O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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A Perestroika em Maputo

Pelos finais dos anos 80 encontrei-me frequentes vezes em Maputo e estive algum tempo como professor visitante na Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane.

O período corresponde ao climax da Perestroika na então URSS e foi interessante observá-la dum país africano que, na altura, parecia seriamente empenhado nalguma forma "apropriada" de construção do socialismo. Além de que, no plano internacional, o país tentara - aliás, sem êxito - uma forma de associação ao COMECON, isto é, a integração no sistema socialista de cooperação económica.

O campus da Universidade, construído nos finais do tempo colonial, está localizado nos arredores de Maputo num sítio alto e de bonitos horizontes sobre a cidade e a ampla bacia circundante. Eu ficava instalado numa moradia da universidade no distinto bairro de Sommergilde e divertia-me olhando os nomes das ruas e avenidas da cidade, de amplo espectro ideológico, desde D. Luis a Karl Marx, Kim Il Sung, Mao ou Julius Nierere. Por vezes, nos fins de semana, palmilhava as longas avenidas de traçado geométrico e ia tomar a bica ao Café Continental, na Baixa da cidade.

Como fizera, algumas décadas atrás, no Café Nicola da Baixa de Lisboa.

Também gostava de visitar a estação central de caminhos de ferro, de excelentes e belas madeiras revestindo o edifício de traçado monumental. Mas os raros comboios não tinham tão bom aspecto e exibiam numerosos buracos de balas. Os poucos passageiros que um dia avistei, como que esquecidos no interior duma carruagem em péssimo estado, estacionada na estação, exemplificavam o subdesenvolvimento africano de forma mais eloquente do que o melhor relatório elaborado pelo Banco Mundial.

Outras vezes ia vagabundear pelo Bazaar, o mercado central, ou menos frequentemente atrevia-me a circular pelo mercado mais autêntico e popular de Xipamanine. Neste, além do mais, poderíamos encontrar remédio tradicional para todas as doenças do espírito ou do corpo. Ou, mais prosaicamente, sermos roubados e perdermos a carteira.

Noutras ocasiões, quedava-me pelo Hotel Polana, típica e elegante construção dos anos 20, e personagem dum dos últimos romances de Graham Green, "The Human Factor". Aí se encontraram o espião inglês comunista e a jovem sul-africana militante anti-aparteid, protagonistas do romance, antes de se separarem para sempre. Em que outro sítio poderiam ter-se encontrado, tão definitivamente?

O Hotel, com efeito, era e é belo cenário para uma história romântica que, como sabemos, pode ocorrer em sociedades de qualquer nível de desenvolvimento económico, desde que o respectivo "desenvolvimento humano" esteja acima de zero. E aí também imaginamos, sem dificuldade, cenas de «Tender is the night» de Scott Fitzgerald naqueles terraços e salões, a borbulhar de História e de histórias, ou mesmo no elevador arcaico, mas seguro e digno, cheio de ferragens e peças respeitáveis que remontarão se não à Primeira, certamente à Segunda Revolução Industrial.

Ao longo dos anos, o Hotel teve altos e baixos como o próprio país, mas encontra-se hoje em excelente forma, o que infelizmente não se pode afirmar de Moçambique. Muita coisa pode aí acontecer, como por exemplo, e apenas falando por mim, ser entrevistado pela cadeia televisiva norte-americana CNN ou até conversar um pouco com um solitário Ministro da Defesa de Portugal, que não é tão acessível em Lisboa, como facilmente se compreende.

Ora, na Universidade de Maputo, tinha dois tipos de alunos: os que frequentavam normalmente a licenciatura de Economia; aqueles, mais velhos, que por decisão da Frelimo haviam há anos interrompido os estudos, para tarefas militantes na reconstrução do seu país e agora regressavam à universidade para completar os respectivos cursos.

Neste segundo grupo tive ,como alunos, passados ou futuros membros do Governo, pilotos da aviação militar e altos funcionários da administração pública. No outro grupo, na altura, tive sobretudo alunos moçambicanos brancos ou mulatos, já que o tempo colonial não dera aos negros muitas oportunidades de cursar estudos universitários.

Eram jovens inquietos intelectualmente e ávidos de respostas para as muitas interrogações que o mundo à sua volta, em momento de tumultuosa viragem, lhes despertava no espírito.

Pelo meu lado, comparava-os mentalmente com as turmas de filhos de "retornados" de África que encontrara nas minhas aulas do ISCTE, anos antes em Lisboa, por volta de 1975 e 76. Não eram muito diferentes, como seria de esperar. Quer num caso, quer noutro, muitos deles viriam a ser bons gestores e mesmo bem sucedidos empresários. Coisa que não estaria nos planos da maioria, quando se sentavam à minha frente para me ouvir discursar sobre Economia.

Mantive boa amizade com alguns desses jovens, ao longo dos anos, e voltei a encontrar uns poucos deles, recentemente, agora como meus alunos dum curso de mestrado em Gestão a decorrer em Maputo. Dez anos entretanto decorridos e intensamente vividos, de parte a parte, com muito a contar... tentando compreender tudo, em retrospectiva; ou pelo menos, buscando o entendimento possível dum passado tão acidentado como esfíngico.

Soube, com tristeza, que um jovem brilhante, que fora simultaneamente meu aluno e assistente em Maputo há uma dúzia de anos, morrera entretanto vítima de sida. A sobrevivência humana, em todos os sentidos, continua precária nestas paragens, mesmo em tempos oficialmente considerados "de paz".

Mas foram aulas particularmente interessantes, vivas e participadas. Porque, em tempo de Perestroika na URSS, com tudo o que isso significava de questionamento das experiências do chamado socialismo real, o dogmatismo oficial estava quebrado e a discussão aberta era possível.

Ouvi queixas amargas sobre os métodos de ensino dos professores russos e alemães da RDA que ensinavam economia, bem apoiada nas teses do materialismo histórico. Em particular, ensinavam a pretensamente científica, na realidade bem metafísica, teoria do valor trabalho, fundamento da interpretação marxista da exploração capitalista do trabalho humano.

Procurei explicar-lhes que a dita exploração pode ser bem real, sem que aquela teoria seja "verdadeira" em nenhum sentido cientificamente preciso. Acrescentando eu que - já se vê - cada um é livre de escolher os dogmas em que prefere acreditar, sejam os da versão popular (no sentido de versão servida ao povo) do materialismo histórico ou, por exemplo, os da versão popular do catolicismo romano, também histórico e apostólico, mas noutro sentido.

Mas encontrei também professores válidos e interessantes, oriundos do "socialismo real". Um deles, jovem economista, chamado Suslov, inquietava-se inteligentemente sobre o destino final da Perestoika desencadeada por Gorbachov. Tivemos longas conversas sobre o tema e Suslov tinha razão na sua inquietação, como se viu mais tarde. Ainda uma vez tive notícias dele, provenientes da Ucrânia, onde se tornou vice-governador do Banco Central. Mas perdi-lhe o rasto, desde então.

Por esse tempo, em todo o caso, o mais divertido foi participar nas reuniões de professores da Faculdade de Economia para promover a necessária e oportuna revisão curricular das licenciaturas.

Em tempo de tão inesperadas e perturbadoras transições, como ensinar Economia? No fim de contas, uma vez mais seria a prática económica a ensinar os professores e não o contrário, pobres de nós.

Discutiam-se questões como as seguintes:

Devem continuar a figurar no plano de estudos dois cursos semestrais intitulados Transição para o Socialismo I e Transição para o Socialismo II?

Ou bastará apenas o curso I?

Ou será melhor optar por nenhum?

Na realidade, tornava-se antes necessário um curso de direcção contrária, isto é, sobre "Transição do Socialismo para o Capitalismo" ou, em versão mais estilizada, sobre "Transição para a Economia de Mercado". Mas de qualquer forma, deveria ser difícil encontrar alguém preparado para ensinar tais matérias. Ao tempo, não havia nem teoria nem prática sobre as "Economias em Transição", vindas do socialismo em direcção ao capitalismo, ambos "realmente existentes".

Mas viver em Maputo, nessa altura, quando havia ainda guerra com a Renamo, era como viver numa ilha, e não apenas em termos de isolamento intelectual. Por terra, não se podia ir muito além dos arredores de Maputo. E por avião, saltava-se duma ilha para outra ilha, isto é, para outra cidade, mais ou menos isolada do resto do país.

Como fizemos uma vez, em viagem de curso, num avião militar turbo-hélice, um Antonov de fabrico soviético, tripulado por um oficial piloto que ao mesmo tempo frequentava o meu curso de Economia. O avião não tinha muitas comodidades, apenas dois bancos corridos, ao longo da fuselagem, próprios para transportar soldados ou paraquedistas. Tive companheiros inesperados na viagem, entre eles, à ida, um celebrado cantor popular e, no regresso, alguém que não recordo mas que transportava um enorme peixe defunto, que ficou a meu lado, com o correspondente odor.

Assim fomos a Inhambane, cidade sossegada de construção muito portuguesa e daí até à excelente praia do Tofo, onde além do mais vi ossos humanos, guardados e exibidos pela Frelimo em homenagem aqueles moçambicanos combatentes da libertação nacional que, naquele local, a Pide torturara até à morte. Ficavam amarrados na falésia, junto ao mar, esperando que a maré enchente lentamente os afogasse. A menos que "confessassem" aquilo que os homens da Pide queriam ouvir.

Podia-se, é certo, conduzir o carro em Maputo alguns quilómetros pela marginal e ir almoçar ou jantar ao restaurante do grego, junto à praia. Dava, pelo menos, para apreciar os tons do crepúsculo nas vizinhanças do Indico ou apreciar vistosas trovoadas ocorrendo ao mesmo tempo em nuvens altas, de formato variado, em distantes pontos do firmamento.

Tal passeio, embora curto, era agradável, dava-nos alguma profundidade de campo, mas já seria perigoso atravessar a ponte e ir até uma próxima aldeia de pescadores.

E do terraço do hotel Cardoso, onde alguns hóspedes de pele bem ocidental se bronzeavam junto da piscina, podia avistar-se o fumo das explosões nos combates que, por vezes, ocorriam bem perto da capital. Mas, mesmo na cidade de Maputo, havia atentados contra figuras políticas mais destacadas na luta contra o regime do aparteid que vigorava na vizinha África do Sul. Como Ruth First, investigadora do Centro de Estudos Africanos, assassinada por meio duma carta armadilhada.

O Centro era então dirigido por Aquino de Bragança, intelectual de origem indiana, figura inteligente e enigmática que, ao que dizem, tinha grande influência sobre Samora Machel. Os dois faleceram no acidente (ou atentado) que fez cair o avião em que viajavam, já perto de Moçambique, no local onde hoje existe um original e espectacular monumento, concebido pelo notável arquitecto e intelectual moçambicano José Forjaz, director da Faculdade de Arquitectura de Maputo. Conheci o arquitecto da primeira vez que fui a Maputo e sempre que lá volto procuro encontrá-lo, pois é uma daquelas raras pessoas cujo convívio é precioso.

Da primeira vez que fui a Moçambique, em 1984, fui convidado precisamente por Aquino de Bragança (que conhecera em Lisboa) para fazer uma conferência no anfiteatro da Faculdade de Medicina. Percebi, no local, que se estava em período de viragem na política moçambicana e que eu - entre outros - servia a Aquino de Bragança para tatear caminhos alternativos.

Depois duma breve apresentação, fiquei só na mesa, defrontando um público numeroso e desconhecido e, por momentos, senti-me como que fazendo perigosos exercícios, sem rede, no trapézio voador.

Mas acabou por tudo correr bem e, no final da palestra, os meus únicos adversários na argumentação foram alguns portugueses zelosos do PCP, cooperantes em Moçambique que consideraram necessário marcar bem as diferenças, tarefa que de algum modo me agradou, embora por razões diferentes dos meus opositores.

Por outro lado, compreendi que Portugal, em todos os sentidos, estava bem mais longe de Moçambique do que de Angola. E que a política portuguesa parecia presumir a existência necessária de relações especiais entre os dois países, existência que só poderia justificar-se não por razões históricas, mas por eventuais interesses comuns que teriam de ser claramente identificados.

Ainda tive ocasião de visitar algumas cidades da África do Sul, em época de transição, antes do fim do aparteid. Viajar por terra de Moçambique até à África do Sul ainda é, hoje, uma experiência com alguns riscos mas cheia de ensinamentos. As infraestruturas dos dois países não são comparáveis e, fazendo a experiência, percebe-se o fosso que os separa em termos de desenvolvimento. Sobre Moçambique basta recordar, neste aspecto, o seguinte.

A capital está localizada no extremo sul duma configuração geográfica de orientação predominante Norte-Sul. Contudo, não existe uma ligação rodoviária satisfatória do extremo norte ao extremo sul do País. O que é reconhecer que a integração económica interna do País está literalmente por fazer, um quarto de século depois da independência. Facto que também tem pesadas consequências sobre o grau de integração política dum estado embrionário.

Numa universidade de Joanesburgo (Wits), encontrei na fase final do regime do aparteid professores brancos, cordiais, abertos e procurando mostrar-se confiantes, mas não ocultando grandes preocupações sobre o futuro. Anos mais tarde, conheci em Maputo alguns membros do novo governo da ANC, timoneiros duma promissora fase da trajectória sul-africana. De espírito saudável e aberto, mas tendo dificuldade em conciliar a ideologia com a prática do exercício do poder, em tempo de tão profunda transição.

Uma vez mais encontrei o tipo de pessoas e de estado de espírito que conhecera em outras primaveras, Portugal em 1974 e a Rússia em 1989: grandes esperanças, grandes ingenuidades e um futuro tão desejado como "realmente" desconhecido para aqueles que o tinham aberto. Em qualquer sítio e em qualquer tempo, é arriscado avançar, já sabemos. Mas é isso, ao que parece, que a humanidade tem vindo a fazer, em longa e dolorosa caminhada.

Humanidade que, afinal, como cada um de nós, só se faz, fazendo-se.

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