Cartas de Navegação

por Miguel Monteiro
(Contacto: 00.351.226075670)

13
Por uma cultura de exigência

Muito se tem falado da produtividade nacional, um indicador que está a comprometer seriamente a competitividade das empresas portuguesas, bem como a competência, a eficácia e a saúde financeira da nossa Administração Pública - a qual, como se sabe, se encontra num estado comatoso. Entre as causas geralmente apontadas como motivadoras desta nossa parca performance laboral estão a baixa qualificação educacional e profissional dos portugueses, a deficiente gestão de recursos (orçamentais, técnicos e humanos) e a falta de mecanismos de avaliação (efectivos) do desempenho dos trabalhadores e quadros dirigentes (sobretudo na função pública).

Não renegando os factores aqui aventados, penso no entanto que umas das principais causas da improdutividade portuguesa é do foro temperamental e tem haver com o ambiente de baixa exigência instalado, os MÍNIMOS profissionais de cada português, no seu posto de trabalho e que assume para si próprio. E esses níveis de exigência são motivados por factores externos, nomeadamente o ambiente laboral em que o trabalhador se integra.

Assim se explica que o Luxemburgo tenha uma taxa de produtividade 80% superior à média comunitária, mesmo que a população deste país seja composta por 25% de portugueses (!!!). Essa comunidade emigrante lusa tem até, muito provavelmente, um nível educacional e profissional mais baixo do que maioria da população activa do nosso País. Contudo, as suas performances laborais são mais elevadas, o que só se explica por existir nos emigrantes uma outra atitude perante o trabalho.

E por que é que isso acontece? Bom, dadas as contingências sociais que envolvem este tipo de fenómeno migratório - a emigração portuguesa é mais uma necessidade do que uma opção de vida - não é difícil conceber que os emigrantes portugueses no Luxemburgo souberam, por força das circunstâncias, moldar-se a uma cultural laboral de exigência e, até, de sacrifício em alguns casos. Ou seja, adaptaram-se a uma estrutura de trabalho baseada nos princípios da responsabilidade individual, do rigor, do empenhamento e da progressão profissional. E, por isso, apresentam níveis de produtividade elevados.

É claro que no Luxemburgo as condições laborais são bastante melhores do que em Portugal, nomeadamente ao nível salarial. Mas penso que a causa determinante para a produtividade dos nossos emigrantes é o ambiente de trabalho em que estão inseridos, o qual não tem paralelo com o universo laboral português, onde campeiam o laxismo, a desresponsabilização e a incúria.

O que se verifica no Luxemburgo, ao contrário de Portugal, é a vigência de uma cultura laboral que tende a elevar os mínimos profissionais da população activa, desde o simples empregado ao quadro médio ou superior. E quando falo dos mínimos profissionais refiro-me, claro está, ao nível de exigência que cada um estabelece para si próprio no respectivo emprego. Este factor parece-me ser, então, a chave para o sucesso de uma economia altamente produtiva.

Intolerância perante o laxismo

Para evitar más interpretações, é de salientar que num ambiente de grande exigência profissional as estruturas dirigentes das empresas não necessitam de recorrer a qualquer tipo de autoritarismo, pois os mais relaxados no local de emprego são socialmente mal visto e tendem a ser marginalizados pelos próprios colegas de trabalho. Há uma certa intolerância da sociedade perante o laxismo, a lassidão, a irresponsabilidade e a negligência, não sendo necessário ao patronato tomar posições de força para garantir níveis de produtividade elevados.

Sendo a democracia portuguesa relativamente jovem, é possível que a nossa baixa produtividade radique sobretudo num défice de civismo e cidadania. As pessoas ainda não encaram o trabalho como uma responsabilidade social, como um serviço que estão a prestar à comunidade. Não há ainda a ideia de que o padeiro precisa do médico na mesma medida em que o médico precisa do padeiro, pelo que todos - sublinho todos - devem fazer um esforço para cumprirem as suas obrigações profissionais da forma mais competente e produtiva possível. Trata-se de uma espécie de contrato social, no qual todos os cidadãos participam com direitos e deveres iguais.

Neste sentido, não se pense que para elevar os mínimos profissionais da população activa portuguesa bastaria uma intervenção apenas ao nível do tecido económico. Não! A intervenção tem de ser, necessariamente, mais profunda. Embora o empresário possa na sua empresa tomar medidas tendentes à elevação dos mínimos profissionais - através, por exemplo, de uma estratégia onde uma maior exigência laboral seja compensada com factores de motivação acrescidos (melhor remuneração, prémios de mérito, reforço da auto-estima do trabalhador, maior espírito de equipa, valorização individual...) -, a formação de uma cultura de exigência e responsabilidade é uma tarefa de toda a sociedade.

Uma cultura de exigência deve começar a formar-se nas escolas, como é natural e óbvio, mas terá de perpassar outras células importantes da nossa sociedade - como a família, a Administração Pública, o Governo, as empresas, as colectividades, entre outras - e lograr atingir uma esfera mais ínfima: o indivíduo. Cada um de nós tem, pois, de se deixar imbuir por essa cultura de exigência, de tal forma que sinta no quotidiano uma necessidade permanente de elevar os mínimos profissionais ou outros. Partindo desta premissa, concluímos que para elevar os níveis de produtividade em Portugal o próximo Governo terá de elaborar uma estratégia global. Isto é, uma estratégia capaz de promover uma cultura de exigência e responsabilidade nos mais variados vectores da sociedade - e não apenas nas empresas e na Administração Pública, onde a falta de eficácia laboral é mais aguda. Terá de ser realizado, então, um profundo trabalho de base, que parta da educação e contagie todas as outras esferas da sociedade.

É óbvio que se trata de uma tarefa complexa e morosa, cujos resultados só serão visíveis, possivelmente, nas próximas gerações. Por isso, não há tempo a perder, Senhores Políticos!

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte