O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Diálogos com a PIDE em fundo

O algo mítico tempo dos anos 60 era também o tempo do interminável "diálogo" entre católicos e marxistas, umas vezes entre gente séria e militante, outras vezes simples conversa mole de intelectuais, nem sempre pedantes mas muito distantes da "praxis" tão falada na época.

Surge então a cooperativa "Pragma" que se auto-designava cooperativa cultural e de acção comunitária e de que fui um dos fundadores com Nuno Teotónio Pereira e outros, entre eles militantes da Juventude Operária Católica, como João Gomes e Manuel Bidarra. A designação escolhida reflectia essa ambição de ligar a teoria à prática, os intelectuais aos trabalhadores, abrir caminho para novas formas de associação política e sindical.

As cooperativas culturais não necessitavam de autorização prévia para terem existência legal, e foi a grande razão para escolhermos essa forma de associativismo, quando a sociedade civil portuguesa se encontrava fortemente controlada pelo estado totalitário e a polícia política. Mas a Pragma acabou encerrada pela Pide, como seria de esperar, depois duma actividade importante no deserto cultural e político português de então. Um episódio em que participei ilustra o tom trágico-cómico da época. Francisco Pereira de Moura era então procurador à Câmara Corporativa e fôra incumbido de elaborar um parecer sobre o Plano de Fomento, que se preparava na altura. O parecer era fortemente crítico e seria subversivo se não fosse aquela autoria.

Ou melhor. Era mais subversivo por isso mesmo.

A Pragma organizou então uma exposição itinerante sobre a economia portuguesa, onde uma colecção de fotografias, imagens expressivas do subdesenvolvimento português, era legendada por extractos do referido parecer. Um dos cartazes era titulado "Plano de Fom", por intencional artifício gráfico.

A exposição foi apreendida pela Pide, algures no Norte do País e eu, como director da Pragma na altura, escrevi uma indignada carta de protesto dirigida ao Silva Pais, então director da Pide.

Como seria de prever, um dia de manhã cedo, três agentes daquela polícia (nunca percebi tal desperdício de recursos humanos com um personagem tão inofensivo como eu!) foram buscar-me a casa, conduzindo-me à sede da Pragma, na rua Nova do Almada, isto é, não muito longe da sede da Pide, onde depois me levaram e interrogaram. Um dos agentes, magro, angustiado e nervoso, manifestamente o intelectual de serviço, fez-me perguntas difíceis, possivelmente para verificar até que ponto eu bebia do comunismo.

Uma vez chegado à sede da Pide na António Maria Cardoso e guardado à vista, por sucessivos agentes que se revesavam, tive o previlégio de acompanhar o inspector Sachetti a umas salas onde a Pide conservava, depois de apreendida, a nossa exposição itinerante ali naufragada.

Foi para mim uma experiência inédita e penosa, apesar de já ter algum traquejo de ensino com alunos difíceis, servir de apresentador e explicador da nossa exposição a tal personagem, mas apesar dos meus esforços não creio ter feito vacilar a sua fé no regime. Soltaram-me pelas oito da noite. Mais tarde devolveram-me os livros apreendidos em minha casa, que eram quase todos da bibliografia do meu curso de História das Doutrinas Económicas e Sociais com excepção de um volume. Tratava-se de uma colecção de escritos de Staline. Enfim, les bons esprits toujours se rencontrent...

Não esperava tão ràpida soltura, pois contava com pelo menos um mês de prisão. Suponho que terá havido intervenção de alguma personalidade da Igreja católica a meu favor. Na altura, os progressistas, mas católicos, ainda tínham as costas quentes, por assim dizer. Mais tarde isso mudou e Nuno Teotónio Pereira que me sucedeu na direcção da cooperativa, teve bem mais sérios dissabores com a polícia política do regime. Tudo se tinha radicalizado, entretanto, até os católicos.

Mas na noite dessa minha original estreia na Pide, como professor de economia portuguesa, ainda pude assistir com minha mulher, no balcão do cinema Império, à exibição doutra estreia: o divertido Those magnificent men in their flying machines.

Mas aqueles homens que nos ocupavam e preocupavam na altura não eram nem magníficos nem viajavam em máquinas voadoras. Nem mesmo o Dr. Oliveira Salazar, que detestava aviões tanto como os ventos da História.

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