Barril de crude não voltará ao preço da chuva

Erupções periódicas poderão ser a norma nos próximos tempos e a médio prazo ninguém vai fugir a um «choque» petrolífero profundo

Jorge Nascimento Rodrigues de novo no forum do The Global Oil Crisis

Aventuras do Ardina numa nova crise
 Artigo anterior: O Petróleo ao rubro com cotações do barril 
O debate em www.oilcrisis.com/discuss/folder.asp

«Nós lidamos com factos, não comentamos prognósticos ou decisões políticas», afirma-nos Jean Laherrère, um geólogo francês reformado, considerada uma das vozes mais influentes sobre a problemática do crude, que, em vésperas da cimeira da OPEP, é de opinião que os países produtores filiados nessa organização poderão delinear uma estratégia de manter o preço do barril do petróleo (convencional) num valor médio próximo dos 25 dólares no curto prazo.

A opinião é corroborada por Michael Ruark, que trabalhou na indústria petrolífera norte-americana durante mais de uma década. Para Tony DeAngelo, outro especialista, a média poderá ser mais «suave» e rondar os 20 dólares por barril, mas todos os observadores deverão estar avisados de uma nova realidade: «Erupções periódicas poderão ser a norma. O preço do barril até pode disparar para valores na faixa dos 40 a 50 dólares, em virtude de problemas de distribuição, guerras e manobras políticas».

Recorde-se que o preço do barril, depois de ter estado num dos seus pontos históricos mais baixos entre finais de 1998 e princípios de 1999 - com valores entre os 9 e os 12 dólares -, voltou a aproximar-se dos valores médios superiores a 20 dólares de 1996 e 1997 e ultrapassou-os, estando o preço médio actual entre 26 e 31 dólares (vide cotações no artigo «O Petróleo ao rubro»).

O problema estrutural

O debate sobre se esta curva, de novo claramente ascendente, significa a iminência ou não de um «choque» petrolífero tem aquecido nos foruns «on-line» em que intervém especialistas da área e pudemos recolher, esta semana, o «estado de espírito» da maioria.

«O preço poderá subir ou não no curto prazo dependendo do comportamento de alguns países. Se alguns voltarem a torpedear as quotas, colocando no mercado, à socapa, mais do que o que acordaram, o preço médio poderá descer. No entanto, a questão é a tendência de fundo», prossegue Laherrère.

Há uma diferença fundamental entre a situação actual e os anos 70. «Os choques petrolíferos daquela época foram inspirados directamente por acontecimentos políticos no Médio Oriente. Hoje a questão coloca-se a um nível estrutural. Estamos a lidar com o problema de um horizonte de pico da produção mundial daqui a uns anos, a que se seguirá uma desaceleração com um cenário de futura escassez e esgotamento dos recursos ao longo do novo século», refere-nos o irlandês Colin Campbell, outra das referências no mundo do petróleo.

 Ver os estudos de Colin Campbell e Jean Laherrère em www.oilcrisis.com 

As empresas petrolíferas e os governos produtores e importadores podem não gostar de falar do assunto, mas os estudos não deixam margens para dúvidas.

A última projecção de Richard Duncan, do Institute on Energy and Man, de Seattle, a que tivemos acesso, aponta para um pico de produção mundial entre 2005 e 2007 a que se seguirá um «planalto» durante alguns anos que desembocará numa curva descendente no final desta década e no princípio da próxima. Esta desaceleração afectará mais cedo regiões como a do Mar do Norte e mais tarde o Médio Oriente, que consolidará a sua posição como principal fornecedor mundial. Segundo Campbell, dos 30% actuais, o Médio Oriente passará para 35% em 2002 e 50% em 2009 em termos de «fatia» na oferta mundial.

Esta conjugação da tendência de declínio com o reforço da posição do Médio Oriente não deixa dúvidas a Campbell: «Vai reflectir-se obviamente nos preços a médio prazo». E Duncan acrescenta que os dez países mais vulneráveis a este «choque» futuro situam-se entre a nata da OCDE e dos países emergentes. À cabeça dos líderes em défices petrolíferos estão os Estados Unidos (actualmente 10,2 milhões de barris por dia), o Japão (5,6 milhões) e a Alemanha (2,9 milhões), a que se acrescentam a França, Itália, Espanha e Holanda. Entre os emergentes, a situação tornar-se-á preocupante para a Índia, a China e o Brasil.

O efeito psicológico

Ron Swensen, o «webmaster» do forum que decorre em www.oilcrisis.com é, mesmo, peremptório: «25 dólares o barril é ainda um preço ridiculamente baixo. Se corrigirmos pela inflação os valores dos anos 70, teríamos preços na faixa dos 40 a 50 dólares. Como iremos reagir quando o preço for realmente muito mais alto e a oferta diminuir abruptamente?». Os próprios mercados de futuros ligados ao crude continuam muito «optimistas» - os futuros para 2004 estão a menos de 20 dólares por barril!

É este efeito «psicológico» que está por avaliar. «As pessoas não estão hoje mentalmente preparadas para este choque do futuro. Tiveram um século praticamente de crescimento do recurso. Criaram um modo de vida baseado no petróleo. Mudar todo este padrão de consumo energético não se faz de um dia para o outro», refere-nos Ed Glover. Esta «rigidez» estrutural é outro elemento a ter em conta.

As alternativas continuam a ser faladas e implementadas. Jean Laherrère lamenta que se tenha deixado cair o nuclear e o resto do painel de discussão adianta o futuro promissor em áreas como a energia solar e a eólica. Alguns regozijam-se com a decisão da indústria automobilística desenvolver os modelos de carros «híbridos» em termos de combustíveis. Mas Tony DeAngelo diz a concluir: «Por ora, não há substituto visível ao petróleo, dada a sua densidade energética e portabilidade». Preparemo-nos, por isso, para o choque!

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