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por Miguel Monteiro
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As costas largas da crise

Atitude anti-crise

A crise. Ai Jesus, a crise! Depois de vários anos de optimismo empresarial, essa palavra maldita volta a andar na boca de toda a gente. Arrefecimento económico nos Estados Unidos, queda das bolsas europeias, descrença na Nova Economia, euro fraco, quebra no investimento, taxas de juro altas... e toma lá uma crise mundial!!! Por cá, o cenário não é melhor. O País parece ter ido na enxurrada das violentas chuvas de Inverno. Não reage. Está apático, macambúzio, acabrunhado. Deixa-se ir na onda da crise, pouco fazendo para contrariar a sua correnteza de pessimismo e melancolia.

Portugal, já sabíamos, é a pátria do choradinho, das queixinhas, das desculpas fáceis, do «valha-me Nossa Senhora», do «não há nada a fazer». E, em alturas de maior aperto, há uma clara tendência para a resignação, para o abatimento. Em vez de reagir, o País prefere arranjar desculpas que o ilibem dos maus momentos. Veja-se o caso do actual Governo. Quando confrontado com as más performances económicas, a justificação é sempre a mesma: «o nosso atraso é estrutural e a conjuntura externa não é favorável». Ou seja, «a culpa não é nossa e nós, mesmo que quiséssemos, pouco poderíamos fazer para contrariar a situação».

Ora, no mundo empresarial português passa-se exactamente a mesma coisa. A crise tem as costas largas. Serve para justificar a incompetência, a má gestão, a improdutividade, a falta de qualidade dos serviços, a ausência de estratégia, a pouca capacidade de risco, os investimentos disparatados... Enfim, é uma oportunidade de ouro para a desresponsabilização, para a inércia, para o «deixa andar» tão português.

A síndrome da realimentação negativa entre os empresários portugueses

Acresce que o grosso dos nossos empresários age por comparação. Se nos outros vê crise, então aqui d’el rei que a crise também vai chegar ao meu negócio. Numa conjuntura económica desfavorável, o empresário não procura olhar para a sua empresa e prepará-la para um possível embate negativo. Prefere agarrar-se à muleta da crise e continuar mancando até que as nuvens negras passem. Entretanto, pode ser que venha um «subsidiozito» para amenizar a situação...

Verifica-se, portanto, aquilo a que chamo de «realimentação negativa». O empresário intui a imagem negativa que lhe é dada pela macroeconomia, exorbita-a e incute-a a um nível microeconómico, ou seja, no seio da sua empresa. Acaba, então, por valorizar excessivamente os factores externos ao seu negócio (retracção no consumo, menor investimento, subida das taxas de juro, descida dos preços, quebra de produção e de rendimento...) , em detrimento dos factores internos (produtividade, qualidade do serviço, motivação da equipa, coerência estratégica, capacidade de investimento, gerar valor no cliente...), quando a atitude deveria ser a contrária.

Em momentos de crise, o empresário deve olhar para dentro da sua empresa e aí encontrar forças para combater a adversidade. A dinâmica interna é fundamental para rechaçar eventuais impactes negativos, ao contrário de uma gestão assente quase em exclusivo na evolução dos factores externos. De resto, um empresário de uma qualquer PME não controla a conjuntura que o rodeia, limitando-se a possuir um domínio, mais ou menos efectivo, sobre os factores endógenos do seu negócio. É, portanto, nesses que se deve deter.

O empresário tem de procurar as soluções dentro da sua empresa e não fora. Não pode ficar à espera que as condições favoráveis ao crescimento apareçam graças, unicamente, a fenómenos exteriores. Deve, isso sim, criar internamente um ambiente favorável à expansão do seu negócio. Como? Assumindo a crise sem temores, motivando a sua equipa para um esforço redobrado, afinando a estratégia, apostando na inovação e não se coibindo de investir, se for caso disso.

Uma boa empresa vê-se nos períodos de retracção económica

Nesta perspectiva, a crise pode até ser benéfica para algumas empresas. Nos momentos difíceis descobrem-se, por vezes, energias, recursos, potencialidades que permaneciam escondidas ou subaproveitadas. Algumas empresas como que se descobrem a si próprias, devido à pressão a que são sujeitas. São obrigadas a recorrer às suas reservas energéticas, de forma a contornar o caudal de problemas que a onda da crise arrasta. Nesse sentido, eu considero que uma boa empresa vê-se nos períodos de retracção económica.

A capacidade de adaptação das empresas à crise é um dos principais critérios de solidez económica e viabilidade empresarial. Quando a gestão é competente, quando há inovação e criatividade, quando se quebram modelos e se criam outros, quando há estratégias bem definidas e equipas mobilizadas, os factores externos ao negócio acabam por ter um peso menos significativo no modus vivendi das empresas.

Aliás, as empresas realmente sólidas e empreendedoras, e não as de fachada, continuam a crescer mesmo nas conjunturas económicas mais difíceis. Portanto, PAREM DE SE DESCULPAR COM A CRISE!

Atitude anti-crise
  • Evitar a «realimentação negativa»
  • Privilegiar os factores internos da empresa
  • Assumir as responsabilidades
  • Não procurar desculpas externas para o fracasso
  • Mobilizar a equipa de colaboradores
  • Acreditar que o crescimento é possível
  • Apostar na inovação
  • Ser ainda melhor
  • Criar valor acrescentado ao cliente
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