricos são ficção
  • Assiste-se ao crepúsculo da grande empresa e da grande organização
  • O Estado está em declínio mortal
  • Vive-se num paraíso de empreendedores
  • Os dois problemas centrais

    «Se só pudessemos pôr uma ou duas políticas em marcha, as eleitas seriam as duas primeiras: a inovação e a coesão social», refere Court.

    A inovação desempenha hoje um papel central na economia, só a partir dela se poderá resolver o problema trazido pelo chamado paradoxo da produtividade. Entre 1985 e 1995, a produtividade nos EUA só cresceu em 9%, menos de 1% ao ano em média, estando muito abaixo da dos anos 60 e 70.

    Foi o Nobel Robert Solow que primeiro chamou a atenção para este estranho fenómeno: apesar da informatização e da automatização desde os anos 80, a produtividade não levantou a cabeça no conjunto da economia. Os estudos mostraram que ela só cresceu significativamente de um modo cirúrgico - nalgumas empresas e nalguns nichos, o que significa que as novas formas de trabalhar, os novos processos altamente eficazes, as pessoas com competências novas não estão generalizadas ao tecido económico, e em particular ao esmagador sector de serviços que hoje domina a economia americana.

    A coesão social, por seu lado, é essêncial para que os benefícios e vantagens da nova economia não agravem ainda mais o fosso entre ricos e pobres. Entre 1980 e 1996, os rendimentos reais dos 5% do topo da população activa norte-americana aumentaram de mais de 50%, enquanto que os rendimentos dos 60% de baixo apenas tiveram um crescimento de 4%!

    «Não é verdade a ladainha pessimista de que a nova economia só gera mal pagos e cria desempregados. Entre 1989 e 1998, os empregos mais bem pagos aumentaram de 20% na estrutura de emprego, enquanto que os mal pagos só aumentaram de 10%. As chefias e os quadros médios de gestão também não foram dizimados; pelo contrário houve um aumento liquido de três milhões. O desemprego está no seu nível mais baixo em 30 anos. Mas há um problema de uma tesoura entre a riqueza e a pobreza que tem de ser seguido com atenção e contra-atacado», refere o estudo.

    Randolph Court crê que nomeadamente estes dois pontos vão ter de estar no coração da agenda da próxima Administração americana. Entretanto, a «Task Force» prepara para o começo do próximo ano a preparação de um debate e de um pacote legislativo na área da nova economia.

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