Cartas de Navegação

por Miguel Monteiro
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Cultura de exigência versus produtividade

Nos últimos 15 anos, a nossa produtividade passou de 40 para 44% da média da União Europeia referente a este indicador económico. Isto significa que, apesar da enxurrada de milhões proporcionada pelos fundos comunitários, Portugal continua a produzir pouco e, por conseguinte, a revelar falta de competitividade nos mercados externos. O crescimento da nossa economia assentou, sobretudo, no consumo interno, mas esta estratégia é hoje insustentável. Existem cerca de 800 mil famílias portuguesas endividadas e a despesa pública absorve quase metade do PIB.

É fácil elencar algumas das razões da nossa improdutividade: o baixo nível de formação da mão-de-obra portuguesa, a ausência de uma tradição empresarial competitiva e inovadora, a mastodôntica burocracia estatal, a ineficiência dos serviços públicos (educação, saúde, justiça...), a excessiva carga fiscal, a obsolescência tecnológica das empresas, as insuficiências da nossa rede de acessibilidades... Mas no topo desta pirâmide de carências está, antes de mais, um problema cultural: o baixo grau de exigência que se faz sentir, praticamente a todos os níveis, na sociedade portuguesa.

Come e cala

Portugal é o país do «come e cala». Ninguém quer ter chatices ou assumir responsabilidades. Até porque somos todos, mas mesmo todos sem excepção, uns «gajos porreiros». Este «nacional-porreirismo», esta cultura do «deixa andar que depois se verá», leva-nos a contemporizar perante o erro, a exigir o mínimo, a evitar sacrifícios e a fugir às responsabilidades. Vivemos, pois, numa paz podre, num falso contentamento, em que poucos se dão à maçada de mandar o bife estorricado para trás ou exigir boas maneiras no atendimento público.

Este défice de exigência tem, como é óbvio, repercussões negativas no funcionamento geral da economia. Se o consumidor não reclamar, os serviços não melhoram. Se o empresário não incutir um maior profissionalismo nos seus empregados, a produção manter-se-á baixa. Se o retalhista não exigir produtos de maior qualidade, o cliente final é mal servido. Se o contribuinte/eleitor não for mais incisivo perante o poder político, o dinheiro dos impostos continuará a ser desbaratado. Se o utente for permissivo face ao Estado, os serviços públicos permanecerão paupérrimos. E assim por diante. Trata-se de uma verdadeira «pescadinha de rabo na boca», em que não se sabe onde começa nem acaba o processo mas reconhece-se uma matriz comum: a ausência de uma cultura de exigência.

A responsabilidade do Estado

É claro que, mais do que a idiossincrasia de um povo, esta diminuta aptidão reivindicativa é fruto do atraso cultural e das carências educativas que persistem no nosso país. Neste capítulo, não se verificaram, de resto, grandes progressos nos últimos anos. Para dourar as estatísticas sobre o ensino português, e desta forma aproximá-lo das performances dos nossos parceiros comunitários, os governos das últimas legislaturas implementaram regimes educativos que, ao invés de promoverem o mérito, recompensarem o esforço, estimularem o conhecimento e fomentarem o trabalho abnegado, facilitam a passagem lectiva dos alunos. Ou seja, também na escola tem faltado uma cultura de exigência, reinando o laxismo e a indulgência na generalidade do ensino público. Assim se formam alunos com enormes lacunas técnicas, científicas e culturais e com pouca capacidade de sacrifício, o que se irá reflectir, a posteriori, na produtividade laboral.

Mas a responsabilidade do Estado não acaba aqui. No capítulo estritamente económico, a administração central é um exemplo a não seguir, dada a sua tendência para o esbanjamento e para a improdutividade. A despesa estatal corresponde hoje a quase metade do produto português, sem que os contribuintes sejam devidamente recompensados em termos de serviços públicos eficientes. A função pública portuguesa, por exemplo, gasta cerca de 15% do PIB, quando na Irlanda esse valor é de cerca de metade: 8,7%. E o panorama tem vindo a agravar-se, pois só com este governo socialista entraram para o Estado mais de 50 mil funcionários!

A administração pública portuguesa assemelha-se, pois, a um poço sem fundo, onde caiem sem amparo recursos financeiros que poderiam ter uma aplicação mais produtiva no sector privado. Acresce ainda que o Estado é um dos principais clientes do tecido empresarial português, mas como paga mal e bastante tarde provoca disfunções nas empresas, em vez de as dinamizar como seria desejável. Por outro lado, a administração central não cria um ambiente favorável à iniciativa privada, uma vez que impõe às empresas uma pesada carga fiscal, envolve a actividade económica numa espessa teia burocrática e disponibiliza serviços e infra-estruturas públicas de baixa qualidade.

O Estado é, então, o exemplo perfeito de uma organização onde não vigora uma cultura de exigência. Tudo é permitido: desperdício financeiro, improdutividade crónica, burocracia, laxismo, ineficiência, incúria, nepotismo e até corrupção. Todos estes maus hábitos parecem ser tolerados dentro de uma administração gigantesca, que pouco exige a quem nela trabalha ou se relaciona profissionalmente. Assim, quem devia apresentar-se perante a sociedade civil como modelo de exigência, rigor, sacrifício, parcimónia, produtividade e qualidade de serviço, abstém-se de o fazer.

Com esta atitude, o Estado português assume-se como o mais forte travão ao desenvolvimento económico do país. Em vez de contribuir para a modernização das nossas estruturas produtivas, a administração central acaba por «cortar as pernas» ao sector privado, nomeadamente ao não fomentar um «ecossistema» que promova níveis de exigência elevados.

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