O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Universidade e Casino em Macau

A universidade de Macau está situada numa colina da ilha da Taipa, quase ao lado do moderno hotel-casino sugestivamente denominado New Century. Tem uma bela vista sobre a velha cidade de Macau, do outro lado dum dos muitos braços do estuário do rio das Pérolas. Frequentei, como seria de esperar, mais a universidade do que o hotel-casino, durante os cerca de dez anos, a partir de 1990, em que dei regularmente um curso de economia no mestrado em Gestão, em língua inglesa, naquela universidade. Na realidade, as minhas idas ao hotel, vizinho da residência dos professores da universidade, foram quase sempre para tomar um insípido pequeno-almoço «ocidental», como servem em qualquer hotel com idêntico número de estrelas em qualquer parte do mundo.

As minhas estadias em Macau foram geralmente curtas, de algumas semanas, excepto num semestre em que estive como professor visitante. A pouco e pouco, fui-me interessando mais pela imensa China, viajando quando possível até Cantão, Xangai ou mesmo Pequim, do que pelo microscópico e pouco edificante Macau que, todavia, ainda considero um excelente laboratório para muitas experiências e observações interessantes para qualquer ser humano curioso da sua própria condição.

Para um leitor cinéfilo, com mais de quarenta anos, direi que Macau continua a ser um excelente local para imaginarmos uma grande intriga e correspondente interpretação de Orson Welles, ou Humphrey Bogart. Tive particular consciência disso numa viagem fluvial nocturna, ao beber uma longa cerveja, para passar o tempo, no veterano barco da carreira entre Macau e Cantão. Tinha comprado um bilhete que - julgava eu - me dava direito a um beliche individual. Na verdade, havia lugar para outro passageiro, que se revelou um chinês discreto, com o qual comuniquei por gestos, exprimindo o meu desejo de reter o leito inferior do compartimento. Ocupou o superior, e dormiu silenciosamente durante todo o percurso. Algumas baratas percorreram o convés, pela noite fora, mas mantendo-se a razoável distância das camas. Verifiquei também, durante a viagem, que a embarcação abundava de chineses em roupas interiores, ocupando camaratas. Mas não aconteceu nada de notável até chegar de madrugada a Cantão, a não ser eu recordar, com alguma impaciência, uma famosa e antiga canção, chamada, salvo erro, in a slow boat to China. E pensei que se Welles ou Bogart viajassem naquele barco, certamente aconteceriam coisas importantes. Mas claro que um professor (e catedrático) de Economia, mesmo português, estaria sempre deslocado em tal filme.

Neste único contexto socio-cultural, é de assinalar o histórico Hotel Lisboa: um sítio peculiar de muitas tradições onde, na expressiva frase que escutei dum amigo meu, «um homem pode encontrar tudo quanto necessita para ser feliz, até um quarto». Do meu ponto de vista, aqui inspirado pela contabilidade mais do que pela filosofia, diria que esse Hotel, tal como a pessoa humana, não é inventariável.

Por outras palavras: duvido que haja alguém, ou mesmo alguma entidade experimentada e habilitada na matéria como uma sociedade de auditores, ou revisores de contas, que possa descrever com rigor tudo quanto existe nos vários andares, lojas, corredores, salas e quartos do Hotel Lisboa. Além de que, na verdade, seria perigoso tentá-lo.

Durante vários anos, habituei-me a ver, da rua, o porteiro chinês do Hotel Lisboa vestido de campino do Ribatejo, provável homenagem do senhor Stanley Ho à universalidade da cultura portuguesa. Esse chinês - campino - porteiro de casino «lisboeta» surgiu-me como possível símbolo de qualquer coisa que nunca consegui decifrar. Talvez grotesco símbolo do Macau que já passou à História.

Na realidade, duvido que a felicidade seja mais fácil de encontrar no interior do que no exterior do Hotel Lisboa, mas compreendo a ironia, talvez desesperada, que oculta a frase acima citada. Nas salas onde se joga, com iluminação eléctrica algo frouxa, nunca entra a luz do dia e perde-se a noção do tempo. O ambiente é pesado, pois o jogo não é brincadeira e deve ser tomado bem a sério. Dizem-me que os suicídios de grandes perdedores não são raros, tal como os assassinatos por dívidas de jogo. E as prostitutas que circulam por todo o lado não bastam para alegrar o cenário.

(Se preferirmos observar uma selecção dessas profissionais numa espécie de montra ou menu envidraçado, podemos antever um grande rigor higiénico no seu uso, além de contemplarmos fisionomias meigas e mesmo ingénuas, que esperaríamos antes encontrar, então sem surpresa, e traduzindo para a nossa matriz cultural, num desfile de noivas de Santo António).

Mas as prostitutas mais comuns e circundantes agravam a tristeza e a solidão gregária que a pouco e pouco nos vai invadindo, ao percorrer as grandes salas de jogo. Numa ocasião, observei o desfile patético de jovens, magras e louras russas, náufragas da Perestroika. Também não trouxeram alegria ao cenário. Mas registei esta dimensão da tão generalizada «transição para a economia de mercado» num mundo globalizante.

Entretanto, na ilha fronteira da Taipa, no átrio do New Century, podemos admirar o projecto do novo casino que segundo a promessa dos proprietários, permitirá aos chineses terem a modernidade e acessibilidade do jogo dos casinos de Las Vegas (jogo para toda a família, digamos assim), sem necessitarem de partir para a América. O hotel foi palco de tiros e outros incidentes violentos no período agitado que antecedeu a entrega do território por Portugal à China, com frequentes conflitos entre seitas rivais. Isso explica, talvez, a recepção calorosa que tive uma vez num dos restaurantes do hotel quando, recém-chegado de Lisboa e sem conhecer os incidentes violentos de dias anteriores, me fui instalar tranquilamente para jantar, numa sala quase deserta.

Também na ilha da Taipa, num bairro tradicional e bem arrumado, encontramos restaurantes para todos os gostos, com estilos que vão da mais pura comida portuguesa até à típica alimentação cantonesa, e com várias combinações intermédias. Entre eles, conta-se o famoso restaurante do Santos, antigo cozinheiro da nossa marinha, no qual me encontrei muitas vezes na companhia doutros portugueses - mas também de chineses e filipinos de ambos os sexos - provando comida dum gosto que me recordou paladares da minha infância. E nas paredes da sala de jantar, podem admirar-se vestígios representativos do que, em discurso oficial, se poderia designar por «a maneira portuguesa de estar no mundo»: cartazes de touradas, fotografias de equipas vencedoras do campeonato nacional de futebol, um retrato da grande Amália, etc. Mas o Santos - que, tal como eu, é adepto saudoso e amargurado do Benfica - é pessoa de convívio agradável e várias vezes partilhámos análises desencantadas sobre a presença dos portugueses em Macau. E foi triste saber, um dia, que um polícia português de aspecto invulgarmente civilizado e cordial que eu encontrava regularmente ao almoço, na mesa ao lado, fora morto a tiro, ao que parece por dívida não saldada e que teria origem na paixão por uma tailandesa.

Mas nas ruas e praças de Macau, por todo o lado, reconhecemos a patriótica preocupação das autoridades em manter designações de ruas e estabelecimentos comerciais em língua portuguesa, bem ao lado das correspondentes designações em caracteres chineses. Só uma minúscula proporção dos habitantes, bem entendido, está em condições de ler português, mas admito que a dualidade de escrita aumente o interesse turístico do território. Além de que é divertido para um português em Macau, por exemplo, ler em local panorâmico a designação «ponto de vista de Dona Sancha»: e qual seria, com efeito, se tivesse sido consultada? O português não é perfeito: trata-se, como se adivinha, do «miradouro de Dona Sancha». Podemos ainda encontrar numa lojeca de rua estreita, uma orgulhosa tabuleta onde se lê «estabelecimento industrial de chapéus de chuva».

(Já pensaram, a propósito, como seria fascinante poder ler nas ruas da Baixa de Lisboa, também em caracteres chineses, por exemplo, rua da Prata ou rua do Ouro?)

A longa presença-ausência portuguesa neste território não pode ser desligada do lado sórdido de Macau. Essa presença só foi tolerada pelos chineses porque isso era do seu interesse: poderiam, assim, beneficiar desse lado sórdido, sem estar formalmente comprometidos com ele. Hong Kong, como é evidente, tem outra e bem mais relevante dimensão económica e financeira, e desempenhou papel fundamental na estratégia da «Porta Aberta» delineada por Deng, na era pós-Mao. Mas Macau não tem de todo tal dimensão e não creio que possa adquiri-la no futuro, já sob completa soberania chinesa.

Como também é ridículo imaginar este território, com cerca de 20 quilómetros quadrados, servindo de «ponte entre a Europa e a China». Haveria enorme engarrafamento, no dia da inauguração, por certo.

De facto, o casino é instituição bem mais fundamental para o futuro de Macau do que a instituição universitária. Teria sido necessária presença portuguesa bem mais sólida e determinada nesta fase final, para que Macau pudesse constituir significativo e durável polo cultural.

Mas tive alunos e alunas chineses bem interessantes nestes anos de Macau. Sobretudo, entre os provenientes da «mainland», beneficiários dalguma bolsa de estudo. Em geral, alunos muito aplicados, capazes de trabalho muito duro, diversamente da grande parte dos seus homólogos ocidentais que encontrei e encontro nos cursos de Portugal. Têm geralmente objectivos muito pragmáticos a atingir e, salvo raras excepções, não se interessam por questões abstractas. Mas encontrei, com frequência, um fascínio pela América que me surpreendeu, sobretudo, por parte das mulheres. Pareceu-me que a atracção vinha não tanto do sonho de enriquecimento mas antes da utopia da plena liberdade individual, associada ao «American dream».

Assisti às cerimónias oficiais da transmissão de poderes das autoridades portuguesas para as autoridades chinesas, em Dezembro de 1999. Foi uma ocasião, paradoxalmente, para voltar a estar perto de figuras variadas e destacadas da cena política nacional, como Jorge Sampaio, Ramalho Eanes, Mário Soares e Cavaco Silva. Foi curioso vê-las juntas num minúsculo território chinês em cerimónia crepuscular da expansão de Portugal no mundo.

O beijo dramático da bandeira nacional pelo derradeiro governador português do território, bem caricaturado no South China Morning Post, principal diário de Hong Kong, seguido dos escândalos que foram amplamente divulgados na imprensa nacional e internacional, ficará possivelmente na história da presença portuguesa em Macau. Apesar de tudo, esta merecia final mais sério do que isso.

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