Cartas de Navegação

por Miguel Monteiro
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A generosidade compensa

A vox populi tende a estereotipar os empresários como pessoas extremamente avarentas, capazes das maiores vilanias na procura compulsiva do lucro. E este preconceito social - tão bem retractado por Charles Dickens em "Um conto de Natal" - acaba por vezes a envenenar o relacionamento patrão/empregado, com sérias consequências para o funcionamento interno das empresas, sobretudo ao nível da produtividade laboral.

Mas, na realidade, há alguns empresários - de vistas curtas! - que acham que "no poupar é que está o ganho" quando se trata de garantir melhores condições de trabalho aos seus funcionários dilectos. São incapazes da mais singela cortesia em favor dos seus empregados, como o pagamento de um almoço ou a oferta de um pequeno presente, temendo, talvez, que estes se habituem a "mordomias desnecessárias", ou que, segundo "contas de merceeiro", esses "supérfluos gastos" sejam prejudiciais para a empresa.

Acontece que esta atitude, mesquinha e somítica, tem mais desvantagens que propriamente vantagens. Se o patrão cultivar relações de generosidade para com os seus colaboradores, está a transmitir confiança e consideração aos que com ele trabalham, daí retirando óbvios benefícios. Isto caso o funcionário não se mostre ingrato, o que por vezes também acontece.

Mas a regra geral é o empregado retribuir a generosidade do patrão assumindo um maior profissionalismo na execução das suas tarefas, disponibilizando-se para expontânea e gratuitamente estender o horário de trabalho em alturas de pico, integrando-se melhor no espírito da equipa, participando mais activamente nos grupos de trabalho, sendo mais sociável no relacionamento com os seus colegas de empresa...

E a junção de todos estes factores torna o funcionário obviamente mais produtivo, o que no âmbito do mundo empresarial português tem grande significado. Portugal está na cauda da Europa no que toca à produtividade por trabalhador, apresentando um valor que é menos de metade da média da UE (43%). Nesta linha de raciocínio, posso concluir que o défice de produtividade português não resulta apenas da escassa qualificação da mão-de-obra e dos obsoletos meios técnicos e tecnológicos de que ela dispõe, mas também da forma como são geridos os recursos humanos dentro das empresas.

Empresários que se comportam como senhores feudais, desprezando os seus colaboradores e não lhes dando estímulos para desenvolverem um bom trabalho, são forças motivadoras da abstinência, do desinteresse, da indolência e da irresponsabilidade no meio laboral. E, por isso, também eles devem ser responsabilizados pelo menor desempenho dos nossos trabalhadores.

Por outro lado, o ser humano é naturalmente egoísta, ou seja, entre as hipóteses disponíveis ele escolhe sempre a que me mais lhe agrada, porque sofre menos ou porque goza mais; sendo assim, sempre que um modelo de gestão consegue alinhar num mesmo vector os interesse do funcionário e os interesses da empresa, aumentam as possibilidades de sucesso, pois todos se tornam mais flexíveis e persistentes nos objectivos, ganhando também com eles.

Tudo isto pode parecer "paleio" de sindicalista, mas acontece que eu sou empresário de corpo e alma - e tenho muito gosto nisso! Ressalvo, no entanto, que não me revejo na arrogância e avareza de certos, eu não lhes chamaria empresários, mas sim donos de empresas, que na ânsia do lucro pisam as mais elementares relações laborais e os mais básicos direitos dos trabalhadores.

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