O Oráculo do Silicon Valley

Divulgação das principais tendências para a década analisadas
no «Technology Forecast 2000» lançado em finais de Maio
pelo Centro Tecnológico da PricewaterhouseCoopers

Jorge Nascimento Rodrigues em Menlo Park com o apoio da PWC

© Review e digest do «Technology Forecast 2000» pela Janela na Web.com

Versão mais reduzida adaptada para o semanário português Expresso a 10/06/2000

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Capa do livro Technology Forecast 2000O impacto da centralidade da rede («network», na gíria dos especialistas) no tecido económico das tecnologias de informação e da comunicação (TIC) ainda está por concluir. A procissão da revolução trazida pela massificação da Internet e pelo surgimento da plataforma da Web ainda vai no adro. A década que agora se abriu vai assistir à emergência de novas plataformas de alta-tecnologia que irão transformar ainda mais profundamente a maneira como usamos a computação e o modelo mental de negócio em torno das designadas TIC.

Três novas plataformas computacionais, apenas imaginadas por alguns sonhadores há uns anos atrás, começaram a sua caminhada para a comercialização ainda na primeira década do século XXI - as redes pessoais em torno da mobilidade do trabalhador do conhecimento, que transformará o seu corpo num «hub» de comunicações e de processamento de informação e conhecimento; as redes residenciais com uma profunda transformação das linhas branca e castanha de aparelhos domésticos e dos utensílios de entretenimento pessoal (como os jogos); e a realidade virtual, que sairá dos nichos em que está para uma utilização empresarial e sectorial mais alargada.

O que isto vai começar por implicar é uma viragem radical no ícone tecnológico do nosso tempo.

Cidadão de Segunda

«O computador pessoal, o ícone de final do século XX, deixará de ser o centro de gravidade da chamada Sociedade da Informação e a sua importância hegemónica declinará na medida em que outras plataformas e utensílios de informação se afirmarão e a computação se tornará invisível e omnipresente», afirma-nos Bo Parker, ao abrir a apresentação do «Technology Forecast 2000», um exercício anual de prospectiva preparado pelo Centro Tecnológico da PricewaterhouseCoopers em Menlo Park, no coração do Silicon Valley californiano. «O PC vai transformar-se num cidadão de segunda classe na sociedade da rede», como disse, à queima-roupa, Bill Joy, o «crâneo» da Sun Microsystems, à equipa que redigiu este relatório de quase 800 páginas, que se transformou, desde o princípio dos anos 90, na referência anual de tendências para os analistas, consultores e estrategas do sector. Alguns já dão ao Centro Tecnológico da PWC o cognome do «oráculo» do Silicon Valley.

PLATAFORMAS EMERGENTES
  • Rede Pessoal, de base corporal (body-net) e incorporando vestuário com utensílios de informação («wearable computing» e «smart clothing»)
  • Rede Doméstica, com base em servidor residente em casa que distribui a computação por diferentes utensílios de informação e que articula com as redes pessoal e empresarial
  • Realidade Virtual para aplicações de gestão empresarial (formação e reuniões à distância, investigação e engenharia em regime colaborativo), industriais (particularmente no petróleo) e sectoriais (na área financeira e turística)
  • A Imprensa pós-Gutenberg (com base em papel e tinta electrónicas)
  • Ultra-miniaturização de máquinas industriais e de componentes (nomeadamente dos «chips», abaixo dos 100 nanómetros em 2005), graças à nanotecnologia
  • Cruzamento com o biológico (começando pelos «biochips» e pelos implantes)
  • NOVOS PARADIGMAS
  • Mobilidade do trabalhador do conhecimento e da população em geral impondo cada vez mais redes sem fios
  • O estado «normal» de permanentemente conectado («web tone»)
  • O computador invisível e a multiplicação de utensílios de acesso à informação e para comunicação
  • Adequação da tecnologia digital ao comportamento analógico humano (prioridade a soluções em torno do reconhecimento da voz, dos gestos, da caligrafia e do olhar; soluções tácteis e suportadas na vista)
  • Pagamento por uso de aplicações residentes na rede
  • Sindicação de produtos e serviços, além de conteúdos
  • O relatório, pela primeira vez, procura apresentar, este ano, uma análise para além de um horizonte de 1 a 3 anos, com uma reflexão sobre a década em que a computação «se tornará invisível» e o novo paradigma será o do «web-tone», ou seja a possibilidade a todo o momento de nos conectarmos a partir do utensílio mais conveniente no momento e no lugar onde estivermos.

    «Naturalmente que nos enganámos algumas vezes no passado sobre as tendências. Demos demasiada importância à inteligência artificial e depois a 'AI' eclipsou-se. Não demos a devida importância ao protocolo TCP/IP ligado à Internet no início e este seguramente será hegemónico dentro em breve. Não frisámos que os sistemas abertos triunfariam sobre os proprietários. Com a reflexão actual procuramos alargar o campo de análise e abrir mais pistas», comenta Bo Parker, que é um dos editores do relatório.

    O humano no centro

    A segunda viragem tem a ver com a relação entre a tecnologia e o ser humano. Depois de meio século de adaptação forçada do Homem às máquinas computacionais e digitais e às manias dos tecnólogos e dos barões da indústria da computação, a queda do ícone PC vai implicar uma tecnologia mais adequada ao mundo «analógico», ao modo de viver e trabalhar humanos.

    As prioridades estratégicas no design das funcionalidades dos utensílios de informação da década vão centrar-se em torno do reconhecimento da voz, da caligrafia, dos gestos e do olhar, dar mais importância ao táctil e ao uso da vista (os óculos do futuro serão potentes aparelhos digitais) e do corpo humano em geral como uma «rede» («body-net», chamam-lhe os especialistas).

    O desenvolvimento de redes pessoais («Personal Area Networks») vai conjugar as tecnologias e aparelhos sem fios com os sistemas de informação geográfica, os sistemas de posicionamento global (GPS), o reconhecimento da linguagem natural e o protocolo TCP/IP. Investigadores da IBM já falam da criação de uma «nuvem pessoal» de comunicações em redor de um corpo humano que funcionará como um cabo.

    Esta adequação ao humano levou à própria adaptação do digital a hábitos civilizacionais arreigados. Está a emergir um conceito de imprensa pós-Gutenberg, que pretende recriar em ambiente digital a cultura do «jornal» e do livro, sem nos forçar a prender a vista à Web num écran de um PC (o que manifestamente não pega). O projecto de jornal electrónico da IBM bebe nos avanços já alcançados no campo da tinta e do papel electrónicos, até há uns anos mera curiosidade científica de investigação no Media Lab do MIT e do Xerox PARC. Outros estão a apostar nos «e-books».

    Esta viragem é ainda mais acentuada pelo crescimento da mobilidade pessoal como norma de vida, particularmente na actividade profissional. Este triunfo do «móvel» vai implicar o crescimento da importância estratégica das redes e tecnologias sem fios e do disparo na criação e comercialização de todo o tipo de utensílios de informação e comunicação ultra-portáteis com destaque para os telefones celulares inteligentes, para os aparelhos inteligentes de bolso e para uma gama de vestuário com adereços computacionais. Esta portabilidade será facilitada pelo desenvolvimento acelerado das tecnologias ligadas aos écrans flexíveis e ultra-finos de alta-definição.

    O cruzamento com o biológico é uma outra área apenas nascente, que misturará os implantes digitais no corpo humano com o uso do conhecimento sobre o ADN humano na criação de potentes «bio-chips». Estima-se que um bloco de um centímetro cúbico de ADN pode armazenar qualquer coisa como um trilião de «bits» de informação! Par muitos analistas, o desenvolvimento de tecnologias capazes de «reproduzir» esta capacidade imensa poderá ser uma das saídas para o impasse a que chegarão as actuais tecnologias de semicondutores, quando a miniaturização atingir os seus limites de rentabilidade e eficácia daqui a 10 ou 15 anos.

    Novos modelos de negócio

    A passagem da rede para o centro da nova economia trouxe o baralhamento completo de muitos modelos de negócio das TIC. O «Technology Forecast 2000» chama a atenção para o crescimento de dois novos modelos. Um está baseado na sindicação de produtos e serviços (e não só de conteúdos, a que já começámos a estar habituados na Web). O outro assiste a uma transição para o pagamento pelo cliente do uso sempre que necessário das aplicações e serviços residentes na rede, em vez do tradicional investimento pesado na aquisição de pacotes de software e hardware e na sua manutenção.

    Estes novos modelos estão a permitir o surgimento de novos fornecedores de serviços - como os fornecedores de aplicações (ou ASP-Application Service Providers, na gíria) cujo mercado crescerá até 2003 pelo menos 12 vezes e no cenário mais optimista umas 60 vezes - e já provocaram um abalo profundo nos tradicionais vendedores de aplicações empresariais para áreas como o planeamento de recursos, a relação com o cliente ou a gestão da cadeia de fornecimentos, mais conhecidos pelas siglas ERP, CRM e SCM. Todos estes estão, apressadamente, a procurar «webizar» as suas soluções e a estudar a adequação ao novo modelo de venda de serviços.

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