O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Verdades públicas e mentiras privadas, ou vice-versa

As grandes conferências internacionais de sábios, intelectuais ou simples amadores deste ou daquele domínio do conhecimento podem servir para muita coisa, mas frequentemente não servem o seu fim explícito. Servem algum fim mais ou menos disfarçado ou implícito, como seja promover determinados interesses, ideologias ou pessoas.

Ou simplesmente servem de pretexto para encontros com fins não necessariamente coincidentes com os temas anunciados; por exemplo, para visitar sítios com interesse turístico, sem se reconhecer publicamente que a motivação principal reside em fazer turismo.

Mas também surgem em defesa de grandes causas, embora nem sempre promovidas sem alguma hipocrisia.

Frequentei, com alguma regularidade, grandes conferências internacionais sobre economia e sociologia nos anos 70 e 80 - algumas raras ainda nos anos 90, incluindo as de que eu próprio fui organizador - que correntes intelectuais ditas progressistas organizavam um pouco por todo o lado, desde Toronto, à Cidade do México e o Rio de Janeiro, a Santiago de Compostela, Paris, Catvat (na Jugoslávia), Berlim e Bona, Bucareste, Budapeste ou Moscovo. O discurso revolucionário foi gradualmente perdendo ímpeto, e as conferências internacionais desse teor também foram murchando, tornando-se cada vez mais (num sentido ou noutro) mercantis, ainda que aqui e ali reanimadas por correntes ecologistas.

A parte para mim mais interessante nessas conferências internacionais residia na possibilidade de conhecer pessoalmente figuras destacadas da época de que apenas ouvira falar ou lera um outro texto.

Por exemplo, o chileno Pedro Vuskovik, que foi ministro da Economia de Allende na primeira fase do seu governo de «unidade popular», os brasileiros Teotónio dos Santos e Ruy Mauro Marini, que foram mentores das famosas teorias da «dependência» (como também o foi, aliás, o actual Presidente do Brasil), Gunder Frank, historiador e economista das visões de muito longo prazo sobre o capitalismo, Paul Sweezy, durante muitos anos director da, em tempos, famosa revista marxista norte-americana Monthly Review, economista que nos visitou como muitos outros, em 1975, Immanuel Wallerstein, o famoso sociólogo americano, discípulo de Fernand Braudel e director do Braudel Center da Universidade de Nova Iorque (em Binghamton), o seu colaborador economista Giovanni Arrighi, autor do livro O longo século XX, que na sua versão em português tem sido um inesperado best seller no Brasil, o egípcio Samir Amin, infatigável pensador do «subdesenvolvimento» africano e das vias da libertação da África, o escritor angolano Pepetela, o (para mim) enigmático Aquino de Bragança, colaborador próximo de Samora Machel, com ele falecido em acidente (?) de aviação perto de Maputo, entre muitos outros.

Alguns desses homens são simples, francos e de convívio encantador. Outros, pelo contrário, são insuportáveis prima donna que se comportam como se sempre tivessem a propriedade de toda a verdade, mesmo em matéria, por exemplo, de previsão meteorológica. Sempre me espantei da enorme distância que pode separar a notável dimensão intelectual dum homem, da outra sua dimensão, por vezes, ridiculamente humana, nas pequenas vaidades e grandes manobras a que se propõe por puro prestígio pessoal.

Interessa-me aqui falar neles como pessoas, mais como símbolos ou testemunhos e menos como teóricos de deslumbrantes avenidas que vislumbraram para a libertação dos homens e das nações. No fundo, nesta minha perspectiva, estou mais curioso pelas «verdades» privadas de que serão possìvelmente portadores, do que das «verdades» públicas que apregoam e de que aparentam ser detentores.

Que faz correr estes homens?

Para alguns deles, que eu bem conheci, trata-se ou tratou-se de correr grandes riscos, incluindo o da própria vida. Alistando-se, por exemplo, como seguidores do foquismo, quando necessário de metralhadora em punho, assaltando bancos ou embaixadas, na guerrilha urbana de Mariguela contra a violenta ditadura militar brasileira.

Claro que também se encontram neste grupo vulgares oportunistas que apostam nos cavalos que julgam melhor posicionados para, mais dia menos dia, ganharem a corrida do poder. E, quando isso acontece, tornam-se então expoentes zelosos desse novo poder surgido dalguma revolução mais ou menos fiel aos seus ideais anunciados. E podem aliás tornar-se úteis e competentes funcionários do novo poder constituído. Mas não há muito a dizer sobre eles. Pelo menos, que constitua novidade para o razoável entendedor do jogo político.

Mas é dos outros, mais raros, que não correm por dinheiro, poder-pelo-poder, ou qualquer forma de ambição pessoal, que me interessa falar. Porque sempre me fascinaram, quer na sua faceta grandiosa de «homens com ideal», como doutro modo, numa outra possivel faceta de absoluta, dogmática e impiedosa servidão que os liga a esse mesmo ideal.

Passo a explicar-me melhor. Pelo menos, a tentar.

O facto de um indivíduo manter absoluta fidelidade a uma ideia ou a certo sistema de valores não é necessariamente um facto positivo, mesmo dum ponto de vista estritamente ético. Ainda que partilhemos tal ideia ou sistema de valores. Infinitamente menos quando uma e outros estão nos antípodas das nossas convicções.

Basta recordar - embora seja possivelmente de mau gosto fazê-lo - Hitler e Staline que tinham seguramente firmes convicções, tal como, a um nível muito mais humano e próximo de nós, o dr. Oliveira Salazar.

E é absolutamente de rejeitar a presunção de alguém que pretende salvar-me, mesmo contra minha vontade, apenas porque julga saber melhor do que eu o caminho da minha própria salvação.

Dir-me-á o leitor esclarecido que estou a confundir o intelectual-sábio com o intelectual-político. As duas condições podem confundir-se numa pessoa, mas não é necessariamente assim. Pois não. Mas o tipo particular de intelectual que estou aqui a referir - aquele que é suposto posssuir uma competência específica, em geral, cientìficamente fundamentada, nas grandes questões da economia e da sociedade - não pode evitar situar-se perante a problemática do poder.

Reconheçamos, de forma simples e expressiva: se ignora ou despreza toda e qualquer forma de poder, diremos desse intelectual que só sabe mandar bocas.

Ou que só sabe fazer amor pela Internet.

Não é para tomar a sério, será impotente, a menos que dalgum forma se situe perante o poder estabelecido. Como alguém que procurasse ensinar natação aos outros, mantendo-se, de sapatos, casaco e gravata, fora da piscina. O que não significa (de modo algum!) dizer que, no fundo, esse tipo de intelectual a que me refiro tem sempre ambição de poder. A questão torna-se muito mais complexa nestes casos.

Na realidade, esse intelectual é assim porque é possuído por outra ambição maior. A de que tem o segredo da História. Ou dito doutra forma: alimenta-o a intima convicção de que, dalgum modo, mesmo minúsculo, está a encaminhar essa mesma História na boa direcção. Trata-se, afinal, de alguém que se supõe num particular estado de graça, estado que pode legitimar todos os meios ao alcance do abençoado por tal graça.

Nem mais nem menos.

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