O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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A porca prenha

Estive em Moscovo em duas ocasiões, uma em 1980, outra em 1989. A cidade era a mesma, mas tudo parecia mudado, na segunda visita.

Da minha primeira vez, a visita foi rigorosamente organizada, conforme os meus pedidos formulados em Lisboa, para visitar tal e tal instituição.

Deslocava-me num austero e imponente carro preto, dum modelo que segundo me contaram tinha uma alcunha carinhosa em russo, equivalente em português, a porca prenha. De facto, o veículo lembrava isso, tal como me evocava também o famoso modelo de industrialização baseada na indústria bem pesada.

Em visão retrospectiva, aquela «porca» ficou-me como um símbolo da União Soviética, «prenha» de qualquer coisa tão desejada como ignorada e que estava para vir, mas que não seria certamente como a mãe.

O meu guia foi um jovem inteligente, irónico, falando bem inglês e, por sinal, filho do então embaixador soviético em Londres.

Visitei universidades, fábricas, centros de estudo, assisti a concertos e espectáculos de ballet e até discursei perante uma assembleia de jovens - claro que apoiado por um intérprete - explicando os porquês e comos da revolução portuguesa que ainda despertava uma genuína curiosidade.

Pareceu-me, num ou noutro fugaz encontro, que procuravam uma réstea de esperança, para eles próprios, no desenrolar da nossa experiência.

Explicaram-me como se tinha esgotado em poucos dias uma tradução russa de obras de Shakespeare e como, por outro lado, peças de vestuário masculino e feminino, de sinistro design não encontravam comprador há muito tempo, embora não tivessem alternativas nas lojas.

Lembrei-me das pobres mulheres russas que acompanhavam os técnicos e conselheiros sovièticos que eu observara em Bissau e que passeavam em grupo, ao fim da tarde, junto às margens do rio Geba, exibindo rechonchudas formas bem burguesas em vestidos de péssimo gosto, com florzinhas de várias cores, que nem a minha avó teria ousado vestir.

O meu jovem guia, com apurado sentido de humor, evocou a este propósito a especificidade do jogo da oferta e da procura no sistema soviético.

Todavia, todos os meus passos foram rigorosamente acompanhados porque, conforme amàvelmente me explicaram, eu não conhecia nem a língua nem o país e facilmente poderia perder-me. É claro que eu não fiquei convencido. Aliás, mesmo correndo o risco de perder-me, sempre preferi aprender o caminho à minha custa.

(Uma jovem economista russa interessada na Peninsula Ibérica que eu conhecera numa reunião na Faculdade de Economia de Moscovo, procurou-me no hotel, para obter informações sobre os temas que a interessavam mas uma funcionária da recepção, à minha frente, disse-lhe em russo qualquer coisa de desagradável que a fez corar e retirar-se precipitadamente. Acreditem que não era questão de cama. Aliás, e se fosse?

Por outro lado, eu conhecera, pouco tempo antes, numa conferência internacional na cidade do México, um brilhante e heterodoxo intelectual soviético interessado nos problemas do Terceiro Mundo. Percebi que estava dentro do sistema, mas numa posição crítica e tentei reencontrá-lo em Moscovo. O que consegui, mas num contexto de contactos misteriosos, que me fez lembrar histórias de Graham Greene).

Por essa altura, visitei também Leninegrado - hoje, de novo São Petesburgo - após uma viagem rigorosamente em linha recta num comboio que partiu de Moscovo e me conduziu a uma terra esplendorosa, banhada de sol e de emocionantes recordações históricas, desde o tempo dos czares, à primeira fase da revolução comunista e ao cerco de Leninegrado pelas tropas de Hitler.

Conservei-a na memória como uma das mais belas cidades que até hoje conheci. Digamos, cidade que conheci no espaço, como também no tempo.

Já tinha antes visitado, por mais duma vez, a também maravilhosa Budapeste envolvida pelo Danúbio e constatado que embora fosse triste a envolvente humana do socialismo real a natureza, essa, resistia heroicamente à aparente falta de imaginação dos seus habitantes.

Ainda na senda dos ecos da revolução portuguesa, pude um dia encontrar em Budapeste a primeira figura do partido comunista húngaro, Janos Kadar, que me surgiu surpreendemente humano e cordial.

Explicaram-me que o papel desempenhado por Kadar, após os tanques soviéticos terem liquidado, em 1956, a tentativa de libertação húngara, não fora o que a imprensa ocidental relatara. Segundo essa versão, que me surge credível, teria evitado coisas piores e permitido, com bastante coragem, uma relativa autonomia na trajectória húngara no caminho do socialismo real.

Tive a mesma sensação de calor humano que encontrara em Budapeste, não em Moscovo mas em Leninegrado. E senti-me menos solicitamente vigiado, o que também me fez respirar melhor.

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