O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Tempo de revolução

Não há muito tempo, num voo da British Airways de Londres para Hong Kong que dura perto de uma dúzia de horas, necessitei por normal e elementar urgência fisiológica de ir à casa de banho. Mas os toilets da classe económica, em que viajava, estavam ocupados, pelo que procurei o correspondente espaço da classe executiva (ou seria da primeira?, estávamos em plena noite e a urgência da situação não me permitiu grande rigor de análise) que esse, estava disponivel.

Perseguindo-me com um frio e implacável olhar britânico, uma hospedeira disse que eu não devia estar ali e teria de regressar à minha classe.

Expliquei-lhe a razão do meu percurso. Não tive sucesso, apesar de me exprimir claramente em inglês. Por momentos, pensei em levar aquela luta de classes até às últimas consequências urinárias, em pleno corredor executivo (melhor ainda se fosse da primeira classe!). Mas reconsiderei, pois os tempos já não estão para radicalismos, e reduzi a minha fisiologia à sua verdadeira e económica dimensão...

Contudo, entendi e guardei a mensagem:

Mesmo a dez ou onze quilómetros acima do nivel das águas do mar, o planeta que habitamos ainda não se livrou da férrea divisão entre classes sociais.

Quem disse, há mais de duzentos anos que os homens «nascem livres e iguais em direitos»?

E há cerca de dez anos, com o fim do «socialismo real», que chegámos ao «fim da História» com a feliz conjugação da democracia política e da economia de mercado?

Na verdade, à escala mundial, nunca foi tão grande a distância em niveis de rendimento entre os mais ricos e os mais pobres.

Mas não falemos nisso agora. Lembro o facto só para não estranharmos o que aconteceu e acontece em Portugal.

Vem isto a propósito do chamado PREC («processo revolucionário em curso») que pretendia abolir, em Portugal, as distinções de classe não só nas casas de banho mas em tudo o resto.

Para os fins de 1974, era evidente que a conflitualidade social se acentuava, os actores em cena radicalizavam as suas posições, e o feliz, inocente e bem aventurado Primeiro Governo Provisório ficara muito para trás, no acelerado curso dos acontecimentos portugueses da época.

Quer os actores, quer os simples espectadores, tinham dificuldade em acompanhar (leia-se, entender) o ritmo e sentido das interacções entre os vários grupos sociais em confronto mais ou menos declarado.

Por mim, sentia como que uma mão invisivel conduzindo o processo, mas não seria nem a mão de Deus, nem a mão do mercado, nem a da História, tão pouco «a mão dos comunistas empurrados por Moscovo» ou algo de semelhante.

Na realidade, era a lógica interna duma prática histórica entregue a si mesma que, tal como se iniciara, em aceleração, iria mais tarde ou mais cedo desacelerar e consumir-se a si própria. Mas eu não conseguia imaginar o que restaria no fim de tudo.

Ao contrário doutros que, solidários, comigo viveram as experiências intensas dos Quarto e Quinto Governos (ou seja, o período de Abril a Setembro de 75) e que materialistas ou ateus confessos, não hesitavam em manifestar a sua profunda fé e inquebrantável confiança tanto no «significado» como no «sentido» e na «direcção» da História, nunca confiei sem reservas nessa mão tão visível.

Muito menos poderia confiar da maneira absoluta e tranquila como, quando miúdo, segurava na mão da minha mãe ao atravessar a rua, cheia de perigos. Mas creio que, em certos momentos, alguns dos meus compagnons de route nessa época, que muito estimava e continuo a estimar, confiaram dessa maneira na História, tal como a entendiam.

No fim de contas, julgo que, em determinadas circunstâncias extremas, a fé em algo exterior ao próprio homem é uma absoluta necessidade da condição humana. Chamar a isso Deus ou «sentido da História» talvez não seja o mais importante.

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