O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

5
Respirar lá fora

Para um português comum, visitar Paris, Londres ou Roma nos anos 60, não era coisa fácil, pois as fronteiras eram rigorosamente controladas e saía caro, para os que podiam ter passaporte, fazer turismo para além dos Pirenéus.

É bom lembrar que a emigração não era livre, que os portugueses, na sua grande maioria, não desejavam ir combater para as colónias ou mesmo trabalhar em África, "por conta doutrém", nos dois casos. Preferiam arriscar-se em aventurosas travessias na Europa e emigrar clandestinamente.

O indicador mais sugestivo do subdesenvolvimento português na época é a força da propensão à emigração, apesar de todos os tremendos riscos que a decisão implicava. O dar o salto justificava todos os sacrifícios, na alternativa do desolado quotidiano sem esperança de que dispunham em Portugal.

No final dos anos 60, apesar de todas as barreiras, a população residente em Portugal diminuía, e vastas regiões do país despovoavam-se. Os portugueses juntavam-se aos espanhois, turcos, gregos, italianos do Mezzogiorno, argelinos e outros, para engrossar as reservas de mão-de-obra da Europa desenvolvida e em período de rápido crescimento económico.

Mas não pude deixar de simpatizar com o comunista italiano director do centro de emigração de Verona, que um dia visitei por motivos profissionais, e que considerava a emigração como abjecto tráfico de carne humana. Os pobres camponeses do Mezzogiorno chegavam a Verona na esperança de serem contratados por algum empregador alemão que ali vinha escolher a sua mão-de-obra. Nas inspecções médicas que decorriam no centro,os alemães presentes, na sua característica e rigorosa frieza, inspeccionavam até os dentes da disponivel "força de trabalho", para usar a expressão marxista, que ali fazia todo o sentido.Isto passava-se na romântica terra de Romeu e Julieta.

Mas os portugueses, mesmo de dentes cariados, encontravam sempre quem os explorasse, até compatriotas que serviam de intermediários no comércio que os tinha por objecto. Como se sabe, o tema volta hoje à ordem do dia na Europa, mas os portugueses já não desempenham o papel de grandes vítimas nesse tráfico.

E no entanto, voltando ao meu previlegiado caso, esse tão desejado respirar lá fora esteve várias vezes ao meu alcance graças à dupla condição de economista e funcionário público, mesmo que apenas contratado, uma vez que, compreensìvelmente, não merecia a confiança da Pide para ser do quadro da administração pública.

(Também tentei, a certa altura e à minha maneira, dar o salto, para respirar melhor, não tanto para ganhar mais, mas não o consegui, até por já ter uma dimensão familiar considerável.)

Posso mesmo assim adiantar que, nas circunstâncias da época, eu já poderia ser considerado um raro exemplar de português voador frequente, ainda que "avant la lettre", isto é, antes de existir o cartão das companhias aéreas que nos certificam o título. É certo que na generalidade, como já referi, os portugueses tornavam-se "passageiros frequentes", mas noutro e lamentável sentido e também com outras direcções.

Registe-se que a profissão de economista se afirmava em Portugal em crescendo de audiência e procura desde o final dos anos 50, quando saíam as primeiras fornadas, a que eu pertenci, da então "nova reforma" dos cursos do ISCEF. Depois dos juristas, dos médicos e dos engenheiros, e antes dos sociólogos (que o regime considerava mais subversivos do que os economistas, por assimilar "sociologia" a "socialismo") era a altura de os economistas adquirirem respeitabilidade.

Afinal, em nome dum conhecimento da Ciência Económica, que os melhores deles sabiam - que não sabiam. Mas a verdadeira sabedoria parece começar sempre assim, pelo conhecimento da ignorância própria...

Durante alguns anos, por esta altura, mantive sob compreensível e rigoroso segredo, no Diário de Lisboa, uma crónica semanal (em colaboração com outro colega de profissão) sob o pseudónimo "Economista", título suficientemente definidor duma identidade no Portugal de então. Essa foi também uma crónica de luta árdua com a Censura, mediada pela paciência amiga e solidária de Mário Neves, subdirector do Diário de Lisboa, crónica de que infelizmente não conservei os originais, para comparar os textos ex-post e ex-ante relativamente aos cortes dos censores.

Seria uma maneira de medir, como se faz em contabilidade nacional, o "valor acrescentado" ou o "valor subtraído" pela Censura à nossa prosa.

Forçada pela tesoura dos fiscais do nosso pensamento, a prática de dizer por meias palavras, ou por ainda menos, o que sentíamos vontade de gritar bem alto, criou depois do 25 de Abril, por contraste, ao poder dizer-se tudo,o desespero de se reconhecer que ràpidamente se esgotava o que tínhamos guardado para então dizer. Parecia que as nossas montanhas só sabiam parir míseros ratinhos, na hora da verdade.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte