O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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As Ilhas Naufragadas do Cabo Verde

A umas poucas centenas de quilómetros do Cabo Verde, na costa africana, ao norte da Guiné Bissau, fica um arquipélago que, segundo consta, se encontrava deserto quando os portugueses pela primeira vez lá desembarcaram, em meados do séc. XV. Hoje são nove ilhas habitadas, sendo a de maior população a ilha de Santiago, onde está a capital, a cidade da Praia. Cada uma das nove ilhas é um microcosmos diferente, quer nas características do meio natural quer na sua cobertura humana. Do vulcão do Fogo, que atinge três mil metros de altura, e da aldeia de Chã das Caldeiras, no sopé do cone do vulcão, com os seus louros habitantes descendentes dum francês exilado, sobrando-lhe tempo e mulheres para fazer filhos, às dunas e praias desérticas da Boavista, cercadas duma transparente água verde e azul, onde passam peixes voadores, à geometria acolhedora da cidadezinha do Mindelo, com os seus cafés e botequins, ao relevo escarpado de Santo Antão, ao grandioso e austero seminário da Ribeira Brava em São Nicolau, são ambientes físicos e humanos bem diferenciados que surpreendem o viajante.

Nos mares circundantes podemos encontrar fauna variada que inclui atuns, badejos, lagostas, tartarugas e tubarões. Os tubarões aparecem nas praias aos fins de tarde, e não são todos ruins, conforme me explicou um dia um perito da ONU na matéria. Mas um leigo, como eu, tem com os tubarões a mesma dificuldade que encontro nas pessoas: é difícil avaliar uns e outras só pelo aspecto; em suma, é preciso conhecê-los de perto, o que implica correr grandes riscos, certamente desnecessários, a menos que se pretenda algum proveito do tubarão, da sua carne, dos dentes ou barbatanas. Mas nunca pretendi tais coisas. Ou melhor: comi de facto carne de tubarão (que pode ser cozinhada como se fosse bacalhau), mas não necessitei de correr grandes riscos para tanto; comprei a carne já preparada, em embalagem onde se explicava como servi-la.

Uma vez, numa praia da Cidade Velha, vi pescadores arrastarem para terra uma enorme tartaruga viva que, segundo me disseram, deveria ter mais de duzentos anos de idade. Foi curiosa a sensação de encontrar uma criatura viva que provavelmente já o seria ao tempo da Revolução Francesa. Mas quem poderá saber o que se guarda na memória duma tartaruga na terceira idade?

Além do mais, diferentes trajectórias tradicionais de emigração - por exemplo. Portugal, Holanda ou América do Norte - acentuam aquela diversidade das ilhas de Cabo Verde.

A Cidade Velha, não muito longe da Cidade da Praia, foi a primeira capital do território e as ruínas que podemos ainda hoje lá encontrar testemunham o que foi a génese, a ascensão e a decadência do arquipélago no contexto da expansão portuguesa iniciada no séc. XV. Documentos importantes para a história dessas remotas ilhas foram publicados na revista Raízes que foi carinhosamente dirigida por Arnaldo França, durante anos também Secretário de Estado das Finanças e de cuja amizade pude beneficiar nos tempos em que residi no arquipélago. Dele aprendi muita coisa sobre Cabo Verde e sobre a Cidade Velha, que várias vezes frequentei, sempre fascinado pelos traços dos passados recentes e remotos que ali se podem encontrar.

Entre esses traços, encontram-se grandes pedras tumulares oriundas de séculos passados ostentando nomes ilustres que por isso mereceram tais pedras, jazendo nesta cidade tão velha como mortuária.

A Cidade Velha foi um porto frequentado pela navegação portuguesa à ida e à volta das suas rotas pela África e pelas Indias e, em determinado período, funcionou como um elo fundamental do tráfico de escravos provenientes, sobretudo, da Guiné e destinados à Europa ou à América. Foi ponto de escala nas viagens para as "Indias Ocidentais", isto é, a América, enquanto a técnica da navegação marítima de então, em função dos ventos predominantes mais favoráveis, assim o exigia. A navegação passou a fazer-se directamente da costa para a América, a partir de meados do séc. XVII, ficando desde então o arquipélago praticamente abandonado à sua sorte, naufragado em pleno Atlântico.

Cabo Verde - mais precisamente a ilha de S. Vicente que só no séc. XIX é efectivamente "descoberta" - volta a ter alguma importância estratégica na primeira metade do séc. XIX, quando a marinha inglesa necessita dum porto como São Vicente para o reabastecimento da sua frota. A cidade do Mindelo, ainda hoje, é uma pequena urbe portuária desembarcada do oceano, sem grande integração com as outras ilhas de Cabo Verde. O "interior" de S.Vicente, ilha desprovida de recursos hídricos, é um terreno árido que conduz à Baía das Gatas, um cenário verdadeiramente lunar mas nada romântico. Salamansa era uma aldeia triste e miserável perdida nesse interior, na altura que por lá passei algumas vezes, ao mesmo tempo surpreso e curioso por encontrar seres humanos em condições ambientais tão degradadas e distantes do que consideramos mínimo indispensável à subsistência física e psíquica do homem. Mas a história do homem e, sobretudo, da mulher caboverdeana parece conter esse segredo: o da capacidade de sobrevivência da nossa espécie nas condições mais adversas.

Estas circunstâncias explicam a surpreendente densidade de igrejas e capelas no espaço tão exíguo da Cidade Velha: os que, contra a sua vontade, por ali transitavam em grande número, precisavam com urgência de salvar as suas almas, já que os correspondentes corpos seriam consumidos em pouco tempo. Alguns escravos negros fugiam, todavia, e escondiam-se no interior da ilha, justificando a designação de "badios" (termo possivelmente derivado de "vadios") por que ficaram conhecidos os habitantes do interior da ilha de Santiago; eles explicam também a coloração mais escura do caboverdeano de Santiago, em relação às outras ilhas.

Mas a Cidade Velha albergava também, por vezes, navios de piratas que não hesitavam em saquear o que por ali houvesse para roubar. A enseada em que desemboca a ribeira e o vale, em cuja vizinhança a cidade foi construída, sugere um cenário de Hollywood para histórias de veteranos corsários barbudos e de pala no olho mas, quando necessário, ainda temíveis espadachins. Uma fortaleza, no alto da colina sobranceira à pequena enseada, não terá sido suficiente para evitar o periódico saque da povoação. Daí que a capital transitasse para o sítio alto e plano, distante uns bons quilómetros da Cidade Velha, mais fácil de defender de invasores, hoje conhecido por "plateau", localização muito menos interessante que a da velha antepassada.

Cabo Verde é, pois, um daqueles pontos do planeta que ficaram como testemunhas dum processo de mundialização conduzido pelos portugueses e, depois, pelos ingleses e que sofreram, dalgum modo, as vicissitudes desse processo. Como a ilha de Moçambique, Goa ou mesmo Macau.

Mundialização, aliás, que se foi em tempo histórico remoto conduzida por portugueses é hoje globalização, já em tempo conduzido por americanos, embora por vias e meios muito distintos dos intrépidos navegadores nossos antepassados.

Uma característica notável do país reside, pois, na exiguidade dos recursos naturais, agravada pelas características do clima, circunstância que explica a longa crónica de miséria, fome e abandono que é a tónica dominante da história de Cabo Verde.

(Esta contrasta com a de São Tomé e Príncipe, outro arquipélago onde estiveram os portugueses, mas situado bem ao sul, sobre a linha do Equador. Aqui a natureza foi pródiga, até ao ponto de criar uma árvore cujo fruto, que eu provei, se pode legitimamente chamar "fruta pão". Roças, algumas belas casas senhoriais, escravos, rosas de porcelana, café e cacau (sobretudo este) dizem o essencial da crónica são-tomense no tempo colonial; do tempo pós-colonial não há muito de novo e positivo para relatar, até por o arquipélago dalgum modo também sofrer consequências da tragédia angolana)

Mas, por contraste, a história do povo caboverdeano é sobretudo uma história impressionante de combates, muitas vezes bem sucedidos, de homens e mulheres, no país e nos muitos destinos da emigração, pela sobrevivência e o desenvolvimento pessoal. No tempo colonial, os caboverdeanos, até pelo seu nível de instrução relativamente elevado, desempenharam muitas vezes um papel de quadros intermédios, entre a administração portuguesa e as populações das colónias. Nos períodos em que residi no arquipélago, trabalhando em programas de assistência técnica para organismos da ONU, pude conviver com homens e mulheres de Cabo Verde, de todos os níveis sociais, e desenvolver uma particular relação afectiva com esse povo, tal como o mais jovem dos meus filhos que aí concluiu o curso liceal e se vocacionou para os estudos de antropologia que depois desenvolveu.

E, se compararmos o desempenho económico e político do jovem estado de Cabo Verde, desde a independência, com as outras antigas colónias portuguesas em África, a comparação é-lhe largamente favorável. Basta notar que é um caso em que o movimento de libertação nacional, transformado em partido governamental depois da independência, aceita com naturalidade a perda do poder por via dum resultado eleitoral e regressa ao poder, pela mesma via, cerca de dez anos mais tarde.

Por ironia do destino, encontrava-me em Cabo Verde em Novembro de 1980 como director dum projecto de assistência técnica da UNCTAD cujo objectivo principal era apoiar a integração económica entre a Guiné Bissau e Cabo Verde. Na altura, o poder era detido formalmente pelo PAIGC, fundado por Amílcar Cabral, partido que visava a integração económica e política dos dois países, uma vez vencida a luta pela independência. No dizer de Manuel Santos (conhecido popularmente por Manecas) combatente da luta de libertação e depois várias vezes ministro em Bissau, a "verdadeira independência só viria pelo desenvolvimento económico", sendo a independência política apenas um primeiro passo. Mas em 14 de Novembro de 1980, Nino Vieira fez um golpe de estado em Bissau, destituindo Luís Cabral da Presidência e separando os dois países, que passaram a seguir cursos independentes.

Não creio que essa segunda "independência política" tenha beneficiado o desenvolvimento económico de qualquer das partes. Não beneficiou certamente os guineenses.

Recordo ainda a surpresa dos jovens e idealistas militantes caboverdeanos de Santo Antão quando souberam pela rádio do golpe de Nino Vieira, em 14 de Novembro de 1980. Pediram-me explicações, que não soube dar. Tal como eu, não podiam prever o destino que a política tomaria em Bissau, muito distante do projecto sonhado por Amílcar Cabral.

Mas a História não é apenas feita por ditadores e golpes de estado. Há movimentos mais profundos, também menos evidentes, que exigem tempo de amadurecimento nos factos e na consciência que deles vamos construindo.

Há vinte anos, no período da ruptura do PAIGC, o meu estatuto de funcionário da UNCTAD responsável dum projecto de assistência técnica aos dois países em causa, permitiu-me viajar duma para o outro sem dificuldade e servir dalgum modo de mensageiro entre caboverdeanos e guineenses das minhas relações. Foi, na prática, um pequeno curso aplicado de sociologia política que então frequentei. Na altura, conclui que a política não é de todo redutível à economia e que a sua problemática profunda tem complexidade só comparável à da natureza humana.

Como, claro, alguns de há muito sabiam, entre eles Shakespeare.

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