O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Prec, Pré e Pós-Revolução

Pois o processo português de 74/75 - qual nave antes ancorada no Mar da Palha, junto ao Terreiro do Paço, subitamente conduzida por vingativos ventos da História para um desconhecido e agitado oceano - transitou da pré para a pós-revolução, singrando incólume, em águas turbulentas, mediante atempadas manobras ou metamorfoses que desviaram a embarcação das alternativas rochosas da revolução ou da contra-revolução, que lhe surgiram no caminho.

Não vou agora relembrar os episódios de tal proeza, mas tão sòmente recordar os felizes dias em que tudo (de bom) nos parecia possível e os portugueses viviam, como irmãos, em estado de graça.

Como se, por um golpe de mágica, tivéssemos saltado a pés juntos dum capitalismo arcaico e asfixiante para a sociedade perfeita com que sonhara o jovem Marx.

Figurei no primeiro Governo Provisório, como Ministro dos Assuntos Sociais, dalgum modo, em representação da Sedes, uma associação legalmente constituída no espaço (entre)aberto por Marcelo Caetano no regime salazarista. A associação propunha-se estudar e debater os caminhos e meios do desenvolvimento da economia e sociedade portuguesas.

Dessa associação faziam parte figuras como Rui Vilar, Vitor Constâncio e Torres Campos que viriam depois a ter papel destacado no Portugal pós-revolucionário. Ao contrário da Pragma, outra associação a que pertenci anos antes, caracterizadamente ideológica e «anti-sistémica», para usar expressão de Wallerstein, a Sedes era essencialmente moderada e tecnocrata. O último exercício que praticámos na associação antes do 25 de Abril, como seria de esperar, foi a elaboração de «cenários» sobre o futuro da economia e da sociedade portuguesas. Não é provável que esse futuro tenha sido influenciado por tais cenários. Mas foi sem dúvida por alguns dos cenaristas.

Com efeito, os militares do MFA , na altura, precisavam de tecnocratas moderados como de pão para a boca, e tivemos largas oportunidades de nos encontrar com os oficiais da Comissão Coordenadora do MFA, mesmo antes da constituição do primeiro Governo Provisório. O meu interlocutor mais frequente nesse tempo foi o hoje Almirante Vitor Crespo com o qual sempre mantive uma relação muito cordial. Foi também então que encontrei pela primeira vez o General Vasco Gonçalves com o qual depois mantive uma relação muito próxima, mais no plano da amizade pessoal do que no ideológico, durante os meses mais quentes de 75.

Essas fascinantes conversas simultâneamente ideológicas e fraternais (no sentido de partilharmos a convicção de que, bem intencionados e solidários, entrávamos juntos num período renovador da História portuguesa) ficaram como uma das mais gratas recordações que guardo do período. Digamos que estávamos, ainda, na invejável idade da inocência política. Iríamos perdê-la, dentro em breve. Foi uma questão de meses.

Ocupei, no edifício da Praça de Londres onde residira o Ministério das Corporações, não a sala que pertencera ao ministro meu antecessor mas antes a outra contígua, bem mais pequena, que fora a do seu chefe de gabinete.

(Eu já sabia então que os ministros podem ser medidos de muitas maneiras, mas nunca pelo tamanho e luxo dos respectivos gabinetes.)

A razão da minha escolha é simples: eu não precisava de todo aquele enorme espaço para mim próprio, mas sim para alojar o elenco dos meus colaboradores mais directos que, na prática, iriam constituir naquela fase o novo ministério. Não tencionava mandar fuzilar os funcionários do extinto Ministério das Corporações, mas levaria algum tempo a saber com quais, como e para quê poderia contar.

Além do mais, gostava de percorrer as secretárias dos meus colaboradores mais directos, falando com cada um deles naqueles dias intensos, como se jogasse partidas simultâneas de xadrez.

Encontrei também uma metralhadora no cofre do anterior Ministro, mas nunca soube em que circunstâncias ele pensaria utilizá-la.

As reuniões do Conselho de Ministros de então, presididas por Palma Carlos, ficaram gravadas na minha memória como se duma obra prima do cinema se tratasse. Algumas das personagens-actores estavam ali manifestamente deslocadas, porventura equivocadas no estúdio da filmagem.

Um dos meus colegas do governo, sempre sob grande tensão, em parte por desadaptação ao contexto, em parte por força da natureza da pasta a seu cargo, não conseguiu articular intervenção coerente em qualquer das reuniões do Conselho em que participou. Outros porém, como ÁlvaroCunhal e Mário Soares, cada um à sua bem distinta maneira, sabiam que finalmente tinham argumento e cenário à altura das suas múltiplas capacidades e talentos.

Eu ficava habitualmente ao lado de Salgado Zenha, então Ministro da Justiça, e lamento que as vicissitudes da política não tenham permitido desenvolver a prometedora amizade que entáo parecia nascer.

Sá Carneiro era nesta fase, e não apenas em termos literais, uma personagem menor; um jogador junior ao lado de seniores muito experimentados.

Quanto ao General Spínola, que com razão não me permitiu figurar no seu segundo Governo Provisório, sempre me pareceu desenhar a caricatura de si mesmo, cultivando o monóculo, o pengalim e a voz rouca com que, por exemplo, dizia nos discursos do seu itinerante apostolado: Bom povo das Caldas da Rainha...

Teria tido possivelmente papel mais à altura de si mesmo se Portugal estivesse situado na América Latina. Mas, apesar de tudo, em 1974, Portugal já não estava aí.

Uma história verdadeira que me foi contada por um meu colega do governo, hoje professor universitário e antes do 25 de Abril exilado e porteiro nocturno num hotel de Paris, revela a atmosfera especial em que víviamos.

Já ministro do Primeiro Governo Provisório, ao atravessar o Terreiro do Paço, ele cruzou-se com um suiço que o conhecia do referido hotel. Perguntou-lhe o que fazia, ao que o meu colega respondeu com naturalidade:

- Sou ministro.

O outro não se desconcertou, murmurou qualquer coisa e finalmente comentou, como para si mesmo (em francês, claro): é o que diz a minha mulher, o mundo dá cada volta!

A perspicaz mulher do referido cidadão suiço tinha toda a razão.

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