O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Uma democracia ilimitada

François Perroux, com o qual era dificil comunicar, pelo menos na altura em que o conheci, porque, além do mais, era duro de ouvido, deixou dois grandes herdeiros espirituais, que conheci pessoalmente, situados em polos opostos do quadro político francês: Destanne de Bernis, que em determinada altura aderiu ao Partido Comunista Francês e Raymond Barre, este último ex-Primeiro Ministro de Giscard d'Estaing que não navega exactamente nas mesmas águas e que pude recentemente voltar a encontrar numa conferência internacional em Cantão. Se bem percebi, estava na China para promover negócios de empresas francesas. C´est la vie...

Também estudei, quando caloiro no ISCEF, pelo manual de Economia de Barre: duvido que fosse recomendar ou aplicar essa teoria económica em Cantão. De Bernis, também continuador de Maurice Byé, interessou-se mais pelas grandes questões das relações económicas internacionais, do desenvolvimento e do subdesenvolvimento e escreveu obra valiosa nos seus tempos áureos. Mas creio que a sua adesão ao PCF, após uma longa experiência de compagnon de route, não favoreceu a sua criatividade intelectual.

Foi também nestes anos 60 de côr francesa que mais de perto convivi com um grande e malogrado amigo: Nuno Bragança. Trabalhou primeiro comigo na organização do Serviço Nacional de Emprego, dependente dum organismo designado por Fundo de Desenvolvimento da Mão-de-Obra e que, na prática, era o embrião dum Ministério do Trabalho que, mais tarde ou mais cedo, viria o ocupar o lugar do então existente Ministério «das Corporações e Previdência Social».

Nuno Bragança substituiu-me, por proposta minha, como delegado português no Comité da Mão-de-Obra e Assuntos Sociais da OCDE, tendo finalmente ficado colocado na nossa delegação permanente em Paris junto daquela organização. Desse tempo lhe veio a inspiração para escrever o seu Square Tolstoi.

A minha relação pessoal com Nuno Bragança foi muito intensa, embora o tempo do nosso convívio fosse curto. Ele tinha um lado oculto e profundo, que sugeria íntimo sofrimento e tragédia. Jamais encontrei outra pessoa com quem me fosse possivel descobrir entendimentos tão profundos com tão poucas palavras.

Em Setembro de 75, no pino do «verão quente», em plenas peripécias do V Governo Provisório, de que fui membro, escreveu-me uma carta onde dizia:

Se te interrompi foi pelo que temos ambos em matéria de entendimento e amizade.
E também por me lembrar de que os metidos na espessura da acção têm às vezes pouco tempo para fazer recuo e dar balanço. Como dizia o Kennedy, o qual fez asneiras suficientes para comprovar a veracidade desse dito.

E terminava citando "a Rosa" (Luxemburgo):

O proletariado deve exercer uma ditadura de classe e não de partido. E a ditadura de classe implica a mais activa e ampla participaçáo das massas - uma participação ilimitada numa democracia ilimitada.

Tal como Pepetela, pertencemos ambos à «geração da utopia».

Só que na altura ainda não o sabíamos.

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