O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Portugal, por onde vamos?

A crónica semanal assinada pelo "economista" no Diário de Lisboa nos anos 60, então muito lida por intelectuais da oposição ao regime, é um dos múltiplos indícios de uma tendência profunda da época, a formação duma nova consciência do atraso português.

A publicação de Análise Social, com novas perspectivas sobre a realidade económica e social do País, editada pelo Gabinete de Investigações Sociais, dirigida por Sedas Nunes, revista de cujo conselho editorial também fiz parte, vem no mesmo sentido.

No meu caso pessoal, a emergência desta consciência foi simultânea com as possibilidades culturais abertas pelas idas ao estrangeiro e toda a forma de contactos com o mundo exterior, hoje banalizados, mas ao tempo raros e preciosos. Essas viagens, resultavam de bolsas e projectos da OCDE, ou comissões e conferências da mesma organização em que eu participava como representante português.

Isso permitiu-me, com menos de trinta anos, contactar pessoalmente figuras como François Perroux e Claudio Napoleoni, que à distância muito admirava, procurando-os com a candura de quem espera encontrar "lá fora", finalmente, os depositários das verdades por descobrir.

E foi importante assistir na SVIMEZ (Associação para o Desenvolvimento do Mezzogiorno italiano) em Roma, na Via Porta Pinciana, não muito longe da Vittorio Veneto, aos cursos de economistas como Hollis Chenery e Rosenstein Rodan, figuras destacadas da época e que tinham de facto coisas novas para dizer sobre temas de desenvolvimento económico e que faziam sentido também para Portugal.

Mas Perroux, no plano pessoal, cedo se tornou uma decepção ao contrário de Napoleoni, que foi figura destacada do Partido Comunista Italiano, partido muito mais interessante na teoria e na prática do que o seu equivalente em França.

Mantive grande admiração pela obra de Napoleoni e, nessa época, o seu contacto pessoal foi para mim estimulante. Admirava sobretudo nele três coisas simples e raras, então como hoje: ideias claras, rigor das análises e firmeza dos princípios.

Assistir às aulas de Perroux no Collège de France era um espectáculo de teatro - ou mesmo de circo. Perroux entrava na sala, precedido por um funcionário fardado, e engatava um discurso com o típico ar francês de grand ségneur, que fazia lembrar De Gaulle, como se toda a humanidade estivesse ali reunida e rendida a seus pés, plena de admiração pela profundidade da sua visão profética. Na realidade, eram duas ou três dezenas de indíviduos que na sua maioria estavam ali para prestar uma homenagem a troco de algum favor esperado, pelo menos, desejado. A salva de palmas final, terminada a oração, era ridícula e triste, bem como a repetição, em sentido inverso, do patético desfile inaugural. Em suma: eu passei a ter dificuldade em escutar a mensagem, tal a evidente presunção do mensageiro.

Imagino que Marx (refiro-me ao Groucho) teria gostado de imitar a personagem.

Perroux, quando jovem, tinha rendido Salazar na sua cátedra de Coimbra. O nome primeiramente proposto pela Sorbonne, a solicitação da Universidade de Coimbra, tinha sido o de Maurice Byé - pioneiro da teoria da grande empresa transnacional, que ele designava por "grande unidade inter-territorial" - mas por razões que desconheço, Byé não veio e foi Perroux que finalmente ocupou o lugar de Salazar. Escreveu nessa época alguns textos sobre corporativismo, mas não gostava que o lembrássemos disso.

Eterno candidato ao Prémio Nobel, que nunca chegou a receber, Perroux escreveu textos interessantes sobre a coexistência pacífica e a economia das "jovens nações" africanas, além da teoria dos polos de desenvolvimento, entre outros temas. Persuadiu-me a traduzir para português alguns dos seus livros, entre eles Economie et Société - Contrainte, Échange et Don, um livrinho profundo de que ainda gosto hoje. Aí dissertou sobre aquilo que chamava "a visão comum aos ocidentais": a economia sem escassez e a sociedade sem coacção. A obra é também um valioso ensaio sobre História do Pensamento Económico, matéria que eu dava então no ISCEF, sucedendo a Sedas Nunes.

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