O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Chorando por Angola

Foi nos começos dos anos 80 que estive pela primeira vez em Angola, numa curta passagem por Luanda. Fomos directamente do aeroporto para o hotel Panorama, situado na restinga em frente da cidade, que daí podemos defrontar em visão panorâmica, como seria de esperar. Fiquei surpreendido por aquela primeira visão global duma cidade moderna - assim parecia, àquela distância - de grandes edifícios, complexas infraestruturas portuárias e ferroviárias, enfim, construções que sugeriam avançada industrialização e também consideravel "desenvolvimento económico".

A primeira refeição que tive no Panorama - com boa vontade classificada de almoço - já teve muito de insólito. O distinto "maître" português que circulava pelas mesas, chamado Cintra (conforme se apresentou, sublinhando sê-lo com c e não s) fazia de conta que havia abundância de menu, o que rapidamente se verificava não ser de todo verdade. Mas, naquele tempo, ainda havia preciosos vinhos na garrafeira, mesmo que apenas servissem para acompanhar um peixe frito irremediavelmente terceiro-mundista.

A visão idílica de Luanda desfez-se, definitivamente, quando transitei do hotel à real cidade. Então pareceu-me que alguns seres extra-terrestres teriam um dia passado por ali, depositado aquela pesada infraestrutura e partido de novo, em disco voador.

Os elevadores não funcionavam de todo, ou faziam-no com grande dificuldade e iminentes riscos. Não parecia haver esgotos; lixo e toda a espécie de detritos acumulavam-se nos passeios e o odor ambiental tornava-se, por vezes, insuportável.

Quando se procurava o contacto com a administração pública, era difícil marcar encontros e mais dificil realizá-los, mesmo agendados.

Uma vez, em fim de tarde, procurando o então Ministro do Plano, nos vastos corredores do que fora o Palácio do Governador, abri inúmeras portas que davam para salas vazias, como em sequência dum filme policial de Hitchcok até que finalmente encontrei o solitário Ministro que parecia ser o único funcionário em exercício.

Este relato não é fruto duma saudade do tempo colonial, que aliás não conheci directamente. De certo modo, é ainda uma crítica desse tempo em Angola, pois não abriu passagem para outro e melhor que superasse aquele. Mas não é minha intenção dissertar aqui sobre colonialismo, imperialismo ou neo-colonialismo. Apenas relatar experiências vividas.

Não guardo boas recordações de Luanda, a não ser as oportunidades que tive de voltar a encontrar, então como Cardeal e Arcebispo de Luanda, aquele homem bom que eu conhecera em Lisboa como padre Alexandre Nascimento, exilado em Portugal pelo regime colonialista português. Eu tinha sido convidado para participar num colóquio sobre um tema económico qualquer. Chegado a Luanda cerca das cinco da manhã, não encontrei ninguém no aeroporto à minha espera. Por outro lado, as bagagens só foram desalfandegadas duas ou três horas mais tarde, por ausência do respectivo pessoal; se eu bem percebi das explicações que mais tarde procurei, um turno de trabalhadores tinha saído um pouco cedo de mais e o seguinte chegado um pouco tarde de mais.

Dois poucos podem, juntos, fazer muito, como se sabe.

Com a mala já recuperada, hesitei sobre se deveria tomar o próximo avião de regresso a Lisboa; mas a vontade de voltar a encontrar o meu velho amigo e confidente Padre Nascimento fez-me permanecer. Telefonei-lhe do aeroporto, explicando a situação e fiquei finalmente alojado nas instalações episcopais. Quando voltei a vê-lo naquela manhã - após cerca de vinte anos de intervalo! - foi como se retomássemos uma conversa interrompida na véspera. Falámos dos amigos comuns (de Nuno Bragança, Pedro Tamen e João Cravinho, em particular) mas não discutimos política nem religião. Como se isso, no fundo, contasse menos do que a amizade entre duas pessoas.

Pareceu-me que, ao contrário dos outros que eu imaginara ao chegar a Luanda, aquele era um verdadeiro e admirável extra-terrestre, todavia estranhamente nascido em Angola.

Mas não esperava encontrar tão extensas e modernas instalações industriais nos arredores de Luanda, quase todas paradas depois da independência. Uma fábrica de óleos que visitei e ainda funcionava, embora muito abaixo da sua capacidade, tivera de alargar a esfera da sua actividade a coisas como o transporte e alimentação dos seus trabalhadores, a reparação das suas viaturas, etc. Pagavam ao pessoal em sabão, coisa bem mais fiável do que a moeda nacional, o kwanza. Na linguagem profissional do economista, podemos dizer que se multiplicavam as "deseconomias externas" da actividade industrial.

Cheguei a propor a um ministro angolano da Indústria a negociação de um acordo com industriais portugueses para recuperação daquele parque industrial, ideia que lhe pareceu aceitável, mas que não teve seguimento por falta de condições políticas favoráveis por parte dos dois governos em causa. Apercebi-me então do grande paradoxo dos últimos tempos do colonialismo português em Angola - e também, mas em menor escala, em Moçambique: a guerra começara praticamente ao mesmo tempo que um surto de crescimento económico sem precedentes naqueles territórios, e também sem seguimento depois das independências.

Encontrei, nos anos seguintes, grandes edifícios inacabados, de construção portuguesa, em Luanda, Malange, Lubango (antiga Sá da Bandeira), Maputo, Beira…que nunca foram concluídos. Vendo tais monumentos perdidos da presença portuguesa em África, era como se olhasse um filme que inesperadamente tivesse sido cortado, deixando imobilizadas no écran algumas estúpidas figuras. Já ninguém se interessava por saber donde tinham vindo e para onde desejariam ir tais criaturas.

Tive, todavia, uma estadia bem agradável e tranquila no Lubango, para fazer um curso de Economia para quadros que na altura trabalhavam na planificação regional. Como, antes, também me entusiasmara ao coordenar a equipa pluri-disciplinar portuguesa que preparou um plano de desenvolvimento para a região de Malange, quando Lopo de Nascimento era Ministro do Plano. Durante o tempo de preparação do plano, visitei várias vezes a região de Malange.

O governo angolano tinha decidido considerar certas regiões como prioritárias em termos de política económica e concentrar nelas os melhores quadros do País. Malange era uma delas e, nos primeiros tempos, as reuniões que tivemos com esses quadros angolanos foram saudáveis, construtivas e mobilizadoras.

Aliás, reuniões dum tipo que nunca consegui encontrar em Luanda.

Entretanto, apercebi-me de várias coisas importantes para compreender Angola. Uma delas: a existência dum conhecimento português sobre o país que era (deveria ser) precioso para os angolanos senhores do seu destino, mas que se iria perder dentro em breve.

O melhor exemplo disso veio-me dum homem tranquilo e admirável, de nome Castanheira Dinis, qualificado engenheiro agrónomo, especialista em solos, e que integrou a nossa equipa do plano de Malange. Os próprios angolanos reconheciam que o eng. Castanheira Dinis conhecia o país, palmo a palmo, com os pés bem assentes no chão, como mais ninguém. Na realidade, existia em Portugal um conhecimento sobre África, ao menos no domínio das ciências agronómicas, que teria sido precioso para o deenvolvimento pós-colonial, se este tivese sido possivel em Angola, Moçambique ou Guiné Bissau, o que infelizmente não foi, até à data. O mais grave, porventura, é que grande parte desse conhecimento não está codificado, não é transmisivel, isto é, pertence à experiência pessoal de alguns e não irá perdurar para além das suas vidas.

Mas apercebi-me também doutra coisa: do absurdo sistema económico que surgia em Angola - como noutras ex-colónias africanas - e que se tornaria rapidamente uma engrenagem de subdesenvolvimento cumulativo, em lugar do tão longamente pretendido desenvolvimento. Neste aspecto, o caso de Malange é exemplar.

De início, o meu homólogo director do planeamento na região queixava-se da inércia burocrática de Luanda, onde entre outras coisas apodreciam tractores que seriam destinados para Malange. Mas, ao fim de cerca de dois anos, o desespero do meu interlocutor era total. Dizia-me que agora nem sequer mandavam de Luanda as fichas em papel inerentes ao controlo do processo de planeamento, tal como ele era regulamentado a nível central.

O resultado lógico de tudo isto só poderia ser uma espécie de autocentramento regional, na realidade um geral "salve-se quem puder", cada região do País procurando quanto possível tirar partido dos seus próprios recursos, sem qualquer projecto efectivo de integração da economia nacional.

De qualquer forma, quando terminámos o nosso inevitável "plano-relatório" cheio de boas intenções - como tantos que se fizeram na África por essa altura! - a tropa de Savimbi atacou Malange e a prioridade de desenvolvimento regional definida pelo Governo tornou-se uma piada de mau gosto.

Mas, para além da guerra, o sistema económico não poderia funcionar cabalmente mesmo em condições de paz. Recordo que uma vez em Malange, à mesa da residência do Comissário regional, onde nos encontrávamos instalados, conheci uma alta funcionária do Ministério das Finanças cuja principal missão consistia, aparentemente, em percorrer o país para assegurar o cumprimento dos preços tabelados. Estes preços eram obviamente fictícios, pois os preços reais resultavam do funcionamento do mercado informal. Aqueles preços só se aplicavam a uma relativamente pequena quantidade de bens, apenas acessíveis a alguns quadros e funcionários privilegiados, como era o caso daquela inspectora superior.

Apercebi-me que, na prática, ela utilizava a sua função para adquirir mercadorias aos preços tabelados e vendê-las aos preços do mercado livre. Mas fazia-o com a maior candura, sem culpa, nem pecado. Aliás, com a mesma inocência, verifiquei mais tarde, de membros da "nomenklatura" em Moçambique que, directa ou indirectamente, enriqueciam por meios menos lícitos como a venda nos "dumba nengue", mercados informais, da ajuda alimentar cedida gratuitamente ao país para ajudar as vítimas das guerras e calamidades naturais.

Entretanto, viajando uma vez de avião de Lubango para Luanda, e vendo e sentindo por todo o lado a presença encarnada de maçãs, verifiquei que era fácil cobrir o custo da viagem com o diferencial do preço das maçãs à partida do Lubango e à chegada a Luanda.

Por menos ortodoxo que fosse o economista profissional observador destas realidades, não podia evitar a indignação por tão grosseiras falsificações da mais elementar racionalidade na gestão de recursos escassos, dramaticamente tão escassos face às necessidades de uma população na sua grande maioria vivendo em condições sub-humanas.

Foi assim que actividades geralmente classificadas de "assistência técnica" me permitiram percorrer e conhecer parte importante de Angola e apreciar as esplêndidas condições climáticas do chamado planalto central de Angola. Fiz também, por exemplo, o percurso da extraordinária estrada projectada por Edgar Cardoso e que nos leva, através da imponente serra da Leba, da elevada altitude da cidade do Lubango até ao deserto do Calaari, Moçâmedes e o mar.

Ao deserto onde podemos encontrar a sinistra e rastejante planta Welwitchia Mirabilis que se alimenta de insectos e me fez lembrar Jonas Savimbi. Aos portos de Moçâmedes e Tombwa (antigo Porto Alexandre) que pareciam além do fim do mundo na altura em que os visitei, no princípio dos anos 90. Por esta altura realizaram-se as primeiras eleições democráticas em Angola e eu estava no Lubango quando Savimbi por lá passou, em campanha eleitoral. Críamos que a guerra tinha definitivamente terminado e pela primeira vez depois da independência podia-se circular por terra, sem problemas de segurança, por todo o território. Havia grandes esperanças nos melhores angolanos que conheci e o futuro do país parecia, finalmente, risonho.

Mas o pior estava para vir.

Conheci pouco de Angola mas o suficiente para, no fim de contas, partilhar um pouco da grande tragédia que tem sido a crónica angolana nas últimas décadas. Uma dotação tão generosa de recursos naturais para uma população de relativamente reduzida dimensão, no entanto vítima de um implacável processo de regressão económica, social e humana.

Até quando?

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