O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Perseguindo a utopia em Bissau

Pelos finais de 1975, era evidente que as utopias murchavam em Portugal e que os (ainda) interessados em persegui-las deveriam fazê-lo noutro sítio. Por exemplo, em África, e de preferência naqueles países que haviam conquistado as independências pela luta armada, conseguindo além do mais derrubar o regime colonialista na sua própria casa, como fora o caso de Portugal.

Por seu turno, nesse grupo de países, os mais interessantes seriam a Guiné Bissau e Cabo Verde, dado o grande prestígio de Amilcar Cabral e do PAIGC e também a circunstância de ser no território de um dos países mais pobres do mundo que as forças armadas do derradeiro estado colonialista, no sentido tradicional do termo, haviam sido derrotadas e a independência declarada unilateralmente, com efectiva ocupação de grande parte do país pelas forças do movimento de libertação.

Essa independência fora declarada em 24 de Setembro de 1973, e antigas instalações das forças portuguesas tinham dado origem ao Hotel 24 de Setembro, onde muitas vezes me instalei nos anos entre 1975 e 1987.O hotel era também frequentemente visitado por abutres de mau agouro, mas ninguém ficava deprimido por causa deles. Hoje, vejo que prenunciavam um destino muito diverso das grandes esperanças da época.

Nunca havia estado em África, e foi em Dezembro de 75 que me iniciei no conhecimento directo não só do que fora o colonialismo português, mas também das circunstâncias em que se verificara o seu colapso.

O meu primeiro Natal africano,há um quarto de século, foi também o meu primeiro conhecimento directo do que se poderia chamar o «Terceiro Mundo realmente existente». Recordo que o «Segundo Mundo» era, então, dizia-se, o do socialismo «realmente existente». Que trágica e ignorada ironia, essa frase ocultava!

Naquela época, Bissau era um vasto acampamento de «cooperantes» oriundos das mais diversas partes do mundo - da Coreia do Norte e da China, à União Soviética, Suécia, Holanda, Chile (fugitivos do regime de Pinochet que sucedera à Unidade Popular de Allende), Brasil, que sei eu...

Muita gente interessante, incluindo jovens de ambos os sexos que iam procurar qualquer coisa que não era dinheiro, enchiam aquele pântano onde se localiza Bissau. Se alguém tinha uma utopia na cabeça e procurava o sítio para construir, de raiz, algo de verdadeiramente novo à altura dessa utopia, parecia ser ali o sítio indicado. E encontravam também jóvens guineenses e cabo-verdianos que se mostravam verdadeiramente interessados nisso.

Recordo que no meu primeiro passeio a pé pelas ruas de Bissau, numa manhã brumosa, um curto episódio colou-me imediatamente ao real. Mais tarde soube que abruma não era só humidade vinda dos arrozais, mas também areia do Sára trazida pelo vento.

Cruzando-me com um camponês, na rua quase deserta, disse-lhe cordial e militantemente
«Bom dia, camarada»,
ao que ele volveu , envolto em amplo sorriso, um submisso
«Bom dia, patrão»

Na verdade, como tantas vezes sucede, o pobre diabo humilde e anónimo estava bem mais perto da realidade do que o intelectual, ainda que cheio das melhores intenções deste mundo. E por essa altura, apercebi-me também com surpresa, da extrema diversidade étnica dum país tão pequeno (uma área aproximadamente do tamanho do Alentejo), com tipos físicos tão distintos, dos fulas aos balantas, papéis ou felupes, além dos mais.

Havia também o chamado, com manifesto exagero, «Grande Hotel», dotado de uma grande ventoinha no tecto da sala de jantar, sem que todavia houvesse mesa por baixo, precaução que depois entendi, atendendo à possibilidade de a mesma incerta ventoinha preferir localizar-se no chão.

Estes pormenores aparentemente ridículos, sugerem uma envolvente material, mesmo nos locais relativamente favorecidos, extremamente precária. Havia cortes frequentes de energia, telefonar para o exterior não era simples, e o abastecimento dos bens mais elementares, incluindo os alimentares, era muitas vezes problemático.Os portugueses não haviam ali deixado infraestruturas ou indústrias significativas (ao contrário de Angola), a não ser uma fábrica de cerveja, aliás inaugurada já perto do fim da presença dos seus principais destinatários, a tropa portuguesa.

No meu caso pessoal, sendo na época um razoável consumidor de cigarros, várias vezes defrontei a situação de, no comércio local, encontrar cigarros mas não fósforos ou vice-versa. Uma vez, dispondo de cigarros, mas não tendo nem fósforos nem isqueiro, decidi fazer uma pesquisa sistemática das lojas privadas ainda abertas nessa época (mais tarde,o comércio privado na cidade deixou pràticamente de existir). Consegui finalmente encontrar numa lojeca um pequeno isqueiro a gasolina, de fabrico chinês, bem mais rudimentar do que aqueles que me recordava de ver, quando miúdo, nas mãos do meu pai.

Dispondo de isqueiro e cigarros, faltava-me ainda a gasolina, pelo que me dirigi a um posto de abastecimento da mesma. Recordo o negro grandalhão, cheio de brio profissional, que me interrogou (desta vez, com tratamento polìticamente correcto)
-«O camarada quer super ou normal?»
Não me recordo da resposta, mas sei que fiquei feliz por ter finalmente conseguido atingir o meu mínimo de subsistência.

Mas não nos queixávamos destas carências elementares, mesmo por vezes alimentares.

Tínhamos abundância doutras coisas bem mais importantes, como a esperança e a solidariedade. E também a alegria de viver em paz.

Que mais era preciso?

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