O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Em Moscovo como se fosse Abril

A minha segunda estadia em Moscovo ocorreu em momento alto da Perestroika, finais de 1989, quando o fim do regime estava garantido e o futuro permitia todas as esperanças.

Ao percorrer a pé a famosa e então festiva rua Arbat, senti-me a reviver o clima das primeiras semanas de Lisboa a seguir ao 25 de Abril, quando todos nos sentíamos irmãos, mesmo sendo membros do governo.

Desta vez não fiquei instalado num velho hotel de arquitectura estalinista, mas no moderno Outubro, onde me cruzei com Sean Connery, então filmando (suponho) o Outubro Vermelho, e que se mostrou visivelmente feliz por alguém o ter reconhecido.

Fiquei sensibilizado ao perceber o estado de espírito que me envolvia e, ao mesmo tempo, triste por saber - de experiência própria - que o desencanto viria breve. Mas não adiantaria tentar preveni-los disso, nem gosto de ser desmancha prazeres.

Convenci-me, então, de que a ignorância daqueles quadros, intelectuais e jornalistas que conheci, sobre o capitalismo realmente existente no final dos anos 80, era pelo menos tão grande como a ignorância de muitos de nós, não só em Portugal, mas no Ocidente em geral, sobre o que tinha sido e ainda era o chamado socialismo realmente existente.

O que me conduz, de novo, à curiosidade sobre a criatura no ventre da «porca prenha», referida em crónica anterior, ou seja, sobre o destino das chamadas transições para a economia de mercado, em particular da defunta União Soviética.

Um economista que foi colaborador próximo de Gorbachov, Abel Aghanbeghian, fez uma digressão pela Europa, no auge da Perestroika, fazendo conferências onde explicava - ou tentava fazê-lo - a experiencia de transição em curso no seu país.

Esteve também em Lisboa, onde falou no ISCTE. Eu fiquei na mesa da sessão, podendo fazer perguntas directas ao orador. Foi muito claro nas respostas, o que mostrava boa fé.

A mensagem de Aghenbeghian, por aquilo que pude concluir, era em síntese a seguinte:

Era para todos evidente que o sistema económico soviètico funcionava mal, com crescente ineficiência e incapaz de assimilar as reformas necessárias. Apesar do avançado sistema científico e tecnológico da URSS, estreitamente associado ao complexo militar, a economia não absorvia, senão tardia e defeituosamente, o progresso tecnológico.

O fenómeno fora detectado há muito tempo mas as projectadas reformas económicas abortavam, designadamente no tempo de Kruschev.

A razão disso, segundo os mentores da Perestroika, encontrar-se-ia na esfera do poder político que resistia ao processo reformador por força dos interesses instalados no regime que, como é usual, se opunham à mudança que pudesse abalar o status quo.

Moral da história, ainda segundo Aghanbeghian:

Seria necessário reformar o político para poder reformar o económico.

Claro que havia neste raciocínio como que uma petição de princípio: que forças poderiam ter interesse na esfera económica para actuar ao nível politico na transformação daquela?

Seja como for, o primum mobile do processo reformador residiria aí. Curiosa inversão do conceito de infra e superstrutura, tradicional no marxismo vulgar! De qualquer modo, seria a política a servir a economia. E repare-se que havia um certo realismo cínico neste discurso, ao mesmo tempo algo ingénuo por não esconder isso mesmo. Afinal, a democratização da sociedade não aparecia como um fim em si, mas como algo a procurar como meio e na justa medida das exigências da reforma económica.

Mas sabe-se o que aconteceu na URSS, Gorbachov repetindo a história do aprendiz de feiticeiro que desencadeou forças que foi incapaz de controlar.

O que também foi uma maneira de demonstrar que, em determinadas situações e ao contrário das teses mais primárias do materialismo histórico, a «infraestrutura» pode residir no político e não no económico. Ou dito doutra forma: a História parece mostrar a irredutibilidade da problemática política do poder, ao menos em determinadas conjunturas, como as que ocorreram nas malogradas experiências desse, no fim de contas, «socialismo realmente inexistente».

Mas, se é assim, teremos de levar este raciocínio às suas últimas consequências e reconhecer que realmente não sabemos o que a «porca prenha» traz ou trazia no ventre. Designadamente no ainda hoje perturbador caso da ex-União Soviética.

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