O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Os economistas sabem ou ensinam?

O meu problema, quando aprendiz de economista, com a Economia ensinada no ISCEF tinha alguma semelhança com o meu estado de espírito no verão de 1939, com seis anos de idade, face à notícia da invasão da Polónia pelos alemães. Pressentia que me falavam de qualquer coisa que deveria ser importante, mas não sabia o quê, nem porquê, nem para quê...

No que toca à Economia, em todo caso, no início dos anos 50, já suspeitava que pelos neo-clássicos e pela ortodoxia académica de raiz anglo-saxónica dificilmente poderia chegar às questões que me interessavam e que considerava as realmente importantes. A mais importante, para mim, nessa altura, era entender «o problema do desenvolvimento português», título dum meu livrinho cujo texto foi primeiro publicado em 1973 nas páginas do então recém-nascido Expresso e editado em 1974, depois do 25 de Abril.

O que mostra que demorei cerca de vinte anos a entender o tal problema; talvez, melhor dito - a convencer-me de que o tinha entendido.

A principal dificuldade do entendimento, para um jovem economista formado nessa época pelo ISCEF, resultava do seguinte:

A teoria económica que nos ensinavam - como o manual de Paul Samuelson, cuja primeira edição de 1945 me serviu de texto básico de introdução à problemática económica - era a teoria «apropriada» (admitamos isso, por agora) para os países capitalistas desenvolvidos.

Quanto aos outros, os «subdesenvolvidos», um ou outro capítulo marginal dos text books mais recomendados não nos ensinava grande coisa. E como admitir ser Portugal «subdesenvolvido» como a India ou Angola?

Manifestamente, pensava eu, o meu país não tinha localização possível na teoria económica vigente. Éramos tão marginais ou periféricos que os grandes espíritos não se davam ao trabalho de pensar-nos. E nós por outro lado, com um ancestral complexo de inferioridade - ao contrário, já não falo dos franceses, mas dos italianos e dos espanhóis - desistíamos disso. Muitos, ou alinhavam pelo corporativismo oficial ou transferíam a esperança, mais ou menos directamente, para o socialismo «realmente existente» da URSS.

E daí eu concluir (e ainda penso isso) que mal vão as pessoas e os países incapazes de se pensarem pela sua propria cabeça.

Entretanto, por uma inexplicável teimosia que ainda hoje me surpreende, empenhei-me em preparar uma tese de doutoramento em Economia sobre o tema (no âmbito da chamada Economia do Trabalho, disciplina ao tempo nem sequer ensinada em Portugal) A determinação do salário na indústria. O Conselho do ISCEF designou como meus orientadores os Prof. Pinto Barbosa e Jacinto Nunes que algumas (não muitas) vezes me receberam numa pequena sala da sede do Banco de Portugal, que ao tempo governavam.

Deduzi que não deveriam estar familiarizados com o tema, pelo teor algo embaraçoso das nossas reuniões.

Depois de concluir e entregar a tese, e verificar como epílogo a uma história triste, que os dois designados orientadores haviam perdido o original que lhes dera para comentário e crítica, aguardei dois anos a marcação de provas, que decorreram em 1970 e me permitiram ser doutor por extenso.

Claro que o meu exemplo não foi encorajador de possíveis doutorandos, pelo que decorreram largos anos (creio que uma dezena) até que os doutoramentos em Económicas se processassem com alguma regularidade...

Esta pequena história pessoal mostra como era dificil, ao tempo, forjar uma consciência renovada da problemática portuguesa, sabendo-se ainda da dificuldade em ir «lá fora», como sugestivamente então se dizia, ou com desprezo (os situacionistas) ou com nostalgia um tanto embasbacada (a maioria).

Tendo sido nomeado Vice-Governador do Banco de Portugal pelo Terceiro Governo Provisório, tomei posse, por coincidência, precisamente em 11 de Março de 1975, voltando a encontrar a mesma sala, cerca de dez anos mais tarde, e o Prof. Jacinto Nunes, agora como Governador em exercício e já não como «orientador» da minha tese de Economia do Trabalho.

Este encontro foi bem mais interessante e intenso do que os anteriores, até pela animação que então decorria nas ruas de Lisboa, facto que justificou (?) ter a administração passado a noite de 11 para 12 de Março nas instalações do Banco de Portugal.

Seguramente, nunca as reservas acumuladas pelo Dr. Oliveira Salazar (em particular, a parte em barras de ouro marcadas com a cruz suástica guardadas em Portugal) terão sido vigiadas de tão perto pela administração do Banco Central como nessa noite. Embora por vias menos ortodoxas de política monetária, por assim dizer.

Enfim, devo recordar que depois de Abril de 74, Portugal se abriu ao mundo inteiro, e que por esta via se me tornou possível aceder à condição e ao cartão de voador frequente, coisa que sempre desejara, mesmo sem integrar a chamada classe política.

E no fim de contas, foi assim que o «economista acidental» compreendeu que o problema do desenvolvimento português, só se pode entender olhando Portugal de fora para dentro e não de dentro para fora, como todos mais ou menos fazíamos vai para um quarto de século. E alguns ainda fazem.

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