O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Os verdes anos cinzentos

Os meus verdes anos, de juventude, foram também cinzentos, da cor portuguesa da época, finais dos anos 50, princípios dos 60. Mais tarde compreendi que para mim e muitos da minha geração, ou próxima, foram anos do despertar duma nova consciência do País.

Para aqueles que, embora confusamente, sentiam a necessidade dum posicionamento ideológico face ao mundo circundante, cheio de ameaças ao tempo da chamada guerra fria, e da iminência da catástrofe nuclear, e face ao mundo mais próximo de nós, desesperadamente medíocre, provinciano e sem esperança, havia duas grandes trajectórias espirituais possíveis, cada uma com variantes mais ou menos radicais:

O itinerário aberto pela visão materialista da História, a crítica marxista do capitalismo, e o modelo soviético, aceite embora com visão crítica ou exibido em visão apologética;

Ou então o chamado "progressismo" cristão, entendido de formas mais ou menos radicais relativamente à crítica da Igreja católica e também à crítica do capitalismo. Para alguns destes católicos, o marxismo também surgia como "ópio dos intelectuais", na expressão de Raymond Aron.

A palavra ideologia tinha, de forma correspondente, duas significações possiveis e opostas: a auto-justificação mistificadora duma classe dominante - a religião como "ópio do povo" ou a economia burguesa como pseudo-ciência e apologia do capitalismo; ou a ideologia como arma da revolução, isto é, como leitura "objectiva" e "científica" da realidade histórica, ao serviço da libertação dos explorados pela minoria dominante.

Na realidade, a época é percorrida por grandes ideologias antagónicas, ao contrário do que hoje sucede, em que a ideologia largamente dominante se anestesia a si mesma, fazendo-nos crer que a ideologia se tornou obsoleta, desnecessária, tal como a política não profissional.

Como pano de fundo apoiando tudo isto, na época a que me reporto, a cultura francesa dominava-nos talvez mais do que nos domina hoje a "cultura" americana, embora o termo cultura tenha significados distintos nos dois casos.No primeiro, "cultura" significava algo do domínio dos intelectuais, "cultos" por definição; no segundo, "cultura" tem um significado mais sociológico e total, cobrindo sucessivamente coisas como jeans, fast food, rockn'roll, mass media, C.E.O. (chief executive officer). global marketing, new economy...

Nesse tempo tão distante - ainda significante para os meus filhos mas já não para os filhos deles - Sartre, Malraux, como também para os católicos, Mounier e o padre jesuita Teilhard de Chardin, eram referências fundamentais.

De Mounier e da sua revista Esprit bebi muita coisa que me fez bem à saúde. Por exemplo, a ideia de que a acção é um modo de conhecimento.ou de que o homem faz-se, fazendo-se.

Do jesuita e paleontólogo Teilhard, autor além do mais do Phenomène humain, apreendi a ideia de o homem como terceiro infinito, o da complexidade, e também da nossa condição como evolução tornada consciente de si mesma.

A receita intelectual típica da época, de que me servi abundantemente, e me fez resistir ao cinzento circundante , era pois uma mistura - em dosagens variadas - de marxismo, existencialismo e cristianismo.

Quando, muitos anos mais tarde, visitei Shanghai pela primeira vez, na área de estilo europeu, nas vizinhanças do Peace Hotel, e do seu peculiar jazz chinês, ainda senti a atmosfera trágicamente existencial de Malraux em La condition humaine, que com ele partilhara in mente na minha juventude.

Recordo a emoção que senti, creio que em 1962, assistindo na igreja de Saint Germain des Près do então mítico Quartier Latin, a uma missa por alma de Emmanuel Mounier, e o respeito que me inspiravam os austeros e solenes intelectuais franceses que ali bem perto de mim comungavam da mesma visão do mundo.

Pelo menos, era o que eu supunha.

E, pela mesma altura, na casa dum italiano meu amigo, residente no Quartier Latin, ao tempo de Gomulka na Polónia, mantive debate absurdo com um sociólogo polaco que ia a caminho dos EUA, com uma bolsa de estudo, aproveitando a relativa abertura do regime do seu país. Ele, no calor da discussão, defendia o corporativismo português e eu, por força da hipocrisia que sentia na sociedade que conhecia, era conduzido a defender o socialismo polaco. Pois que ambos vivendo em regimes totalitários, fechados a toda a forma de crítica ao sistema, não podíamos admitir que a realidade do mundo do outro fosse pior do que a nossa própria realidade...

(De passagem, noto o impressionante declínio da cultura francesa, ao menos nos domínios que me interessavam, nos quarenta anos subsequentes. Na filosofia, no cinema, na economia, na política... Salvou-se o futebol, é verdade)

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