Cartas de Navegação

por Miguel Monteiro
(Contacto: 00.351.226075670)

8
A dor e os empreededores

Na vida, como nos negócios há duas posturas diametralmente opostas: a das pessoas que procuram resultados, sujeitando-se para isso à assunção de responsabilidades e a eventuais sacrifícios; e os que simplesmente não se sentem mal em pouco evoluir, fugindo aos compromissos e arranjando sempre desculpas fora deles mesmos para o insucesso.

Estas atitudes dependem, do meu ponto de vista, do maior ou menor desconforto perante a dor (entendida aqui em sentido lato). Ou seja, há indivíduos que, independentemente da sua posição numa empresa, sentem um incontornável mal-estar sempre que os resultados não são os esperados e procuram encontrar e solucionar os respectivos problemas. Enfrentam as adversidades, não as evitam! Enquanto outros arranjam desculpas para o que corre mal, procurando evitar sentir qualquer sofrimento por isso. Fogem às responsabilidades e não se angustiam com o avolumar das dúvidas e incertezas do negócio.

Assim, temos aqui claramente a linha de fronteira entre as pessoas que evoluem e as que não atingem tal condição. Os primeiros sentem uma dor psicológica sempre que as expectativas são goradas e, por isso, tentam corrigir os erros e têm a coragem de assumir as fraquezas (até para se livrarem da dor ). Os segundos desculpabilizam-se aludindo para factores externos a eles próprios, não procuram solucionar os problemas, porque nem sentem que têm culpa no processo.

Por outro lado, as pessoas que aceitam a dor da culpa, aceitam-na melhor quando acreditam que tal sofrimento os irá ajudar a eliminar uma dor maior. Isto é, são capazes de aguentar minimizando o mal-estar de uma situação adversa se anteverem que, no final, esse mal-estar poderá ser frutuoso.

Este cenário verifica-se, por exemplo, durante a criação de uma empresa, por parte de quem está já empregado. O novo empresário sente a dor do risco que significa o investimento inicial e toda a instabilidade, mas ainda assim consegue suportar essa dor na certeza de que conseguirá eliminar outros factores que lhe são igualmente incomodativos: a falta de liberdade laboral, a não realização profissional, as dificuldades financeiras domésticas, etc. A perspectiva de ultrapassar tudo isto serve, então, de analgésico perante a dor inicial de montar um negócio.

É como um corredor que, apesar de exausto e ainda longe da meta, encontra na perspectiva da vitória as energias para suplantar a dor. Uma derrota seria um sofrimento ainda mais forte que o cansaço, por isso ele consegue ultrapassar o desgaste físico e psicológico ao concentrar-se unicamente na vitória.

Da mesma forma, o empreendedor mostra-se tolerante à dor quando sabe que o sofrimento lhe trará resultados positivos. No meu caso específico, eu arriscaria mesmo falar de uma certa inconsciência da dor, que me leva a arriscar bastante na prossecução de um negócio. Talvez isto tenha a ver com o meu feitio optimista e com a autoconfiança que fui ganhando através de experiências empresariais anteriores razoavelmente sucedidas. É quase uma fé! Eu sinto-me capaz de resolver variadíssimas situações ainda que não lhes anteveja com exactidão o fim.

A vivência anterior condiciona, como é óbvio, a visão que tenho do Mundo e ajuda-me a suportar a dor que é inerente à criação e gestão de um negócio. Se arrisco um determinado investimento é porque, no meu subconsciente, é relativamente fácil ultrapassar o temor que tal decisão provoca.

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte