O ECONOMISTA ACIDENTAL
(e voador frequente)

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O que aconteceu «na verdade»?

Era o verão de 1939, eu tinha seis anos e brincava no jardim da casa dos meus pais na rua Angelina Vidal, à Graça. A minha mãe, muito branca no seu vestido vermelho, apareceu à janela da cozinha e gritou, como se isso me interessasse: Os alemães invadiram a Polónia, disseram agora na rádio.

Lembro-me não só do facto anunciado, que deveria ser muito importante, mas também da minha dificuldade em perceber «realmente» do que se tratava. Houve depois, na escola, as «púrrias» (combates à pedrada) entre os filhos dos anglófilos e os filhos dos germanófilos - estes em menor número - os filmes alemães, onde se via os Stukas, em voo picado, atingirem populações indefesas (sobre isso, já tinha opinião), os gasogéneos nos automóveis, as galinhas e os coelhos nas varandas, prevenindo dificuldades de abastecimento, as tiras de papel nos vidros, para evitar os estilhaços, as «refugiadas» de turbante e de má reputação...

Não me lembro de quando vibrei, pela primeira vez, ouvindo Paul Henreid cantar a Marselhesa, na companhia de Ingrid Bergman, no café de Humphrey Bogart (Rick), em Casablanca. Mas ainda vibrei, recentemente, num hotel em Shanghai, quando um chinês simpático e cinéfilo me perguntou, em inglês, pelas minhas origens e eu lhe disse que vinha de Lisboa.

Ah, Casablanca, foi a sua reacção sorridente e cúmplice, que me deixou feliz.

Á distância, noto a ironia da situação: Lisboa, capital duma ditadura triste e sem horizontes, como porta do «mundo livre»!

São do início da Segunda Guerra Mundial as minhas recordações mais antigas como criança que também é cidadão do mundo (como são todos os humanos de qualquer idade, saibam ou não saibam isso). Sessenta anos volvidos, sinto a mesma necessidade, talvez ingénua, mesmo vã, de Setembro de 1939: perceber o que realmente e na verdade se passou e passa.

Nunca simpatizei com o mr. Maggoo (o Pitosga) dos desenhos animados que, cheio das melhores intençóes do mundo, passava pelos acontecimentos sem perceber nada de nada, nem sequer os efeitos da sua passagem pelos acontecimentos.

No fim de contas, qual a moral destas histórias em que nos envolvemos ou que nos envolvem? Não há moral, em nenhum sentido? Não haverá, ao menos, o meu sentido?

Esta desmesurada curiosidade pelo tempo que me cerca, está na origem das crónicas que se seguem. São memórias pessoais de acontecimentos colectivos, notas de vivências ocorridas ao longo da segunda metade do Séc. XX.

Ou dito doutro modo. É a «verdade» vivida e pessoal (haverá outras?) sobre histórias e a História do meu tempo.

Mas é importante avisar o leitor, desde já, que se trata da «verdade» dum economista acidental e voador frequente. Passo a explicar.

O meu pai, que mais admiro à medida que o tempo passa, era contabilista e quando chegou a altura, no quinto ano de liceu, de escolher o meu destino no ensino superior, optou compreensivelmente por Económicas e Financeiras. A opção que ele próprio teria feito se tivesse tido a oportunidade que me ofereceu, com uma vida de sacrifício. Noto que os meus pais, de condição modesta, tiveram o bom senso de me fazer filho único, o que me permitiu o acesso à universidade. E tiveram também a lucidez de me contrariar na opção que eu preferiria, o curso de Letras, o qual na minha tenra imaginação da infância, me prepararia para a profissão de escritor...

Claro que detesto e sempre detestei a Contabilidade, mas sinto-me feliz por ser economista, mesmo acidentalmente, como se viu. Julgo que a minha visão do mundo deve muito a isso, embora seja um economista, para o bem ou para o mal, pouco representativo da classe.

E acrescento que não aprendi verdadeiramente «Economia» no ISCEF (o então Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras da rua do Quelhas, com ingreme acesso pela Calçada do Pasteleiro), mas outras coisas.

Por exemplo, a jogar matraquilhos. Mas não só, «na verdade».

Pinto Barriga, um original e imaginativo professor de Direito, deputado da União Nacional, ofereceu-me um dia o livrinho de Emmanuel Mounier da colecção Que sais-je?, intitulado Le personalisme. O livro foi para mim uma revelação, marcou-me profundamente, e foi o começo duma evolução que me conduziu ao catolicismo, anos mais tarde, e à proximidade e amizade de pessoas como Nuno Teotónio Pereira, Pedro Tamen, Nuno Portas, Nuno Bragança, João Benard da Costa, e outros.

Tal como economista, assim me tornei personalista acidentalmente.

Na verdade, só aprendi a «ciência triste», depois da licenciatura, nos meus primeiros empregos de funcionário público, primeiro no Centro de Estudos Sociais e Corporativos, dirigido por Sedas Nunes, e depois na Divisão de Estudos de Economia Industrial da primeira fase do INII (Instituto Nacional de Investigação Industrial).

Nessa época, o ensino das disciplinas de Economia estava sobretudo a cargo de três jóvens e promissores assistentes, em início de carreira, que o Prof. Pinto Barbosa - discípulo dilecto de Salazar, seu Ministro das Finanças e depois Governador do Banco de Portugal - dirigia à distância.

Esses assistentes eram Francisco Pereira de Moura, Luis Maria Teixeira Pinto e Jacinto Nunes. O primeiro ainda não era o excelente professsor que depois se tornou e de cuja amizade pude beneficiar anos mais tarde. Fui aluno de todos eles e também assistente de Francisco Moura, de quem me encontrei ainda, bons anos mais tarde, companheiro de fugazes e apaixonantes governos provisórios em 1974 e 75.

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