Enxames de nano-robôs com dedo lusitano
em Los Angeles

Aristides Requicha, cientista português radicado nos Estados Unidos desde
o princípio dos anos 70, dirige em Los Angeles um dos laboratórios de vanguarda na nanotecnologia, um dos fulcros da emergente revolução tecnológica do século XXI

Jorge Nascimento Rodrigues com Aristides Requicha, director do Laboratory for Molecular Robotics, Computer Science Department, University of Southern California, em Los Angeles

Página pessoal de AR na Web | Os fundadores do LMR
Exemplos de nano-manipulações
Artigo na Scientifc American Brasil de Setembro 2002
sobre a Nanotecnologia - «A Ciência do Pequeno em busca da Maioridade»

Aristides RequichaRobôs que o leitor não vê à vista desarmada, pois podem ser muito mais pequenos do que os nossos glóbulos vermelhos (que têm 7 mícrons), poderão ser, amanhã, a solução para diversas aplicações na área do ambiente e da medicina. E se se agruparem em "enxames" de "agentes" relativamente autónomos mas capazes de cooperarem, revelando um comportamento inteligente colectivo, então a produtividade e eficácia dessas aplicações será impressionante. Baptizaram esses personagens de "nano-robôs", uma fusão linguística entre o robô já nosso conhecido e o nanómetro, uma medida que é a milionésima parte do milímetro.

A tecnologia de miniaturização que lida com estas 'coisas' a uma escala tão pequena, faz parte da nanotecnologia, uma área emergente desde o início dos anos 90, e que «se espera que venha a ser o fulcro de uma nova revolução, depois da revolução industrial e da revolução informática», diz-nos Aristides Requicha, 63 anos, um investigador luso que está radicado nos Estados Unidos desde 1973. A nanotecnologia deverá valer um bilião de dólares em 2010, tanto como o negócio da biotecnologia e das tecnologias de informação juntas nessa altura, e terá, nesta década, um crescimento anual acumulado na ordem dos 60%. Empolgado, Requicha falou-nos de "coisas" que ao leitor podem parecer ficção científica - como células artificiais com que se possa construir um sistema imune programável ou robôs mais pequenos do que células, capazes de "entrar" nelas e de as reparar. Ou a rápida detecção de problemas por nanosensores "nadando" no sangue, capazes de lançar células artificiais de contra-ataque. «É provável que ainda se tenham de esperar 5 a 10 anos para essas aplicações começarem a surgir no mercado - espero ainda ser vivo quando isso acontecer», prossegue o nosso interlocutor, que é uma apaixonado do mergulho e da vela no Pacífico.

O vírus de Drexler

Aristides Requicha - conhecido por "Ari" no meio académico americano - deixou-se contaminar pelo vírus da nanotecnologia nos anos 90, influenciado pela 'evangelização' de Eric Drexler, o criador do conceito. Isso permitiu-lhe orientar no sentido da nanorobótica o Laboratório de Robótica Molecular (LRM) que estabelecera em 1994 com mais três colegas na Universidade da Califórnia do Sul, em Los Angeles. Requicha dirige o LRM, que fundou com o químico Bruce Koel, o especialista em fotónica Anupam Madhukar e o pioneiro da robótica Peter Will.

Depois de uma licenciatura em Engenharia Electrotécnica no Instituto Superior Técnico em Lisboa, Requicha rumou em meados dos anos 60 aos EUA, onde se doutoraria em comunicações e processamento de sinais na Universidade de Rochester (Nova Iorque), e depois de um curto período num laboratório europeu da NATO em Itália, regressaria a Rochester em 1973 e transferir-se-ia para Los Angeles em 1986.

O seu percurso pelos novos paradigmas levou-o a aprender a cibernética, «com que fiquei um pouco desiludido», e depois embrenhou-se na informática, para rapidamente se enamorar do "raciocínio geométrico". «É uma espécie de convergência entre a inteligência artificial e a computação geométrica. O raciocínio espacial dá-nos a possibilidade de decidir o que um 'agente' deve fazer quando está em contacto com o mundo real», adianta Requicha, que é hoje reconhecido internacionalmente como pioneiro em modelação geométrica tridimensional.

A nanotecnologia empurrou-o definitivamente para a nanorobótica, onde trabalha em duas áreas: «São duas abordagens que irão convergir. Uma é a construção de nano-robôs, a outra é o estudo de redes compostas de grandes números - milhares ou mesmo milhões - de robôs. Um nano-robô sozinho pouco fará, mas um enxame deles conseguirá ter efeitos extraordinários», explica este português de Los Angeles que vive em Palos Verdes com vista para o mar, «o que me faz lembrar o Alto Estoril da minha infância», confessa com alguma ponta de saudade.

Os nano-robôs ainda não existem, mas o fabrico de nano-estruturas está já na infância, e o laboratório de Requicha tem trabalhado, por exemplo, em prototipagem tridimensional rápida em escala nanométrica, em nano-"montagem" e em nano-manipulação em líquidos.

Entre exemplos de nano-manipulação - disponíveis no sítio do Laboratório na Web - encontram-se um nanoCD, a sigla da Universidade do Sul da Califórnia escrita em braille com partículas de ouro em escala nanométrica e a mesma sigla também escrita com partículas de ouro apresentada em realidade virtual. Criaram, também outras estruturas como transístores nanoeléctricos ou guias de ondas para radiação luminosa. Nesta aventura, gostaria de ter doutorandos portugueses: «Temos estudantes em doutoramento de todo o mundo, especialmente da Ásia, e os portugueses seriam bemvindos», comenta, deixando o convite.

O problema português

Requicha dificilmente regressará a Portugal para se radicar na investigação e sente-se hoje em dia «como qualquer coisa de intermédio - nem de cá, nem de lá, como dizia o poeta Mário de Sá Carneiro». O momento decisivo da carreira ocorreu quando se decidiu a deixar a família e amigos em Portugal, então ainda no tempo da ditadura, e a rumar aos Estados Unidos em 1965.

Ainda que tenha havido pelo meio uma revolução política e social e uma mudança radical na investigação, falta, ainda, ao nosso país ambiente e infra-estruturas para uma aposta em áreas de ponta: «Este tipo de investigação é verdadeiramente global, e é preciso estar na crista da onda, pelo que não podemos passar o tempo a batalhar contra o sistema, mas sim a batalhar contra os problemas», conclui Requicha, apontando para um dos crónicos problemas portugueses.

OS PAIS DO «NANO»
Do Nobel Feynman ao 'evangelista' Eric Drexler

Artigo de Drexler | Eric Drexler | Sobre Feynman | Manifesto

A nanotecnologia parece ter como "avô" o falecido físico e Prémio Nobel Richard Feynman. A ele se atribui uma palestra visionária no final de uma reunião anual da Sociedade Americana de Física, a 29 de Dezembro de 1959, no California Institute of Technology (mais conhecido por Caltech). Depois de uma festiva convivência, muitos dos assistentes duvidaram se Feynmam estaria a gozá-los (dado o seu mítico pendor para o humor) ou se já não estaria sóbrio, quando os mimoseou com o tema "There´s plenty of room at the bottom - Invitation to enter a new field of Physics". A assistência agitou-se quando ele perguntou com ar sério: "Porque não haveremos de meter os 24 volumes da Enciclopédia Britânica na cabeça de um alfinete?", e explicou numa linguagem quase hermética como isso seria possível.
Seriam precisos, contudo, mais de 30 anos para o tema ganhar repercussão pública. Foi em 1992 que Eric Drexler, um ex-estudante do MIT, foi ouvido pelo subcomité de Ciência, Tecnologia e Espaço do Senado, onde liderava Al Gore. O jovem Drexler havia lançado o tema em 1981 com um artigo científico que falava de desenho de proteínas como via para a fabricação a nível molecular. Cinco anos mais tarde escreveria o seu clássico "Máquinas da Criação" e espalhava o conceito de "nanotecnologia", um novo palavrão da alta tecnologia nascido do nano, a bilionésima parte do metro (a milionésima parte do milímetro). Muita gente da academia o considerou "maluco" ou "excêntrico" e mesmo gente do meio da alta tecnologia, como Phillip Barh, da Hewlett-Packard, o condenou, então, como "uma fraude".
Foi Drexler - o verdadeiro "pai" da tecnologia do nano - que "desencaminhou" Aristides Requicha para esta área nova há sete anos atrás. "Ele tem sido um 'evangelista' e é responsável, em boa parte, pelo interesse que a nanotecnologia tem suscitado. Sem ele, provavelmente eu não teria ouvido falar do assunto na altura em que lancei o meu laboratório. Eu pensei que mesmo que ele se enganasse em 95% do que dizia, os restantes 5% ainda valiam a pena", recorda Requicha.
Deve-se a Al Gore, já como vice-presidente de Clinton, o lançamento da Iniciativa Nacional de Nanotecnologia em 2000, que, desde essa altura, tem recebido dotações significativas: 422 milhões de dólares em 2001, 604 milhões em 2002 e previstos 710 milhões para 2003. Drexler, por seu lado, lidera o Foresight Institute sediado em Palo Alto, no Silicon Valley.
Até final do ano, estão programados nos EUA dois eventos importantes na área - de 11 a 13 de Outubro, o Foresight Institute organiza a sua 10ª conferência anual onde serão inclusive atribuídos os Prémios Feynman, e entre 18 e 19 de Novembro realiza-se em Nova Iorque a Conferência e Exposição Planetária Nanoelectrónica. Recentemente realizaram-se as conferências sobre nanotecnologia do IEEE - Institute of Electrical and Electronic Engineers - e da ASME - American Society of Mechanical Engineers. O ano de 2002 está, por isso, muito nano-movimentado.

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