Cartas de Navegação

por Miguel Monteiro
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O fim da Nova Economia?

De Março de 1999 a Março de 2000, o NASDAQ obteve ganhos históricos da ordem dos 116%. O optimismo em torno da Nova Economia era, então, absoluto e ninguém parecia temer um «crash». Mas eis que a 14 de Abril de 2000, uma sexta-feira, o índice bolsista das Tecnologias de Informação cai 355,49 pontos, gerando o pânico entre os investidores. A partir daí, o NASDAQ passou a comportar-se como um «iô-iô»: sempre aos altos e baixos.

Essa célebre «sexta-feira negra» da Nova Economia foi o princípio do fim da euforia que rodeou, dentro e fora dos mercados financeiros, as «dot.com». Depois de uma bebedeira generalizada, em que os investimentos eram realizados com a presunção de que tudo o que tivesse a ver com a Internet era sinónimo de sucesso empresarial, a Nova Economia entrou numa dolorosa ressaca. Assiste-se, desde essa altura, a uma progressiva selecção natural, em que o mercado rejeita os negócios baseados em expectativas e acolhe apenas as «dot.com» verdadeiramente rentáveis e consolidadas.

Mas por que é que tantos se enganaram em tão pouco tempo e com tanta displicência? Perante um abismo do qual não sabiam bem a altura, muitos preferiram atirar-se do que ficar cá em cima a ver os outros banharem-se num qualquer rio de oportunidades. Para muitos foi uma atitude suicida, mas ainda assim preferível à apatia, à contemporização, ao «esperar para ver». Havia, de resto, a consolação de que, se o precipício fosse realmente muito alto, todos acabariam por cair – embora o impacto da queda tivesse sido maior para uns do que para outros.

De salientar, todavia, que, perante um fenómeno novo - neste caso o paradigma económico gerado pelas Tecnologias de Informação -, os investidores mais não fizeram do que tentar conquistar o eldorado antes que outros o conseguissem. Só que, como ficou mais tarde evidente, as mudanças introduzidas pela Internet nos negócios foram mais profundas do que à primeira vista se pensaria e, por isso, os empresários não conseguiram percebê-las de imediato. Assim, sem modelos de actuação ou critérios de avaliação já definidos e testados, o mercado acabaria por premiar empresas pouco sustentadas e prejudicar outras mais promissoras. Só mais tarde, quando a euforia se esfumou, é que foi possível «separar o trigo do joio».

Terminado o frenesim em torno do e-business, e em concreto a loucura bolsista, verificou-se um fenómeno curioso: a reabilitação dos critérios económicos da Velha Economia. Ou seja, as «dot.com» tiveram de incluir no seu vocabulário conceitos como rentabilidade/cash flow, contenção de custos, estratégia empresarial, redução de recursos humanos ou criação de sinergias. A estas empresas já não bastava serem apenas inovadoras e arrojadas, e muito menos viverem na dependência dos capitalistas de risco ou das valorizações em bolsa. Daí que o investimento passasse a ser orientado para a maximização dos lucros e não em função de business plans virtuais.

Por outro lado, a distinção entre Nova e Velha Economia tornou-se mais opaca. Para além da recuperação de antigos critérios económicos pelas «dot.com», os sistemas de comunicação digital assumiram-se como uma realidade incontornável para a maioria dos negócios, mesmo os ditos tradicionais. Passou a ser corriqueiro o uso da Internet como fonte de informação e de comunicação através do e-mail; foram introduzidos, com custos cada vez mais reduzidos, sistemas de informação; e, aos poucos, começaram a ser experimentadas as transacções comerciais on-line.

Um novo conceito

Por conseguinte, as estruturas produtivas da Velha Economia encontram-se hoje cada vez mais dependentes das Tecnologias de Informação, o que está a provocar a aceleração dos seus processos decisórios e a modificação das respectivas organizações internas. Actualmente, as comunicações já não são uma vantagem competitiva, mas apenas variáveis de produção.

A conclusão a que se chega é que ninguém quer ser um «info-excluído», ou seja, ninguém arrisca ficar longe da Nova Economia. Tanto mais que, hoje, o poder político está sensibilizado para as vantagens das Tecnologias de Informação, a educação e a formação estão a ser direccionadas para esta área, já existem rigorosas molduras legais para a Internet e para o comércio electrónico, as infra-estruturas de telecomunicações são livres e competitivas, a acesso à net está mais barato, as barreiras culturais esbateram-se... Enfim, existe uma conjuntura favorável à aproximação da Velha à Nova Economia e, porventura, à fusão destes dois conceitos.

Estamos, portanto, na iminência de uma nova realidade económica, em que existem as «dot.com» puras, como os portais, os motores de busca, a banca on-line, os media on-line, entre outros, e um conjunto cada dia mais vasto de empresas híbridas, que utilizam os sistemas de comunicação rápida no âmago das suas actividades mas, ao mesmo tempo, mantém as respectivas estruturas físicas a laborarem.

Assistimos, portanto, à progressiva extinção das empresas «not.com», as quais não têm o seu modus operandi baseado na Internet, e ao aparecimento fulgurante de negócios que, em simultâneo, desenvolvem actividades on-line e off-line. Chamar a isto Nova Economia parece-me, no entanto, um pouco descabido. A solução seria encontrar um conceito novo...

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