A sucessão da Web: P2P The next hot thing?

O modelo de utilizaçáo da Internet centrado na Web e nos «browsers» parece mostrar sinais de esgotamento. Uma segunda fase começa a emergir em torno de um novo paradigma tecnológico, o da conexão pessoa-a-pessoa, conhecido na gíria por «P2P». Intel, IBM, HP, Fujitsu e Sun estão na corrida a par de «start-ups» como a Groove Networks, criada pelo inventor do Lotus Notes, e a OpenCola, nascida no Canadá. Envoltos no maior secretismo, os primeiros lançamentos de aplicações são esperados para o próximo mês.

Jorge Nascimento Rodrigues em São Francisco
(Reportagens realizadas em Fevereiro de 2001)

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Uma nova «buzzword» tecnológica está a aquecer os ânimos das legiões de programadores, de uma nova vaga de empreendedores e de alguns capitalistas de risco de Sand Hill Road (a famosa alameda das «venture capital»), perto de Palo Alto.

Um ano depois do «crash» do NASDAQ, o Silicon Valley começa a dançar ao som de uma nova música - o P2P (por extenso: peer-to-peer), acrónimo para um tipo de aplicação baseado na Internet que permite a comunicação directa entre «pares» (utilizadores individuais) numa mesma rede, dispensando o modelo actual centralizado a partir de «servidores».

Um novo personagem para o cibermundo foi entretanto criado - o «servente» (não se trata do que o leitor possa estar a pensar), que traduzido do «informatiquês» significa a junção entre servidor e cliente. O que exemplifica a ideia de que o computador que o leitor tem em cima da sua secretária pode transformar-se simultâneamente em consumidor (o estado normal hoje em dia) e fornecedor, nomeadamente de informação, conhecimento e recursos computacionais.

Vitória de Pirro

A questão central é saber se o P2P consegue sair dos meios vanguardistas onde está a ser utilizado - nomeadamente na comunidade científica e em grupos restritos do «high-tech» -, ou se não passará de mais uma «ferramenta muito interessante» que acaba na galeria dos falhanços dourados, como aconteceu com a tecnologia «push» de há uns anos atrás.

A euforia em torno desta palavra disparou este ano, depois das peripécias porque tem passado o processo contra o Napster, cujo epicentro legal se tem desenrolado em São Francisco. Os analistas concluem que, independentemente do desfecho do caso, «o espírito do Napster veio para ficar». A sentença poderá transformar-se numa vitória de pirro.

Uma revista prestigiada, como a Harvard Business Review, já falou de uma vaga nascente de «napsterização» da Internet, que passará rapidamente do sector do entretenimento musical para o editorial e para o retalho. Alguns arriscam, mesmo, que o Napster marcou um novo ponto de inflexão na marcha digital, depois do papel desempenhado pelo «browser» em 1994/95.

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O Napster foi um dos primeiros modelos de P2P espontaneamente criado, a par de uma nova dinâmica no campo da investigação científica com projectos que mobilizam os tempos mortos de milhares ou milhões de computadores (chama-se a isso, tecnicamente, agregar «ciclos de computação») numa rede de aderentes voluntários, como acontece com o seti@home (procura de inteligência extraterrestre) ou com o fightAIDS@home (no campo da sida).

Regresso às origens

O disparo do interesse mediático por este novo conceito, que já levou inclusivé uma revista da área científica, como o New Scientist, a debruçar-se sobre o fenómeno, trouxe para a ribalta a discussão da entrada numa segunda fase da Internet, sobretudo depois do dilúvio sobre o tecido das «dot-com».

Três tipos de P2P
  • De muitos para muitos - o modelo pioneiro do Napster, por via da agregação da capacidade de armazenamento
  • De alguns para muitos - o modelo de investigação científica distribuída por via da agregação dos ciclos de computação; casos do Seti@home e do Fight AIDS@home
  • De alguns para alguns - em pequenos grupos, em espaços privados e seguros, como no caso da oferta da Groove
  • O que pode estar em jogo é a sucessão da Web. «Verifica-se ao fim deste seis anos que não é a 'navegação' procurando conteúdo nos 'sites', nem o comércio electrónico que são as aplicações de sucesso da Internet. As 'killer applications', como dizemos em calão, têm sido o correio electrónico - o famoso 'e-mail' - e as mensagens instântaneas, duas aplicações típicas do pessoa-a-pessoa», diz-nos Andrew Mahon, director de marketing estratégico da Groove Networks, que esteve três anos a «desenvolver secretamente» uma ferramenta de P2P para pequenos grupos em espaços privados e seguros. «Nós acreditamos que a comunicação directa e pessoal, o aspecto conversacional destas tecnologias, é a essência da Internet», conclui este responsável da empresa criada por Ray Ozzie, o inventor do Lotus Notes.

    Página de apresentação do Groove

    Esta ideia de que a Web criada por Tim Berners-Lee no início dos anos 90, depois massificada com o aparecimento do Netscape em 1995 e empurrada para a «clonagem» do modelo dos velhos media (imprensa e TV), está à beira de ser sucedida por um outro paradigma começa a fazer carreira. «O P2P reforça a noção de que a principal aplicação da Internet é conectar pessoas entre si, apesar dos esforços dos grandes grupos de telecomunicações e de media em centralizar a Web à volta dos portais», afirma-nos Cory Doctorow, um dos fundadores em 1999 da OpenCola em Toronto (Canadá) e que abriu no final do ano passado uma sucursal em São Francisco para desenvolver o marketing da sua oferta na área do P2P.

    O primeiro livro sobre P2P lançado O regresso da Internet às suas origens, ao seu espírito inicial dos anos 60 no âmbito da ARPANET, é a ideia central de um livro acabado de lançar (15 de Março 2001) pela editora de Tim O'Reilly, da Bay Area de São Francisco, intitulado P2P:Harnessing the Power of Disruptive Technologies (compra do livro), coordenado por Andy Oram, e que é considerado o primeiro livro sobre o tema.

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    Tubarões e peixinhos

    Na fase que se segue nos próximos 3 a 5 anos, o «browser» (a que todos nos habituámos para 'navegar' na Web e fazer compras «online») sairá de principal actor em cena, segundo os adeptos do P2P. As aplicações de conexão directa à Internet vão proliferar e liderar. É aqui que está a janela de oportunidade do P2P.

    Imensas «start-ups» se têm vindo a posicionar neste campo. O Peertal.com (o portal de informação sobre este sector) tem uma listagem em permanente actualização que já ultrapassou as 100 empresas. Um dos movimentos estratégicos interessantes de observar é a entrada em cena de alguns tubarões da computação, como a Intel (que prepara uma arquitectura do Pentium 4 facilitadora do «peer-to-peer»), o IBM Software Group, a Sun Microsystems, a que nos referiremos mais adiante, e um «working group» para standards da infraestrutura, que abrange multinacionais como a Fujitsu e a HP.

    Várias dezenas de milhões de dólares de capital de risco começaram a correr para as «start-ups» do P2P. Os últimos casos anunciados publicamente este mês (Março 2000) referem a Quiq, a Intralinks e a Round1, nos Estados Unidos, e a Commtag, em Inglaterra.

    Uma das histórias de «start-ups» com um percurso metórico é a Infrasearch (que na Web dá pelo nome de gonesilent.com criada por Gene Kan, um jovem de pouco mais de 20 anos, recém-licenciado da Universidade da Califórnia em Berkeley (do outro lado da Baía de São Francisco).

    A empresa foi lançada em meados do ano passado e ao longo destes meses trabalhou, também, secretamente. O seu produto na área de um novo tipo de motores de busca ainda não é conhecido e já não o será, pois a jovem empresa está para ser adquirida pela Sun, que vai integrar a equipa e o protótipo no seu projecto de P2P denominado «Juxtapose» (JXTA), liderado por Bill Joy, um dos cientistas lendários daquela multinacional. Os detalhes do JXTA serão divulgados em Abril (2001).

    Página colocada por Bill Joy na Web sobre o projecto JXTA

    Gene, quando o encontrámos na Conferência sobre P2P organizada por Tim O'Reilly em São Francisco em meados de Fevereiro de 2001 (14 a 16), não conseguia, ainda, «discernir grande coisa» sobre o projecto da Sun. Ele tinha ido ao evento apenas para «pôr caras nos 'e-mails'», como nos referiu, mas saíu de lá com passaporte para um dos tubarões do Silicon Valley.

    O secretismo impediu-nos, também, de arrancar qualquer comentário aos responsáveis da Zodiac Networks, onde se reagrupou parte da equipa da Netscape. Com quase 500 milhões de dólares de financiamento de capitalistas de risco, esta «start-up» de Mountain View garante que abalará o «status quo»... daqui a dois ou três meses.

    Medos e forças de bloqueio

    O P2P encontra, no entanto, muita resistência. «As barreiras à sua massificação são sobretudo um problema de percepção», diz-nos Cory Doctorow. «O utilizador normal tem medos. Ele não deseja dar de mão beijada o acesso directo ao seu computador», explica este «evangelista-chefe» da OpenCola, que já ganhou um prémio de ficção científica.

    Mas o P2P não tropeça só na psicologia do utilizador «médio». Ilya Mironov, um jovem russo de São Petersburgo a estudar em Stanford, que mantém uma das páginas mais completas sobre a temática (ver em http://crypto.stanford.edu/~mironov/p2p/), arrisca que a principal força de bloqueio é constituída pela actual «estrutura de preços de acesso à Internet» e pelo impacto que poderá ter a massificação da permuta e partilha de ficheiros, dando uma machadada nos lucros dos actuais fornecedores de acessos à Internet.

    Para contornar as forças de bloqueio, a Groove tem adoptado uma «tática» inteligente. Adoptou um marketing insinuante junto das empresas. O P2P não é apresentado em choque com a situação vigente. «Pelo contrário, a nossa ideia é acrescentar valor por cima das actuais soluções e aplicações de intranets, extranets, gestão da relação com o cliente (CRM) e gestão da cadeia de fornecimentos («supply-chain management»). A nossa solução não ameaça usurpar os sistemas existentes. Por isso, desmobilizamos, à partida, as barreiras emocionais e políticas dentro das empresas», explica-nos Andrew Mahon, director da Groove.

    Contudo, para Sergey Brin, o fundador do Google.com, há «enormes problemas técnicos» que o levam a torcer o nariz sobre o P2P. «Com um tal sistema, a procura a partir de uma dada palavra-chave corre o risco de nunca acabar. Nunca se sabe quando outro computador da rede surge a dar novos dados. Por outro lado, torna-se difícil comparar, classificar e numerar os dados», refere-nos o líder do actual maior motor de busca na Web.

    Sergey, também, duvida «que haja qualquer modelo de negócio em torno do P2P» e por isso tem «imensas dúvidas sobre se essa tecnologia poderá vir a ser a próxima coisa de arromba» na Nova Economia.

    Modelos de Negócio em desenvolvimento no P2P
  • Extensão de extranets
  • Potenciação de intranets
  • Partilha activa de actividade computacional com redução das necessidades de investimentos em supercomputação e servidores
  • Computação colaborativa
  • Agentes inteligentes (também designados por P2A - peer-to-application)
  • Círculos de «pares» por afinidades de interesse
  • C2C no retalho online (modelo da eBay)
  • B2P (business-to-peer) - portais de pares para relações B2B sem agregador central
  • Opinião que não é partilhada pelas muitas empresas que têm vindo a testar modelos de negócio em torno desta abordagem descentralizada da computação e do uso da Internet. Os modelos mais óbvios surgem em torno da «extensão» das potencialidades das intranets e das extranets e de todo o tipo de ferramentas e ambientes que facilitem a computação colaborativa e a «conversação» entre «pares».

    Por outro lado, a gestão da partilha activa das capacidades de computação numa rede pode ser uma facilidade a «vender» em áreas como a biotecnologia, a farmacêutica, o sector financeiro e o CAD, que têm necessidade de recursos em supercomputação e que, por esta via, poupam nesses investimentos.

    No campo do retalho «on-line» o modelo de «C2C» (consumidor a consumidor) da eBay está a ser elogiado como um percursor do P2P no comércio electrónico. Espera-se, também, que no B2B (comércio electrónico entre empresas) se evolua para «portais de pares». A área dos conteúdos é outro sector que se crê vir a ser afectado profundamente pelo desenvolvimento do P2P. Novos modelos de negócio ligados às assinaturas, comissões e sindicação estão em desenvolvimento face aos tradicionais mecanismos de facturação à base de publicidade «online» e de microvendas por consulta.

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