O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Cumeré ou o deus inexplicado

Não muito distante de Bissau, há uma aldeia chamada Cumeré, onde nos anos a seguir à independência, no final dos anos 70, foi construido um importante «complexo industrial» destinado ao descasque de mancarra (amendoim) e produção de óleo e sabão. A construção do complexo foi decidida sem estudo prévio, embora mais tarde tivesse sido encomendado pelas autoridades do País um relatório para justificar.o que já ali estava.

É possivel que tenha havido corrupcção dos decisores por parte dos italianos construtores daquela maravilha «chave na mão», mas também é possível que tivesse jogado a favor o ingénuo voluntarismo industrialista da época. Um «complexo» subjectivo a justificar outro «complexo» mais objectivo.

O dito complexo pesadamente objectivo, que eu saiba, nunca chegou a funcionar, pelo menos até 1987, o último ano em que estive na Guiné Bissau. Fiz do local meu destino de peregrinação obrigatória, durante a dúzia de anos em que me desloquei com frequência à Guinê Bissau, quase sempre em missões de assistência técnica no âmbito de projectos ou programas da ONU.

Ao longo dos anos, as instalações foram-se degradando, tal como o vestuário do guarda das ditas, com o qual mantive relação amistosa nessas visitas desgarradas (guarda que me dava a impressão de estar sempre ali à minha espera, talvez por míngua de outra coisa para esperar) enquanto o mato à volta da fábrica reconquistava os seus naturais direitos de antiguidade, fugazmente ameaçados pela moderna construção. Esta ficou-me como símbolo dum «complexo», ou dum deus inexplicado, próprio da época e que muito influencionou os primeiros anos das independências das ex-colónias portuguesas em África. E não só, como lembrarei a seguir.

Em parte, o fenómeno resultava do aparente êxito do modelo soviético de desenvolvimento económico baseado na indústria pesada e na planificação centralizada, com relativa introversão do sistema económico, isto é, de limitada abertura às relações económicas externas com países capitalistas. Os economistas mais ou menos académicos deliciavam-se (e eu também me diverti com isso) no estudo do chamado «modelo Feldman-Mahalanobis» que mostrava como poderia recompensar crescer mais devagar nos primeiros anos, e concentrar esforços no investimento, em detrimento do consumo, para ser «recompensado» a longo prazo com uma trajectória de «verdadeira» industrialização baseada nas indústrias produtoras de bens de equipamento e não apenas em indústrias ligeiras, literalmente, de trazer por casa, produtoras de objectos um tanto ridículos, dir-se-ia, como camisas, sapatos ou... conservas de sardinha.

Nesta mesma ordem de ideias, compreende-se que a Citroen tivesse também instalado na Guiné Bissau, pela mesma época, uma «fábrica» de montagem de automóveis Nhaye (não estou certo da correcção da minha ortografia) com o famoso motor de 2CV, que se pensava poder exportar carros para outros países africanos. Cheguei a conduzir um desses veículos, coerentemente com o meu papel de então - director dum projecto de assistência da UNCTAD à Guiné e a Cabo Verde - e não tive problemas de maior, além de ter verificado, ao conduzir o veículo pela primeira vez, à saída da fábrica, que o carro não travava, por se terem esquecido na montagem de colocar certas placas. Considerando que a grande parte do país é plana e que a minha expectativa sobre o veículo também não era excessiva, para começar, não foi mau.

Claro que se podia defender este ponto de vista sobre estratégias de industrialização sem partilhar teses do materialismo histórico ou dialéctico. Mas tudo reflectia uma conjuntura ideológica mais geral e profunda que, no fim de contas, também se manifestou em Portugal ao tempo de Caetano e até de Salazar, por estranho que pareça, embora com contornos folclóricos nacionais.

Ao tempo de Salazar, embora sem sinais de profunda sintonia entre os dois homens, o clarividente Engenheiro Ferreira Dias, que foi ministro da Economia, escrevia um ensaio muito louvado, intitulado Linha de Rumo onde defendia certa estratégia de industrialização para o país e afirmava, a certa altura (cito de cor) «que um país sem uma siderurgia, não é um país é uma horta». (Se assim é, nos alvores do Séc. XXI, eis-nos regressados a um idílico estado «hortícula»!)

E é bom lembrar que também se faziam planos de investimento em Portugal, embora de seis anos, para não se confundirem com os planos quinquenais soviéticos. E que, na chamada «primavera marcelista», foi também tempo de grandes complexos industriais, como o de Sines, que se esperava desencadearem efeitos de arrastamento na economia portuguesa, tal como o de Cumeré na economia guineense.

Dirá o leitor que estou a forçar a nota, e que não haveria verdadeiramente nada de comum nestas diversas experiências. Julgo, ao contrário, - ao lado, certamente, de enormes diferenças políticas, económicas e culturais - que havia algo importante de comum que passo a descrever:

Cito três pontos importantes: a ideia de que o governo pode - mesmo sem sector empresarial do estado significativo - decisivamente controlar, e segundo projecto próprio, o desenvolvimento nacional; a ideia de que o motor desse desenvolvimento passa pelo acesso à tecnologia moderna, predominantemente industrial; enfim, a ideia de que a insercção internacional da economia é relativamente secundária na construção prática da trajectória do desenvolvimento nacional. Tudo isto já passou dalgum modo à História, no mundo globalizante e transnacionalizado em que vivemos. Mas nenhum destes pontos é provavelmente o fundamental, nesta mudança do mundo e da visão que dele temos, num período de quase trinta anos que vai das independências das colónias portuguesas em África - e também, claro do 25 de Abril - até hoje.

Tratava-se, em suma, da fé num misterioso Cumeré, Deus inexplicado e dalgum modo (como todos os deuses, afinal) inexplicável.

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