O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Os aplicados estudantes de revoluções

Podemos dizer que, pelos finais dos anos 70 princípios dos anos 80, do tão distante e tão próximo séc. XX, os intelectuais revolucionários foram perdendo audiência por todo o lado. A História parecia tê-los traído, deixando-os dalgum modo desempregados, pelo menos mal empregados, sem grandes causas para defender.

A senhora Thatcher - e dalgum modo, também o seu discreto e admirável marido - tornaram-se expoentes duma era pós-revolucionária, que continuara A era das revoluções, sobre a qual escreveu Eric Hobsbawm. Às revoluções e nacionalizações mais ou menos convictamente tentadas, sucediam-se agora as privatizações encarniçadas e a desconfiança generalizada pelo Estado revolucionário, ou mesmo (pobre dele!) moderadamente reformista.

Aproximava-se o «fim da História» e seria um happy end, segundo Fukuyama mais tarde revelou, qual senhora de Fátima.

O descrédito do Estado chegara a tal ponto que até o insuspeito (de estatismo) Banco Mundial se empenhava no capacity building, procurando uma poção mágica para recuperar o pobre enfermo. A poção veio, finalmente, da chamada market friendly approach, isto é, a concepção segundo a qual o Estado deveria agir, não como adversário mas sim como «amigo do mercado». O qual mercado, por sua vez, deveria corresponder a tal sentimento. Os amigos, de facto, são para as ocasiões.

No princípio dos 80, reflectindo a evolução da conjuntura portuguesa e mundial, exibia-se no Teatro Aberto com grande êxito a peça O suicidário de Nikolai Erdman, soberbamente interpretada por Mário Viegas. O heroi da peça, Semion Semionovitc, interroga-se sobre aquilo que a revolução russa lhe dera, na prática, e terá sido coisa nenhuma, enquanto sente fome por um bocado de chouriço.

O chouriço reconquistara, uma vez mais, o lugar à ideologia.

Também por essa altura, o jornal A Bola honrava-me transcrevendo a seguinte passagem dum meu artigo publicado no Diário de Lisboa, escrito depois de ver Mário Viegas no Teatro Aberto:

Tal como o árbitro de futebol passa despercebido quando é bom no seu mister, assim se deseja que a política entre na normalidade discreta do nosso existir, resolvendo quanto possível os problemas comezinhos que afligem o quotidiano de cada um.

Decididamente, já ninguém esperava milagres da politica e dos políticos. Mas assegurar chouriço para todos, continuava a não ser fácil...

Mas os anos 60 e ainda parte dos 70 foram anos de glória para os profetas e militantes das várias revoluções que se tentavam por todo o lado, desde a América da guerra do Vietnam, ao Brasil do foquismo e Mariguela, aos socialistas chilenos do tempo de Allende, ao PSIUP italiano, á África à procura de si mesma, aos jovens chineses maoistas e, claro, aos estudantes franceses de Maio de 1968.

Alguns deles (ou delas) foram presos, torturados ou mesmo assassinados e merecem todo o nosso respeito, independentemente de partilharmos ou não as suas convicções. Outros foram fugazes e triviais oportunistas que passaram pelo tempo procurando apenas servir-se dele em seu proveito.

Duns e doutros guarda a História a memória que merecem.

Por esse tempo, aplicados estudantes de revoluções pensavam novos e variados caminhos para Portugal.

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