O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Ideias de trazer por casa

Em matéria de intelectuais progressistas oriundos das Ciências Sociais, nas décadas revolucionárias dos anos 60 e 70, que dizer quanto à chamada «prata da casa»?

Para muitos economistas e sociólogos portugueses da minha geração e algumas seguintes, houve dois homens que marcaram a nossa formação quer como estudantes, quer como profissionais e cidadãos adultos: o sociólogo A. Sedas Nunes e o economista Francisco Pereira de Moura, ambos já falecidos.

Para além de formações disciplinares distintas, tinham também personalidades bem diferenciadas; além disso, no plano estritamente político, e considerando as décadas críticas de 60 e 70, Moura foi progressivamente radicalizando as suas posições, ao contrário de Sedas Nunes.

Fui aluno e assistente de ambos, e tive também Francisco Moura como colega dalguns dos «governos provisórios» constituídos em 1974 e 75. As trajectórias pessoais e intelectuais de ambos foram profundamente diversas, como já referi, mas para além de possuirem competências científicas bem distintas, a «visão do mundo» de ambos, em particular da realidade portuguesa, foi sempre muito distanciada. Em todo o caso, ambos procuraram conceber, para Portugal, uma receita ou qualquer coisa que poderemos designar por sociedade óptima e possivel, modo de usar.

Certo ou errado, a verdade é que atribuíamos a este tipo particular de intelectual uma capacidade de influenciar a realidade que hoje, de todo, sabemos que nenhum tem. De certo modo, sentimos que estamos tão ou mais constrangidos nos graus de liberdade da sociedade portuguesa do que nos encontrávamos há quarenta ou cinquenta anos.

Claro que existe, todavia, uma grande diferença: nesse tempo recuado, sentiamos, e com razão, que o poder estava nas mãos de quem não tinha legitimidade para o deter, e que de qualquer forma, não sabia que fazer dele; hoje, sabemos que o poder legítimo é exercido por quem, na realidade, quer e pode muito pouco.

E quem pode então? Um jogo complexo de forças mais transnacionais que nacionais e que alguns, como o autor desta crónica, designam por capitalismo ou mercado global.

(O leitor nunca o viu, eu sei).

Mas voltando a Francisco Moura e Sedas Nunes, forçoso é reconhecer que não tiveram a projecção internacional que mereciam - no âmbito das respectivas comunidades científicas - por força do isolamento cultural do País, até 74, e das peripécias próprias da vida de cada um, depois de entrarmos na via democrática. Mas creio que só Sedas Nunes terá lamentado o facto.

Em 1985, dois jovens alemães pertencentes a uma cooperativa cultural, que me haviam entrevistado e gravado em vídeo dez anos antes sobre as peripécias da «revolução portuguesa», propuseram- me fazer novo vídeo, em que eu defrontaria e comentaria a minha imagem e as minhas palavras da gravação anterior.

Explicaram-me que haviam ficado impressionados com a profunda convicção que eu aparentava nas minhas palavras, e queriam saber se, uma década decorrida, a minha convicção resistia ou não à passagem do tempo. Daquele particular tempo.

Aceitei o desafio. No fundo, procurei dizer-lhes que em política (e possivelmente noutras matérias) não há «verdades públicas» absolutas, quando muito só privadas, em função das coordenadas mais profundas da personalidade de cada um. Quanto às outras, ou seja, ao discurso político puro, é do domínio da conjuntura.

Infelizmente, nunca cheguei a ver-me no segundo vídeo.

Mas talvez tenha sido melhor assim.

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