Crude continua teimosamente em alta

Em vésperas da reunião da OPEP da próxima quarta-feira (dia 21 de Junho 2000), os futuros do crude continuam acima dos 30 dólares e as cotações
do barril em Junho voltaram a subir muito acima dos 25 dólares nos principais mercados de transação do ouro negro. Os analistas considerados «realistas» não esperam que a organização ceda às pressões geo-estratégicas actuais. Para alguns, só, no final do ano, poderá haver uma «prenda», com uma maior abertura da torneira por parte deste grupo de produtores. Mas, para além dos zigue-zagues políticos, o petróleo está entre a espada e a parede e a margem de manobra não é muito grande para quem espera viver mais umas décadas à conta dele

Jorge Nascimento Rodrigues

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 Relatório de Abril 2000 de Brian Fleay («Cheap Oil: The Crunch Has Arrived») 

Os «futuros» do crude para Julho atingem valores acima dos 30 dólares, nas vésperas da nova cimeira da OPEP, que se realizará quarta-feira da próxima semana. Nos mercados americanos, segundo a Bloomberg, os futuros do ouro negro estão acima dos 32 dólares, e o petróleo de Brent viu os futuros para Julho em Londres subirem acima dos 31 dólares. É certo que os futuros são puro papel e não corresponderão ao mercado real de barris do ouro negro. Mas servem de indicação do «clima».

A alta temperatura do ouro negro segue a convicção de muitos analistas, apelidados de «realistas», que consideram que não se vislumbra vontade política por parte dos países produtores da OPEP em abrirem mais a torneira e deixarem cair o preço do crude, antes do final do ano, depois de se vislumbrar uma «média» mensal ao longo de 2000 que os deixe tranquilos.

Depois de uma inversão da subida do preço do barril em Abril, quando começou a comportar-se na faixa dos 22 a 24 dólares, o mês de Maio voltou a assistir ao disparo para valores claramente acima dos 25 dólares, dependendo do mercado de transação. A título de exemplo, o preço do barril no mercado da West Coast já chegou, de novo, perto dos 30 dólares, e no West Texas já ultrapassou os 31 dólares, no início desta segunda semana de Junho.

Esta teimosia do barril em não «arrefecer» o preço para uma faixa «aceitável» pelos países mais ricos, tem deixado os políticos e os economistas da «velha» economia perplexos. «Nós já entrámos, há alguns meses, num novo período de choque petrolífero, mas as pessoas ainda não se deram conta disso ou não o querem reconhecer publicamente», refere-nos Jean Laherrère, um geólogo reformado com muitos anos na indústria petrolífera francesa, e que encabeça um dos grupos de analistas internacionais mais críticos da miopia dos políticos e dos economistas (o The Global Oil Crisis que se agrupa na Web em www.oilcrisis.com).

Entre a espada e a parede

O «choque» petrolífero é sustentado por uma situação nova, que não existia nos anos 70, altura dos primeiros «choques» - o petróleo estará entre a espada e a parede no século XXI. Os países produtores estão «ensadwichados» entre o problema geo-político, com as consequentes pressões dos países mais ricos, e a questão estrutural - a prazo de 5 a 10 anos, todo o mundo da produção petrolífera entrará numa curva histórica descendente, o que leva os produtores a fazer contas à vida.

Os estudos elaborados por Colin Campbell, Jean Laherrère, Brian Fleay e Roger Blanchard falam de um cenário em que o petróleo convencional atingirá o seu pico de produção em meados desta década e em que os líquidos chegarão ao cume em 2010. Esse facto da vida - inelutável - trará consequências psicológicas profundas nos países que dependem vitalmente do ouro negro. Estudos recentes da Agip (italiana) e da Arco vão no mesmo sentido. «A geologia e a física são mais importantes do que as conjecturas políticas», sublinha Jean Laherrère, que acrescenta: «O fim do petróleo barato veio para ficar».

Algumas situações mais críticas na Europa e América Latina merecem já atenção. No campo do petróleo convencional, a produção norueguesa (o segundo maior exportador do mundo) terá atingido o pico este ano e o mesmo sucederá provavelmente com o México. A Colômbia e a Venezuela já o terão atingido anteriormente. Estes países não têm, por isso, grande margem de manobra para fazer um «favorzinho» aos países mais ricos, a não ser que escolham abertamente auto-flagelar-se.

Resta, o Médio Oriente que, ainda, dispõe de alguma margem de manobra temporal, mas como voltará a deter a parte de leão no fornecimento mundial não vai querer malbaratar o seu renovado peso geo-estratégico, enquanto o petróleo for o pilar energético do capitalismo.

O nosso interlocutor é de opinião que os países da OPEP pretenderão ter «médias» mensais numa faixa entre os 22 e os 28 dólares, que lhes permita estar acima da tona da água - ou seja, «o preço 'certo' actual ronda os 25 dólares por barril, valor que permite continuar a explorar e produzir, prevenindo o colapso destas economias e sociedades» cuja quase exclusiva riqueza é o ouro negro.

O preço do petróleo só virá abaixo destes níveis de sustentabilidade do negócio, se nomeadamente os países produtores da OPEP se envolverem - ou forem levados a envolver-se - em lutas fratricidas ou em manobras táticas que impliquem «furar» as decisões sobre as quotas. Os cenários menos simpáticos apontam, por isso, para a probabilidade de grande perturbação político-militar naquela zona nas próximas décadas.

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