O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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As revoluções que os outros faziam
(sabe-se lá porquê)

Em Maio de 68, ainda como bolseiro da OCDE, e sendo director-executivo do chamado projecto das equipas-piloto daquela organização em Portugal, encontrava-me na Grã-Bretanha em curta visita a universidades e institutos de investigação. Como jovem e obscuro economista oriundo dum país sobretudo conhecido pela ditadura que prosseguia uma guerra colonial absurda, não podia esperar grandes atenções, embora o fair play inglês me surpreendesse.

No entanto, reparei com espanto que professores de Cambridge me interrogavam com inquietação sobre o que naquele momento ocorria em Paris, talvez supondo que os portugueses tivessem algo a ver com isso.

A verdade é que, de certo modo, tinham, embora na altura eu não o soubesse. Alguém poderia prever em 1968 o que aconteceu em Portugal em 74 e 75?

No fundo, generosos e lúcidos jovens portugueses estudavam cuidadosamente as revoluções do mundo inteiro, pelo menos desde os princípios dos anos 60. E alguns deles estão hoje no poder, ou perto. Sem a revolução, claro, que por definição se torna contra-revolucionária logo que se instala no poder.

Such is life, como diriam em Cambridge.

Na verdade, a crise académica de 1961/62 em Portugal foi uma crise endógena de grandes proporções à escala portuguesa e que revelou futuros líderes políticos, entre eles Jorge Sampaio. Na sua maioria, são hoje, ou foram depois de 74, em períodos mais ou menos longos, membros destacados da chamada classe política.

Enquanto jovem assistente mais próximo dos estudantes do que dos professores (com raras e honrosas excepções de professores próximos dos estudantes, como Francisco Pereira de Moura) frequentei grandes comicios na cidade universitária, então em construção, comícios em que Jorge Sampaio se revelava um tribuno empolgante.

Falava «às massas», como então se dizia, bem melhor do que faz hoje, mas é certo que nos primórdios do séc. XXI não se espera dum Presidente da República respeitável e respeitado da UE os empolgantes talentos oratórios dum estudante contestatário dos anos 60. Nas reuniões conspiratórias em que tivemos algum tempo de cumplicidade, participava também o generoso e prolixo Vitor Wengorovius, um dos fundadores do MES (Movimento da Esquerda Socialista) e então jovem católico progressista. O Vitor era um excelente orador nos primeiros quinze minutos (digamos); mas depois repetia-se e não sabia como terminar. Recordo a voz paciente e amiga de Sampaio dizendo-lhe como a um irmão bem mais novo:

- Sintetiza, Vitor!

(O meu deslumbramento, nos primeiros anos 60, escutando Jorge Sampaio então jovem tribuno estudantil foi ao ponto de lhe oferecer um dos primeiros livros que publiquei, com dedicatória profética: ao futuro Primeiro-Ministro de Portugal. Enganei-me.)

Mas, na realidade, duma forma ou outra, todos procurávamos ou necessitávamos de novas sínteses, exemplares e pragmáticas, não só o excelente Vitor Wengorovius. Onde buscá-las?

Onde buscá-las, ontem como hoje?

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