O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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Como avistar a via perdendo a vista?

Os remotos anos 60 são também a época do início das guerras de libertação nas colónias portuguesas, da aventura do Santa Maria, do falhado e ingénuo golpe dos generais e outras peripécias internas do sistema político português.

É pois natural que os jovens contestatários do regime português, vissem nessa paisagem circundante de grandes convulsões uma espécie de mostruário ou de menu onde cada um poderia escolher a sua via revolucionária. E assim foi sucedendo ao longo daqueles anos, cada um servindo ou servindo-se, na teoria ou na prática, da sua utopia revolucionária.

Pela minha parte, e doutros dos quais estive próximo nesses anos, o interesse estava em qualquer coisa que fizesse a síntese do melhor da Jugoslávia, da Suécia, talvez da Roménia... Um socialismo democrático com política externa independente era o nosso sonho. Como suponho ter sido o do malogrado Melo Antunes a quem a feliz transição portuguesa para a democracia tanto ficou a dever.

Mas naquele tempo ninguém se entusiasmava (a não ser, claro, o republicano Dr. Mário Soares) com aquilo que considerávamos ser a democracia burguesa. Desejávamos muito melhor do que isso e não estávamos ainda maduros para compreender a frase de Churchill, segundo a qual a democracia é o pior dos regimes políticos com excepção de todos os outros.

Ou dito doutra maneira: ainda não conseguíamos entender, em profundidade, que o grande mérito da democracia é evitar coisas ainda piores, permitindo ao mesmo tempo que os cidadãos, se o forem verdadeiramente, teçam e enriqueçam a sociedade civil.

Mas parecia então haver muitas vias revolucionárias na grande estrada para a utopia, ao contrário do que sucede quarenta anos mais tarde, em que nem na teoria nem na prática se vislumbram alternativas ao curso «natural» dos acontecimentos.

Ou à imensa e implacável dinâmica do capitalismo desenvolvendo-se na História.

Mas talvez a diferença esteja sobretudo nos nossos olhos. Questão assim fundamental:

Perdeu-se a via (de vista) ou perdeu-se a vista (da via)?

A verdade é que a economia e sociedade portuguesa se apresentavam de tal modo divorciadas do tempo planetário que manifestamente, mais tarde ou mais cedo, uma grande ruptura iria ter lugar. Apercebíamo-nos, embora confusamente, num misto de grandes esperanças e grandes decepções que o potencial revolucionário da situação portuguesa era crescente. Como se um enorme, ainda que vacilante, dique impedisse em Portugal o fluir da História; esperávamos que, ao desfazer-se, traria a abençoada inundação, um fulminante aggiornamento.

Com a morte política de Salazar, a morte política do regime foi definitiva; a passagem da correspondente certidão do óbito foi apenas por breves anos adiada.

Marcelo Caetano chegou tarde de mais à sucessão e não teve talento para gerir a transição.

Encontrei-me com ele, quando Presidente do Conselho, por duas vezes, a sós, a pretexo da gravidade da situação financeira da CP (de que eu era então administrador por parte do Estado, levado pela mão amiga de Neto de Carvalho, ao tempo simultâneamente presidente do Conselho de Administração da CP e director do Instituto de Estudo Sociais, de que eu fui um dos fundadores e donde em 1972 nasceria o actual ISCTE).

Mas era apenas o pretexto: o assunto real da conversa era a crise académica e a angústia de Marcelo referia-se à situação não da CP mas do ISCEF, onde eu era professor. E a localização física do instituto do Quelhas, bem perto da Emissora e da Assembleia Nacional, sugeria uma localização essencial no corpo envelhecido do regime.

Julguei perceber no meu interlocutor, para minha surpresa, triste e tímido, uma profunda incompreensão pelo que se passava e, ao mesmo tempo, uma inquietação sem esperança.

Creio que nunca entendeu o que se estava a passar em Portugal nem a aproximação do temporal que já se avizinhava.

Compreendi que só na aparência vivíamos no mesmo espaço-tempo.

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