Os Portugueses do Silicon Valley

Com Jorge Nascimento Rodrigues em San Jose

Um Jantar com os Portugueses de San JoeHá duas gerações lusas que levaram a nossa "vocação atlântica" à costa americana do Pacífico. Uma com raízes centenares, oriunda das ilhas açoreanas, que triunfou nas agro-indústrias e nas pescas. Outra, mais recente, é composta por quadros atraídos, desde meados dos anos 70, por este epicentro da alta tecnologia

Os números variam entre os 100 mil descendentes portugueses até à segunda geração e uns 500 mil que podem reclamar as suas raízes mais remotas nos açoreanos que no final do século XIX sairam das suas pequenas ilhas no meio do Atlântico para vir transformar os vales agrícolas e as pescas desta costa da Califórnia, no outro extremo do mundo.

«Numa população de um milhão e seiscentas mil pessoas que habita este "condado" de Santa Clara, onde fica hoje o Silicon Valley, é uma comunidade com expressão que tem sabido afirmar a sua presença nos últimos anos», refere-nos Tony Goulart, o director executivo da Portuguese Chamber of Commerce of Santa Clara Valley (portchmbr@aol.com), sediada em San Jose e com morada virtual em www.portugal.org/pccsj.

Uma das mais antigas comunidades portuguesas remonta a 1880 e a um grupo de açoreanos que criou a União Portuguesa do Estado da Califórnia (upec@worldnet.att.net), uma das primeiras fraternidades surgidas (hoje mantém o seu website em www.lusaweb.com/upec.htm).

Desde 1964 que se ergueu em memória destes imigrantes um monumento em San Leandro, na chamada Contra Costa da Baía de San Francisco. San Leandro foi precisamente um dos pontos de concentração desta vaga pioneira de imigração.

A força dos números

Os herdeiros destes homens vieram a triunfar nas agro-indústrias e nas pescas. «É conhecido o peso dos portugueses na indústria dos lactícinios. Mais de 50 por cento dos 10 biliões de dólares por ano que esta indústria da Califórnia movimenta estão em mãos de gente nossa», sublinha com ênfase John Silveira, um dos expoentes mais antigos da Câmara de Comércio, responsável pelo Comité Internacional.

O "tecido" português tem a par de grandes negócios, muita pequena empresa nos mais diversos ramos (basta consultar o directório de negócios na «home page» da Câmara em www.portugal.org/pccsj), e projectou figuras de relevo na comunidade da região.

John VasconcellosJohn Vasconcellos (Senator.Vasconcellos@sen.ca.gov) é descendente de madeirenses e é hoje senador no Senado da Califórnia em Sacramento. É uma das personagens mais vanguardistas. Ainda recentemente lançou publicamente «uma iniciativa para manter a Califórnia à cabeça da Internet», o California Legislature Internet Caucus, que pode ser acedido na Web (em www.sen.ca.gov/ftp/sen/clic/clic.htm).

Richard Machado, nascido nos Açores, mas crescido aqui, é director do «Office» Regional da Agência para o Comércio Californiano. Margie Fernandes é hoje membro do Conselho da Câmara de San Jose e foi vice-mayor.

Dois grupos detêm várias rádios em português, como a KSQQ em 96.1 FM (com «site» na Web em www.ksqq.com) e a KLBS em 1330 AM (na Web em www.klbs.com), de Baptista Vieira, ou a KATD em 990 AM, de Joe Rosa, que nos põem a ouvir as notícias do dia em Portugal ao volante na «one-o-one» (a via rápida, 101) que liga San Francisco a San Jose.

Contudo, esta força dos números corre o risco de se apagar nas gerações mais novas, adverte Tony Goulart: «Muitos factores jogam para esta perca de raízes. A mentalidade de muito descendente português mais antigo por aqui é ainda a conta bancária e um cantinho no céu. O que já não é referência para as novas gerações, que se americanizam. Por outro lado, Portugal olha pouco para esta costa americana».

Uma lufada de ar fresco

Os sinais de mudança estão, contudo, em movimento desde os anos 70. Uma nova vaga de imigrantes começou a vir de Portugal com ambições diferentes dos pioneiros, ou para estudar nas escolas de prestígio, como as Universidades de Stanford e de Berkeley, que deverão já ter dado abrido a uma meia centena de portugueses, ou directamente em busca de oportunidades de emprego na emergente indústria electrónica.

Eles têm hoje entre os 40 e os 50 anos e acabaram todos ligados à indústria da rede, o sector emergente da economia digital californiana. Representam um lento «brain drain» de quadros e talentos portugueses, que, chegados aqui, «viciaram-se» no ambiente e criaram raízes.

Por regra, o comentário final de todos parece tirado a papel químico - «regressar a Portugal não está nos planos».

Os casos em directo

Uns vieram ainda adolescentes, como Ângelo Garcia, nascido nos Açores e chegado em 1971 com 16 anos que «emigrou na esperança de entrar para uma Universidade americana». Viria a cursar engenharia civil e a começar uma carreira profissional em firmas europeias radicadas na Califórnia. O seu encontro com o «high-tech» dar-se-ia na Oracle e mais recentemente chegou a vice-presidente da Adobe, onde tem os pelouros das Compras, do Imobiliário e da Segurança.

Outro caso é o de Les Lorenzo. Ele saíu de Lisboa com os pais em 1975, em plena revolução. Tinha 17 anos, uma mãe americana e os avós maternos em Fresno, no centro da Califórnia. «Tinha o sétimo ano e entrei para a Universidade da Califórnia, depois trabalhei em empresas de alta tecnologia, como a Zilog, a Pyramid e a Amdahl, até que, em 1984, vim para o Silicon Valley, onde tudo acontece», conta-nos, até chegar à Sun Microsystems, onde hoje é gestor de produto.

Luis Valente tem um percurso mais comprido e «transnacional» do que os nossos casos anteriores. Nasceu no ex-Congo Belga em 1958 e viveu em Angola, tendo acabado o liceu em Portimão, no Algarve, em 1976. A história é contada na primeira pessoa: «Em vez de ficar a marcar passo à espera de poder entrar para a Universidade, no célebre serviço cívico, emigrei para o Canadá onde tirei um bacharelato em ciências da computação. Mais tarde, a falta de oportunidades profissionais, na área, em Portugal trouxe-me de volta a Montreal».

As suas competências em comunicações fá-lo-iam passar pela Micom e depois pela Retix, tendo vindo para Los Angeles. «Mas como fiquei farto da vida de LA, vim para o Silicon Valley, onde havia muito mais oportunidades», frisa o nosso interlocutor, que tem já um curriculo de passagem por várias «start ups» do Vale. Hoje está na Veriguard (sistemas de segurança na Net), onde é o primeiro empregado, para além dos três fundadores, um deles saído da Netscape, onde era o perito da área de segurança.

Noutro registo, Tony Coelho é um dos expoentes do mundo dos cibernegócios. Veio em 1979, formou-se na Universidade de Santa Clara e passou por algumas das estrelas do Vale, como a Xerox, a Sun e a Applied Materials. Depois dedicou-se à criação de várias «start up» ligadas à Net e lançou mais recentemente Portugal On Line (em www.portugal.com), um «site» que se tem afirmado, com mais de 10 mil «hits» por semana e que vai abrir em breve uma ligação em Lisboa. Se for ao «site», não se esqueça de ir ao "Café da Comunidade".

Numa faixa etária uns pontos acima estão António Dias e Nuno Rebelo, dois portuenses, que vieram prosseguir estudos, o primeiro em Stanford em 1975 e o segundo em Berkeley em 1980. António Dias é o mais velho do grupo de quadros com que falámos. Doutorado em Stanford, trabalhou aí como investigador assistente, e em várias «start up» da área da optoelectrónica.

Em 1992 co-fundaria a LusEuropa que procurou criar pontes entre empresas de alta tecnologia do Silicon Valley com a Europa, incluindo Portugal. Mais recentemente meteu-se de alma e coração nos negócios da Web, tendo criado a Tympani, provavelmente a única empresa «high tech» do Vale genuinamente lusa.

Nuno Rebelo faria outro percurso depois do doutoramento em Berkeley. Ainda esteve na Suíça e no Porto, «mas a minha mulher que é americana fartou-se do nosso país e um emprego interessante atraíu-me de novo a esta região», comenta.

Há quase dez anos começou «na sala de visitas de casa» uma filial da HKS, uma empresa de engenharia assistida por computador de Rhode Island, na outra costa americana.

A vaga mais recente

Mas o último sopro do «brain drain» de quadros é ainda mais recente. São jovens portugueses na casa dos 30 anos que chegaram ao Silicon Valley já nos anos 90. Estivemos com dois casos típicos.

Cristina Lopes veio do INESC, em Lisboa em 1992, apoiada pela JNICT e pelo programa Fulbright, para fazer um doutoramento em Ciências da Computação na Northeastern University, em Boston, mas fruto da sua colaboração na criação de uma nova linguagem (a AOP) por parte de investigadores do célebre Xerox PARC, acabaria por entrar, já este ano, para este centro sedeado em Palo Alto.

«O motor da mudança está aqui, no Silicon Valley. É um local fascinante, onde se pode criar uma data de coisas novas num centro histórico que está em reinvenção perpétua», justifica-se para salientar o seu entusiasmo. Ela admite regressar, pois «há alguma saída profissional em Portugal na especialidade dela, mas não está ainda nas minhas prioridades».

Um caso ainda mais original, e sintomático de um novo tipo de oportunidade que se pode agarrar, é o de Júlio Santos. Ele tirou informática na Bélgica e foi dos primeiros a perceber em Portugal «o impacto da linguagem Java». «Em 1996 não havia muita gente em Java, e essa foi a minha vantagem», começa por referir.

Uma empresa nova do Silicon Valley fez, então, uma consulta por correio electrónico à procura de especialistas em Java. Chamava-se Novita e veio pescar o Júlio a Portugal, que ficou pelo beiço em relação ao Vale. «Por enquanto, não apostaria um único dólar no meu regresso ao nosso país ou a outro país europeu», conclui.


A LER AINDA:

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal