O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Dias provisórios mas felizes

O primeiro Governo Provisório, em 1974, durou exactamente cinquenta e cinco dias, mas não foram dias iguais aos outros. Nem aos anteriores, que pareciam «definitivos» nem aos dias agitados e incertos que estavam para vir, nos restantes governos provisórios. Foram seis, esses efémeros governos e eu participei em três deles, num período apaixonante da vivência portuguesa.

Esta vivência foi um curso prático de sociologia que, uma vez mais, acidentalmente, frequentei e no qual muito aprendi, ao lado de muitos outros aprendizes. Embora não tivesse recebido diploma por essa frequência, mereci talvez aprovação. Pelo menos, da minha consciência.

(Que o leitor me desculpe a auto-estima, mas julgo ser essa a última coisa a perder, juntamente com a honra. É só uma questão de, todos os dias, ao fazer a barba, poder olhar a cara no espelho sem excessivo entusiasmo mas também sem corar.)

Tratando-se dum curso prático, ao relembrar a matéria, convirá começar por uma breve recapitulação teórica.

O título do curso poderia ser:

Como passar da pre à pós-revolução, evitando quer a revolução, quer a contra-revolução

E como sub-título:

Receita e modo de usar
(permitido o uso apenas em Portugal)

Na prometida introdução, é necessário recordar conceitos básicos, e hoje esquecidos por falta de uso, como pré-revolução, pós-revolução, contra-revolução e revolução-sem-mais-nada.

Como o assunto é manifestamente difícil, convirá também dispor dalgumas ideias simples e claras. Passo a expô-las, no essencial, sem muitos rodeios académicos que a matéria não requer, pois trata-se, como sabemos, mais de prática do que de teoria.

Por revolução (sem-mais-nada, mas a sério, isto é, sem ser simples golpe de estado, onde como alguém sugestivamente disse, «só mudam as moscas») entendo o processo de profunda transformação na estrutura de classes duma sociedade, tendendo a inverter-se a relação hegemónica, isto é, passando os dominados a dominadores e vice-versa.

Pré-revolução é a situação em que se desmorona a estrutura duma determinada sociedade, algum ancien régime, sem estar decidido o sentido da sua recomposição, após a fase de transição em que é intenso o conflito social. Situações deste tipo viveram-se na Rússia, antes da tomada do poder pelos bolchevistas, em Outubro de 1917, na França depois de 1789 e até ao triunfo de Napoleão Bonaparte, em 1871 na chamada Comuna de Paris, no princípio dos anos 70 no Chile de Allende, em Portugal em 1974/75.

Contra-revolução é a situação em que que a transição supostamente «pre-revolucionária» descamba numa violenta reconstituição do status quo ante, geralmente por via de golpe militar. Ou seja: é passar violentamente de mal a pior ou a muito pior, como o Chile de Pinochet.

A sociedade pós-revolucionária, estado em que nos encontramos, corresponde a uma situação de estabilização estrutural, com amortecimento dos conflitos sociais e em que a ideologia ambiente sustenta sem complexos o status quo, este não encontrando adversário credível para uma estratégia de transformação radical.

Num plano mais geral, há quem entenda que vivemos por todo o lado numa era que é, ao mesmo tempo, pós-revolucionária e de transição, embora para destino desconhecido. Tal era terá começado algures depois de 1974/75, anos em que o Ocidente atravessou a maior crise económica do pós-guerra, não sendo por acaso que o colapso do regime português acontece exactamente nesses anos.

Claro que é também facto crucial nessa evolução, a Perestroika e correspondente colapso do sistema soviètico (do chamado, sem ironia, socialismo realmente existente) por finais dos anos 80.

Também muitos reconhecem, entre eles quem escreve estas linhas, que o capitalismo é essencialmente um processo dinâmico de mudança societal, capaz duma específica «destruição criadora», em que a dimensão económica da sociedade impera sobre todo o resto. Nesta perspectiva ainda, uma interpretação materialista da História, devidamente actualizada, deverá reconhecer que o grande agente revolucionário tem sido o capitalismo, não o proletariado industrial que já passou «ao lado», por assim dizer, do curso da História, tendo pràticamente desaparecido do seu grandioso e desconcertante palco pelo último quartel do século passado.

Se gostamos ou não «desta» História, em lugar da tradicionalmente contada pelos marxistas, é outra questão: convém evitar, como dizem os ingleses, o wishful thinking, isto é, confundir desejos com realidades.

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