O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Um crepúsculo sem deuses

Em linhas muito gerais, pode dizer-se que as forças mais interessadas na transformação profunda da sociedade portuguesa (mesmo que estivessem longe de entender-se sobre os contornos práticos e teóricos da mudança) estiveram na ofensiva até à constituição do Quarto Governo Provisório, em Abril de 75, passando à defensiva cada vez mais desesperada pelo segundo semestre do mesmo ano.

Em 16 de Novembro, assistindo a um impressionante comício no Terreiro de Paço, admiti a possibilidade dalguma transformação profunda da sociedade portuguesa. Isto, independentemente do juizo que possamos fazer sobre a sua desejabilidade. Juizo que por seu turno, depende da utopia que cada um entretém na respectiva cabeça.

Mas tratava-se duma ilusão. Breves dias mais tarde, perante outra manifestação no mesmo local, quando Pinheiro de Azevedo grita a sua frase famosa O povo é sereno!, senti que a trajectória da experiência portuguesa poderia inverter-se perigosamente.

Hoje, julgo que foi assim por duas ordens de razões: no plano interno, o amplo movimento de massas que, em grande parte, se desenvolveu espontâneamente nunca teve direcção política unificada, havendo um abismo a separar as «visões do mundo» dos dois principais partidos da esquerda; e no plano externo, também não era do interesse nem dos EUA, nem da URSS que uma nova Cuba surgisse na Europa.

Uns anos mais tarde, visitei em Moscovo, entre outras instâncias, o chamado Instituto do Sistema Socialista Mundial, instituto que supostamente daria apoio científico e técnico ao chamado «Segundo Mundo», situado entre o Primeiro dos «desenvolvidos» e o Terceiro dos «subdesenvolvidos». Um alto funcionário soviético explicou-me, com detalhes, por que razões o sistema não tinha capacidade económica para suportar «mais Cubas», designadamente em África, onde se punha a questão de Moçambique aderir ao COMECON, isto é, ao sistema de integração económica entre a URSS e as chamadas «democracias populares».

Uma notícia publicada no Politique Hebdo, relatando o encontro da Internacional Socialista em Estocolmo, em Agosto de 75, onde Mário Soares expôs a sua visão da situação portuguesa, atribui a Miterrand, presente nessa reunião, a judiciosa opinião de «que não seria conveniente dar a impressão de que o PS português receberia directivas do exterior». Sobretudo, se isso fosse verdade. Claro que mutatis mutandis o mesmo se poderia recomendar ao PCP….

E é curioso notar que quer Carlucci, o embaixador americano em Lisboa, quer Kissinger, o Secretário de Estado norte-americano para os Negócios Estrangeiros, chegaram a acreditar que isso seria possivel, embora não o desejassem de todo.

Quando em Abril de 75, sendo ministro do Planeamento e Coordenação Económica, do Quarto Governo Provisório, de entre uma legião de embaixadores ansiosos de mostrar a boa vontade dos seus governos em relação a Portugal, recebi Carlucci rodeado por impressionantes medidas de segurança, o seu nervosismo e falta de à vontade convenceram-me, mais do que as suas palavras, que sèriamente receava os acontecimentos.

Afinal, exagerava a nossa capacidade de pôr em prática uma revolução que não fosse apenas um golpe final num estado moribundo.

Se o alinhamento internacional dum país periférico no sistema mundial, embora de importância estratégica nesse sistema, nos críticos meados dos anos 70, dependesse da categoria pessoal dos respectivos embaixadores, Kalinin e a URSS teriam largamente suplantado Carlucci e os EUA. Kalinin era um homem descontraído e com sentido de humor, que levava a água ao seu moinho sem darmos por isso, ao contrário de Carlucci, esforçadamente óbvio, que certamente teria talentos diferentes, e não detectáveis à vista desarmada, dos que normalmente se esperam dum simples embaixador.

Visto à distância de um quarto de século, o processo de 1974/75 surge-me ainda como anomalia de calendário na história portuguesa recente.

Quero dizer, numa síntese talvez excessivamente amarga: uma colonização que tardiamente soçobrou com o regime que a gerara, originou um potencial revolucionário que também chegou tarde demais, no calendário da história do Séc.XX.

A evolução mais provável da trajectória portuguesa de então, no Verão de 75, segundo conhecidos padrões históricos semelhantes, teria conduzido a violenta contra-revolução pelos finais desse ano, mas alguns factores internos e externos evitaram desastroso remate da grande esperança nascida em Abril de 74.

E não tenho dúvidas em afirmar que Melo Antunes e Ramalho Eanes contribuiram decisivamente para tal desfecho.

Ao menos por isso, seguramente merecem a nossa gratidão.

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