A Invasão dos «Portais» em Português

Chegou a primeira grande montra na Web da economia digital em Portugal. Três primeiros projectos na rampa de lançamento apresentam-se publicamente - SAPO, IUPI e VIVA. Finalmente, o país alinha pela tendência internacional para a agregação de conteúdos e audiências na Internet. Veja as histórias em primeira mão por Jorge Nascimento Rodrigues.

      

 As tendências internacionais - a convergência nos seis «c» e a próxima moda 

A grande mexida na Web portuguesa pode estar à beira de se concretizar. Até final deste mês, os três primeiros «portais» (nome criado nos Estados Unidos para simbolizar portas de entrada para o cibermundo onde você pode encontrar a maioria dos assuntos e serviços da sua preferência) nacionais vão fazer a sua aparição pública, depois de meses de trabalho esforçado e muitos testes e de um investimento global que deverá rondar os 550 mil contos (mais de 2,5 milhões de euro) até final do ano. O primeiro a revelar-se publicamente é uma metamorfose da marca portuguesa mais conhecida nascida na Web, o SAPO, o serviço de apontadores criado por um grupo de jovens na Universidade de Aveiro (cuja história pode reler). Os outros dois são criação de uma nova geração de profissionais da Net que ronda uma média de idades inferior a 30 anos e que com muito militantismo e esforço de mobilização financeira avançam com projectos independentes, que baptizaram com nomes curiosos - IUPI e VIVA.

Em virtude da sua capacidade de agregação organizada e profissional de conteúdos em língua portuguesa e de funcionalidades e serviços, em que se incluem os «centros comerciais» (de lojas na Web) promotores de comércio electrónico dirigido ao consumidor, vão, certamente, originar a primeira grande montra da economia digital lusa e podem ser, no ano de 1999, no nosso emergente cibermercado o que os californianos chamam de «killer application».

O ano da viragem?

Vários sintomas se juntam para poder considerar, finalmente, este ano o momento da viragem. Dos «outdoors» com publicidade Web, ao «boom» dos utilizadores regulares da Internet (o mágico número de um milhão já foi referido), a anunciantes que optaram por fazer as suas campanhas integralmente neste novo media, ao súbito «acordar» dos grandes grupos de media nascidos na era pré-digital para os portais e o comércio electrónico, às jogadas, negociações e alianças em curso entre os «tubarões», e ao frenesim de muitos «pequenos» peixes que querem nadar neste mar, está a resultar o clima psicológico favorável ao disparo desta nova economia.

Apesar da «insensibilidade» ainda dominante nos poderes económico e político, como acusam Raul Junqueiro e os promotores do 'Manifesto' a favor da economia digital que vai ser divulgado no próximo dia 4 de Maio, «este ano pode ser excelente para a indústria nacional de conteúdos multimedia», refere-nos Rui Marques, presidente da Associação para a Promoção do Multimedia em Portugal, que também subscreve o referido documento de agitação. «A explosão, agora anunciada, dos portais na Internet, com a consequente valorização acentuada da componente dos conteúdos em língua portuguesa, é um sinal da maior importância estratégica», acentua este responsável do grupo Forum. Opinião que é corroborada por uma das faces mais visíveis deste novo movimento de portais, o administrador da Saber & Lazer, a empresa detentora do SAPO. «Vamos viver, sem dúvida, um período de excesso de marketing em torno dos portais. Com a inevitável poluição do tema, mas estou certo que isso vai criar a massa crítica de que precisamos e vai estimular a concorrência, o que só pode beneficiar o utilizador da Net», diz-nos José Carlos Baldino, que nos recebeu nas novas instalações em Lisboa, pejadas de pequenas e grandes mascotes com o simpático sapo.

Da metamorfose do Sapo...

O SAPO foi um dos promotores de portais na Web portuguesa que cedo abriu o jogo. A ideia estratégica é alavancar a notoriedade no mundo lusófono desta marca nascida na Web e proceder à sua migração dos directórios - o seu ponto forte histórico - para o da agregação de conteúdos e dinamização de comunidades «online». «A estratégia não é engordar o SAPO para vender, mas corresponde a um posicionamento do grupo editorial que detém maioritariamente a Saber & Lazer, a Texto Editora», sublinha o nosso interlocutor que esteve durante dez anos naquela editora até ser desafiado para esta aventura. A ideia subjacente é consolidar uma marca típica da Web portuguesa e «jogar tudo por tudo nela», crendo que se afirmará autonómamente no futuro.

O «portal» do SAPO (que surgirá, até final do mês, em www.sapo.pt) aposta na estruturação em «canais», típica da maioria dos seus congéneres estrangeiros, com os ingredientes que encontramos em todos eles, e que derivam do que na gíria se chama os seis «cês» (linkar para a convergência). Em termos nacionais, procurará diferenciar-se com uma aposta forte na actualização ao longo do dia de noticias gerais e da área financeira, e na geração de comunidades «online», por exemplo, em áreas como a gestão, o entretenimento e a família. Um dos pontos de atracção é a criação de um 'Café Sapo' com foruns e canais de debate em tempo real, com o envolvimento de personalidades convidadas em determinados dias do mês.

Um dos centros de negócio será o canal de «shopping» que arrancará com 46 contratos, incluindo, entre eles, o novo «site» da Grula com tecnologia da Neosis. Também um canal de oferta de cupões para promoção de produtos e serviços pela Internet irá estar disponível. «O utilizador só tem que imprimir o cupão de desconto ou a oferta da empresa, loja ou marca e dirigir-se ao estabelecimento mais perto», comenta Tiago de Sena, responsável editorial pelos canais.

...Ao militantismo da geração Net

Os outros dois «portais» em curso de preparação são obra de uma geração de jovens profissionais da Net que acreditam na viablidade de afirmar projectos independentes criados de raíz agora na Web. O IUPI (que aparecerá na Web em www.iupi.com) nasceu da cabeça de António Durão e João Leitão, que depois agregaram um sócio capitalista da área das tecnologias da informação, Paul Gaily, da Go-Gestão e Organização de Informática.

O nome surgiu num repente e quer exprimir contentamento do cibernauta. A mascote concebida por Leitão para o logotipo está a mobilizar umas dezenas de colaboradores em todo o país, cuja ferramenta principal é o tele-trabalho, estando o centro de coordenação das operações na Figueira da Foz, onde António Durão nos recebeu. O que os anima é a ideia de que «os 'pequenos' podem vencer neste novo media», diz-nos Durão, às voltas com uma apetitosa feijoada de búzios em Buarcos. Acentua que um dos pontos de diferenciação será a aposta na criação de «um portal de portais especializados», que vão muito além de meros canais temáticos.

Áreas como os desportos motorizados, os jogos e o turismo estão a ser edificadas como verdadeiros portais deste tipo e prometem ser uma revelação. Também os Açores vão ter uma presença de grande impacto com um verdadeiro «portal» para esta região autónoma. Um canal de Emprego foi criado de raíz para o projecto e os promotores acreditam no furor que vão fazer as transmissões ao vivo de TV na Web, inaugurando-as no IUPI com o próximo Mundialito de Praia.

Outra das diferenciações em que aposta é num baixo custo de entrada para o «centro comercial» que vai promover. «A loja pode ter de 100 a 1000 produtos que o custo é o mesmo. O nosso objectivo é o de impulsionar o comércio electrónico e sermos um verdadeiro 'hub' do mais diversificado comércio», conclui António Durão.

O VIVA, por seu lado, foi parco de palavras, apesar de viver do mesmo ambiente jovem e dinâmico. O seu representante adiantou que a versão «beta» do portal irá para o ar até final do mês e que a empresa em fase de criação arrancará com um capital social de 200 mil contos. Um dos pontos de diferenciação será um novo motor de busca em português que está a ser preparado por investigadores do IST e que pretende «desalojar» da liderança os existentes. «Está previsto o projecto vir a ser ancorado num fornecedor de serviços à Internet, aproveitando não só a sua infra-estrutura como a sua base de clientes e utilizadores disponível», adiantou aquele responsável, mas as negociações não permitem ainda revelar o nome.

O restante panorama é ainda de espera ou de total segredo (ver edição da Revista do EXPRESSO de 17.04.99). Edson Athayde, o conhecido criativo radicado em Portugal, mantém o «suspense» sobre o seu www.portal.pt. Só vai falar quando o projecto estiver a 100% e garante que é «um produto muito competitivo». Mas não levanta o véu, nem quanto à data de lançamento. Entre os grandes da convergência, a Telecel confirma que antes do Verão lançará o seu «portal». O seu interesse por agregar o Terràvista (a maior comunidade lusófona com mais de 50 mil «sites» alojados) não é desmentido.

Por seu lado, o grupo Balsemão mantém em aberto vários cenários, desde o desenvolvimento autónomo dos sites das suas principais marcas, como o Expresso (cujo «site» em www.expresso.pt, acabou de sofrer uma primeira remodelação com actualizações diárias), até à criação de um grande portal nacional com alianças estratégicas (como a tão falada com a Portugal Telecom), ou à aposta de localização portuguesa de um portal global (como o MSN, da Microsoft), até uma rede de portais do grupo. «O nosso capital são marcas nacionais bem posicionadas, como é o caso do jornal Expresso e da SIC, e um potencial enorme no mundo de língua portuguesa, com as relações nomeadamente com grupos de media brasileiros», comenta António Torres Pereira, responsável pelo projecto no grupo.

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