As «gazelas» do interior galego

Apesar de não estar na costa atlântica e de ser considerada "interior"
na geografia política-económica da "euroregião" galaica-portuguesa,
a Província de Ourense afirmou-se como um modelo de empreendedorismo
de grupos familiares e de quadros particularmente nas áreas da moda
de vestuário e ultimamente nas telecomunicações

Jorge Nascimento Rodrigues em Ourense (Galicia/Galiza)

Mesa Redonda organizada pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal e pela Confederación Empresarial de Ourense para o semanário português Expresso em Março 2002
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Gazelas é a designação que Francisco Garcia, presidente da Confederación Empresarial de Ourense, usa para se referir às "start-ups" que ao longo dos últimos vinte anos mudaram a face do tecido económico da sua região que faz fronteira com o nosso Alto Minho e uma parte de Trás-os-Montes. Esta província do "interior" galego é a prova de que uma economia de empreendedorismo familiar e de quadros pode vingar.

Este perfil estratégico quer ser ampliado, pois é uma forma do "interior" galego contrabalançar a pujança da costa atlântica, refere-nos José Luis Baltar Pumar, presidente da Diputación Provincial de Ourense (a entidade política de topo na região). A província transformou-se num exportador de valor acrescentado, com uma taxa de cobertura do seu comércio externo superior a 180%. A saga começou há vinte anos atrás quando grupos familiares como Adolfo Domínguez e Roberto Verino começaram a colocar o sector da confecção e vestuário ourensano no mapa ibérico e europeu.

O exemplo multiplicou-se e a província é hoje um dos pólos ibéricos deste "cluster" tendo desenvolvido uma rede de subcontratação significativa, em que o Norte de Portugal é um dos pilares, como nos refere Zoila Bejarano, da Asociación Textil de Galicia. Ourense, tal como a generalidade da Galiza, soube desenvolver um modelo económico em que «exporta saber e tecnologia», refere Diogo Alarcão, director da Direcção de Investimento Internacional do ICEP, que participou, pelo lado português, numa mesa redonda organizada pela Agência para o Investimento no Norte de Portugal, naquela cidade galega.

O que faz a diferença

A diferença na equação do valor é simples de explicar se o leitor tomar em consideração a caminhada que vai entre o "made in" (produção) e o "made by" (marca) num sector como o da confecção e vestuário que tornou famosa a Galiza (recorde-se o caso mais emblemático da Zara, a partir de La Coruña). «Os portugueses estão especializados na produção e os ourensanos no design e na comercialização. A confecção galega em geral vende design e marca», acentua Zoila Bejarano. Esta realidade transformou o Norte de Portugal no principal exportador de confecção sem marca para a província de Ourense.

Este modelo de relacionamento transfronteiriço tem-se ampliado a outros sectores e inclusive tem gerado movimentos de deslocalização galega particularmente no Alto Minho, como sublinha José Paulo Queiroz, da Associação de Municípios do Vale do Lima (Valima). Esta Associação tem dinamizado uma estratégia de relacionamento entre os dois vales do rio Lima (Limia, no lado galego) criando «uma nova geração de parques empresariais» do lado português que se têm transformado num pólo de atracção de investimento directo estrangeiro.

Entretanto uma nova geração de "gazelas" surgiu em Ourense e lançou-se à conquista do resto de Espanha e de Portugal. O caso mais falado ultimamente é o da Egatel (LINKAR www.egatel.es), criada em 1992 por quatro engenheiros de telecomunicações, que hoje está sediada no Parque Tecnológico de Galicia, nos subúrbios de Ourense. A empresa começou por ganhar notoriedade fabricando equipamentos de recepção de satélite para a Hispasat e depois passou a fornecedor certificado da Retevisión, estando hoje a desenhar e fabricar para este operador os transmissores digitais para a rede de televisão digital terrestre que está a ser implantada em quase toda a Espanha. «Queremos passar a exportar tecnologia, e uma das nossas parcerias actuais mais importantes é com a Siemens e a Telerus para a Plataforma de Televisão Digital Terrestre em Portugal», refere Carlos Martinez, um dos fundadores da Egatel. «Nós estamos também a subcontratar pequenos trabalhos mecânicos na raia portuguesa perto de Tuy», conclui.

Cultura de relacionamento

«É preciso cultivarmos uma cultura de relacionamento em que encaremos o nosso espaço de actuação empresarial como uma euroregião que abarca a Galiza e o Norte de Portugal. Temos de vencer desconfianças», sublinha, por seu lado, Francisco Garcia, incentivando a uma maior actuação conjunta do mundo empresarial dos dois lados da fronteira. «Há complementaridades que poderemos desenvolver», refere, por seu lado, Rodrigo Sarmento de Beires, presidente da Sociedade de Promoção de Empresas e Investimento do Douro e Trás-os-Montes (Spidouro), que agrupa mais de quatro dezenas de accionistas privados e públicos. Sarmento de Beires refere sectores ligados aos produtos do território típicos - como o vinho, os granitos e a fileira florestal - e o desenvolvimento de áreas de negócio no turismo e na saúde. «Um dos nichos que tem despertado muito interesse de investidores galegos é o das quintas turísticas no Douro», conclui. Diogo Alarcão, do ICEP, considera importante «a promoção conjunta dos 'clusters' sectoriais com expressão na euroregião» com vista a mercados terceiros na Europa e no Mundo, em particular na América Latina.

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